segunda-feira, 19 de outubro de 2009

O jogo dos sete erros

Percebi, nesses últimos tempos, que perdi a generosidade para com o futebol e com as coisas que a ele se relacionam. O que poderia, há um tempo atrás, contar com a minha tolerância (ou até mesmo me agradar), hoje em dia só me causa irritação e descontentamento. Até entendo o porquê de os comentaristas ainda encararem com tanta festa o que acontece nos gramados mundo afora - afinal de contas, eles lá estão porque amam o futebol, e resolveram fazer disso o seu ganha-pão. Só que aí reside o que mais me deixa aterrado: a paixão não pode excluir a razão. No início, fazemos besteira em nome daquilo que amamos, graças à imaturidade e à descoberta; com o tempo, já temos discernimento suficiente para separar o que é certo e o que é errado dentro de uma relação. Pois, vemos hoje, claramente, em qualquer mídia, que a linha que separa o olhar benevolente e carinhoso da calhordice hipócrita é mais tênue que que sequer imaginamos.

Ontem, o tal de Arnaldo Ribeiro, articulista da ESPN Brasil e co-apresentador do Sportscenter ao lado do péssimo André Kfouri (suas fracas piadinhas e falsa descontração chegam a dar vergonha alheia) disse, logo no início do programa, como se fosse um pé no peito à moda do antigo telecatch, que o atual Brasileirão é um campeonato "sensacional". Admito que, se a pessoa pega apenas a tábua de classificação, com suas diversas possibilidades de queda e ascensão das equipes, pode até pensar que trata-se, sim, de um torneio instigante. Mas o que se vê dentro de campo não é, mas nem de muito longe, tão genial quanto os números, sempre frios, possam apregoar. Peguemos o jogo de domingo como exemplo: parecia que tínhamos 22 mortos-vivos no gramado do Palestra Itália. Um Flamengo que fez o necessário para estar à frente do placar, e nada mais; um Palmeiras que parecia se arrastar em campo, com atletas passivos, desmotivados, entregues ao resultado adverso. Um jogo vagaroso, de técnica pobre, totalmente sem atrativos - e falamos de dois dos que ocupam as cabeças da tabela, candidatíssimos ao título! Como um campeonato que apresenta uma partida lamentável como essa pode ser considerado "sensacional"? E nem cito as outras pelejas da rodada, tão deprimentes quanto.

Que o comentarista é apaixonado pelo esporte, por suas variantes, estatísticas, camisas e tudo o que o cerca, é notório. Aplausos para ele, com toda a sua cultura futebolística. Mas o amor também pressupõe crítica. Se você gosta de alguma coisa, precisa também saber enxergar e apontar o que acontece de errado com ela, no intuito de melhorá-la. Engolir lixo não-reciclável e arrotar que trata-se de coisa "sensacional" é o mesmo que a esposa trair o marido continuamente (ou vice-versa), e este(a) permanecer conformado com tal destino, em nome da paixão que nutre pela cara-metade. Nosso amigo Arnaldo, pelo visto, prefere criar ilusões e devaneios a respeito de sua musa, e não enxergá-la como realmente é. Contenta-se em viver num mundinho de ficção, criado para mascarar a sórdida realidade em nome do corporativismo. Tal atitude pode ser classificada com uma quantidade enorme de nomes, a maioria deletérios - mas nunca, JAMAIS, pode ser confundida como generosidade. Faça-me o favor.

domingo, 11 de outubro de 2009

Um viva à corrupção

Uma vez, quando da transmissão de um jogo da seleção brasileira (provavelmente em uma Copa América, mas não me recordo qual), Luciano do Valle mostrou como as coisas são feitas na TV pós-Galvão Bueno. As imagens mostravam uma falta ou um lateral contrário ao Brasil, claríssimo, não apontado pelo árbitro, quando o solerte narrador disse: "e o o juiz não marcou... felizmente". Em pleno ar, ao vivo, sem o menor constrangimento, o popular "Bolacha" absolveu o apitador de seu erro, exatamente porque premiou a seleção de seu país. Mostrou, ali, em um lance que deveria passar despercebido, que podia ser conivente com um favorecimento ilícito (ou seja, com corrupção), e conclamou os que assistiam a fazer o mesmo - e estes, sob a ilusória bandeira do "patriotismo" a todo momento levantada pelo cronista, concordavam e aplaudiam, hipnotizados em suas casas. Não me esqueço dessa passagem porque pouca coisa pode ser tão reveladora da hipocrisia reinante nesse patético ufanismo que envolve a seleção brasileira - mas o que mais me marcou foi ver exposta, com tamanha clareza, a fragilidade da moral humana. Se o erro favorece a outra pessoa, não pode passar batido; se me envolve, já o recebo de bom grado, era a mensagem da "inocente" frase de Luciano. A mesma pessoa que reclama de um político corrupto ou dos desmandos da administração de seu condomínio ou do chefe no trabalho, por exemplo, é aquela que acha certo pisar em outra para subir de cargo ou que não acusa ter recebido um dinheiro a mais no seu contracheque, fim do mês. Dois pesos, duas medidas.

Lembro desse momento porque, ontem, o nosso querido apresentador atacou de novo. No jogo do campeonato sub-20, entre Brasil e Alemanha, ele disse que, "para nossa sorte", o melhor jogador germânico havia saído da partida, contundido. Outra vez, fez uso da filosofia "é a favor da gente, tá valendo" - e, dessa feita, até mesmo a eliminação de um adversário foi vista como algo acetável, se o que está em disputa é a "nossa" sobrevivência. Logo Luciano do Valle, o sujeito que, há um bom tempo atrás, tanto estimulava o fair-play no futebol, agora estimula o "olho por olho, dente por dente", à imagem e semelhança de seu belicoso colega global. Esse não é o papel de um narrador esportivo. A partir do momento que a pessoa passa a usar o microfone para vomitar recalques e preconceitos, com a máscara patriótica servindo de desculpa, deturpa-se por completo a sua função. Ele está lá para ser o mediador do público com o espetáculo, e não um incitador da tragédia e o pretenso porta-voz da honra, dos desejos e dos sentimentos de um país. Assim como os jogadores que lá estão, e a própria seleção como instituição, não nos representam, exatamente porque se construiu uma (proposital) distância abissal a separar o público das "estrelas", as débeis palavras dos nossos narradores, encastelados em seu cinismo e arrogância, não nos representam também.

Torcer contra a seleção canarinho: cada vez mais, uma questão de resistência.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Ainda (e sempre) contra!

Aconteceu o que era esperado: a migalha do Primeiro Mundo veio, enfim, para o Brasil. Em sua sede por ser grande, por ser europeu ou norte-americano, e para mostrar ao planeta globalizado e "pós-crise" (risos) que é um país "emergente", confiável e de muito valor para o sempre cobiçado capital estrangeiro (termos esses usados pelas revistas semanais de informação neoliberal, e que apenas reproduzo aqui), o país do Carnaval será, também, o país da Copa do Mundo e da Olimpíada. De nada adiantou o exemplo de Tóquio e Chicago, localidades cujas populações rejeitaram veementemente a realização do evento por lá (lucidez, eis um benefício que o investimento em educação pode gerar): enquanto essas cidades não precisam provar nada para si mesmas e ao mundo, e entendem que gastar bilhões de verdinhas em uma festinha de duas semanas é cretinice das brabas, o Brasil quer porque quer ser aceito pela cúpula. É, o complexo de inferioridade, nessas horas, fala mais alto. Parece até gritar. Aí, foi a hora de os desenvolvidos, os poderosos, fazerem a sua média com a parte de baixo do planeta - e o povo daqui, como bom recebedor de esmola, agradeceu sorrindo e cortejando seu benfeitor (como exemplificou o próprio presidente do COI, Carlos Nuzman, o da foto, enquanto assinava, trêmulo, os documentos que nos confirmavam como sede olímpica). Agora, aguentemos a overdose de especiais televisivos/internéticos/impressos que nos prepararão para 2016 - e olha que ainda temos 7 anos para aguentar essa turminha de deslumbrados embasbacada com tamanha "vitória"...

Vejo em muitos blogs por aí que quem condena a Olimpíada do RJ é chamado de "anti-Brasil". Acho que, na verdade, são esses os mais a favor da pátria, já que são eles os que querem vê-la crescer de forma ordenada e correta. Se nos colocamos contra, é porque entendemos que, repito o que foi dito no post aí embaixo, seria muito mais proveitoso para o nosso país se o (vultoso) dinheiro que será gasto com a farra esportiva fosse voltado para as reformas, ou até mesmo a criação definitiva, de uma infra-estrutura física/política/social que é a base óbvia de qualquer lugar que se possa rotular como "próspero" e "desenvolvido". Não é maquiando os problemas, através de vilas olímpicas e domos moderníssimos com seus tetos que abrem e fecham, que se consegue a resolução destes. Eles permanecerão lá, pelo tempo que assim necessário for a alguém, assim como permanecem, vazios e inúteis, os prédios e instalações que outrora haviam abrigado atletas do mundo inteiro.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Rio 2016: aqui, não!

Uma coisa liga à outra: na semana que soltaram o balão de ensaio sobre a contratação do Ronaldo Gaúcho pelo Corinthians, os canais de TV resolveram fazer sua parte para a mentira colar. Em alguns programas esportivos (sim, foi em mais de um), pude ouvir algo impagável, hilariante se não fosse tão espúrio, quando da exibição dos gols do Italianão: "apesar de ter Ronaldinho entre os titulares, o Milan não conseguiu balançar as redes, e empatou em 0 a 0 com o Bari". Pois é, dissimulação pouca é bobagem. Quem ainda é tonto de acreditar em tais enunciados calhordas, que têm como propósito, além de manipular e ludibriar o telespectador mais inocente (em sua eterna preguiça, ele pensa, esparramado no sofá de casa, Brahma nas mãos: "nossa, ele deve ter jogado muito bem!"), também o de tentar melhorar a imagem do falido "craque" para que sua duvidosa volta ao país se consolide com pompas de gênio? Ora essa... Aqui, não!

E, agora, uma tomada de posição por parte desse blog: ao contrário da forjada "corrente pra frente" que muitos tentam instituir por aí, nós somos radicalmente CONTRA a realização da tal Olímpiada de 2016 no Brasil, mais especificamente no Rio de Janeiro. Essa sede megalômana em "globalizar" as cidades tupiniquins, essa vontade insaciável de "inserir" o país no mundo "desenvolvido", de mostrar a todos que o brasileiro é realizador e capaz, que é lutador e não desiste nunca, só interessa a quem possa lucrar - e bastante - com isso. Por isso que apresentadores e repórteres, entre sorrisos abertos e palavras de encorajamento, exortam o povo a "torcer" pela nobre candidatura: isso representa torrencial investimento de patrocinadores pingando igual cachoeira nos cofres da sua respectiva emissora, além de possibilidades extremamente atraentes para o carreirista ("cobri a Olimpíada do RJ", ele acrescentará em seu currículo, todo pimpão). Tal visão mercantil e unilateral não permite admitir que reformas estruturais são muito mais urgentes e importantes para a saúde da nação do que qualquer evento esportivo. Mas o que fazer se o próprio povo, sempre o grande prejudicado nesses joginhos de armar das cúpulas dominantes, prefere assistir a alguma competição de lançamento de dardo no Engenhão, a exigir melhores escolas e postos de saúde para si e para os seus? Ora essa... Aqui, não!

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Mais do mesmo (ou um pouco mais que isso)

Sabe, cheguei a passar mal nessa segunda-feira, quando assisti aos programas espostivos da TV aberta na hora do almoço. Queria ver os gols do final de semana, já que não pude assitir quase nada da rodada do nosso querido "Brasileirão" sábado e domingo (por conta disso, foram dois dias bastante úteis e saudáveis, devo dizer), quando me deparo com um lance que, se classificado como grotesco, chega a ser suave: o gol de mão do Paraná Clube contra o Ceará, pela Segundona (até a divisão inferior precisa ser nomeada de forma espalhafatosa e grandiloquente, segundo a mente dos maquiavélicos marqueteiros). O tapa que o tal Wellington Silva (foto) deu na bola só não viu quem não quis. Foi uma cortada acintosa, um lance de vôlei de praia, de goleiro, de jogador de peteca, o que seja. Caberia até mesmo um cartão vermelho ao dissimulado centroavante, tamanha a vulgaridade de sua obra. Mas a tal jogada foi validada. Melhor: o ponto ilegal significou a vitória do visitante. E, novamente, vi algo que nos escancara a podridão reinante no esporte tratado de forma leviana pelos profissionais da imprensa. Algo que deveria gerar revolta e indignação vira, automaticamente, motivo para piadinhas e gracejos, e é logo esquecido na sequência. Não se pode estimular o senso crítico/político do espectador - vai que ele resolve se insurgir contra aqueles que o manipulam? Melhor é fazê-lo rir da desgraça para manter tudo na superfície. Dias, semanas, meses, anos se passam - e os mecanismos continuam a girar sempre para a mesma direção.

Mas, se aqui gostamos de fazer analogias com o que vemos dentro de campo àquilo vivido em nosso opressivo cotidiano, o que mais deve ser destacado nesse triste circo de bizarrias é a atitude do atleta, típica em nossos gramados. Ele, logo ao anotar o gol, saiu em disparada para comemorar. Ciente que havia o marcado de forma totalmente irregular, não viu pudores em vibrar como se tivesse acabado de mandar às redes uma perfeita bicicleta. Um pouco depois, não sei precisar se ainda no decorrer da partida ou já em seu término, uma repórter perguntou e ele mandou, de cara limpa: "É, foi com a mão". Ali, o falso malandro não conseguiu nem sustentar sua própria farsa, já que confessou o delito (e nem precisou ser apertado por nenhum "meganha" - o fez de livre e espontânea vontade). Ele que, no lance, parecia tão feliz e confiante em sua desonestidade, afrouxou, não sei se na inocência ou querendo contar vantagem. Só que nem mesmo a certeza da culpa condenou o camisa 9: como o tento foi validado, o camarada saiu de campo como um autêntico Deus da patifaria. Fez um gol de mão, comemorou na cara-de-pau, admitiu que fez errado, ludibriou a autoridade máxima em campo e, mesmo depois de tudo isso, deu a vitória para seu time. Levou vantagem em tudo, como dizia a célebre frase do Canhotinha de Ouro. O errado, o muito errado, transformou-se em certo. Todos esperamos por um momento desses. O humano, essa espécie tão corruptível, vibra mais ainda se a vitória vier por vias tortas ou por meios ilícitos. É parte indissociável da nossa natureza. O futebol, essa coisa tão comezinha, mostrou ali, naquele momento tratado como brincadeira por quem deveria mais do que ninguém levá-lo a sério, a face mais repugnante do mundo em que vivemos e da vida que levamos. E eu, passando mal, com o estômago revirado, fiquei cerca de 20 minutos até conseguir me movimentar de novo. Mas não me recompus até agora desse tão violento choque de realidade.

domingo, 13 de setembro de 2009

O show da ignorância

Desde que Galvão Bueno tranformou-se no narrador no. 1 do nosso país, alguns procedimentos típicos do global tornaram-se praxe entre os locutores de outros canais - entre eles, a tal "provocação" aos nossos "arqui-rivais", os argentinos. Para ruir a frágil ponte entre a gozação e a xenofobia pura e simples é bastante rápido; e nisso o no. 1 da Globo é especialista, com seu palavrório sem sutilezas e tom de voz agressivo. Agora que Diego Maradona (foto) é treinador, então, o caminho para as demonstrações de estupidez ficou ainda mais curto, graças às cutucadas que o astro argentino sempre dispensou ao Rei do futebol e à seleção amarela. Portanto, o risco de uma das maiores potências do futebol mundial não ir à Copa do ano que vem foi recebida pelos idiotas eletrônicos com galhofas e chacotas, e não com estupefação. Perde-se o esporte; a piada, nunca.

Digo isso porque, na noite da última quarta-feira (já na madrugada de quinta, para ser mais exato), o narrador do Esporte Interativo, da TV Gazeta (não sei o nome do cara e prefiro continuar sem saber) deu um show de ignorância absolutamente despropositada no VT de Paraguai e Argentina, exibido pela emissora. Já nos lances de perigo guaranis, o sujeito fazia uso de uma gritaria histérica, gratuita e sem sentido, como que para deixar claro que sua preferência pendia para os donos da casa. Aí já começa o absurdo: estamos falando de um profissional, não de um torcedor. O mínimo que esperamos da pessoa que está aos microfones é um comportamento neutro - do contrário, ou se evidencia má-fé ou uma total falta de competência/aptidão para o ofício. Mas o pior viria ao final: decretada a derrota portenha, o cara começou a berrar, a plenos pulmões, de forma convulsiva, desesperada até: "É NOSSO! É NOSSO!". Para além de lembrar o patético "É TETRAAAAA! É TETRAAAAAA!" urrado por Galvão na final do Mundial '94, tal momento mostrou o quão ridículo pode tornar-se uma pessoa ao, para usar uma expressão antiga e menos grosseira que a corrente, "fazer cortesia com o chapéu alheio". O narrador é, por acaso, paraguaio? Porque cargas d'água, então, comemora com tamanha gana a classificação de um time que nem de longe lhe pertence?

Ah, mas respondemos a tal pergunta na lata: é porquê precisamos alimentar a animosidade. Precisamos ser os melhores do mundo, sempre. Não podemos ter rivais, já que somos o "país do futebol". Como alguma outra nação quer se colocar no nosso nível, já que somos tão espetaculares, extraordinários, invencíveis? Às favas a imparcialidade, então. Esse negócio de "os fins justificam os meios" já foi lema para muito regime totalitário e genocida que até hoje estarrecem e envergonham a humanidade. Então, termino com outra questão: quem são os reais arrogantes dessa história?

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

O futebol e seu reflexo em nossas vidas

O general francês De Gaulle disse uma vez que o Brasil "não era um país sério" (consta que tal frase foi dita por outra pessoa, mas o que importa aqui não é o autor, e sim o seu conteúdo). Pois estava eu a assistir ao jogo do Internacional contra o Goiás nesse domingo último, quando aconteceu o lance da expulsão do atacante Fernandão. Já sem o replay era claro que nada havia acontecido: apenas o avançado havia se enroscado com o volante Magrão (e não adianta: se você é marcado por tal jogador, pode-se usar de qualquer recurso, menos fair play - ele, sem dúvida, não o fará). Pois aí o juiz, um tal de Ricardo Marques Ribeiro (ele na foto), resolveu jogar para a torcida, que hostilizava o goleador esmeraldino, e expulsou-o, em uma atitude demagógica e covarde. As repetições da imagem cansaram de mostrar que nada havia acontecido; mas, mesmo assim, o Goiás ficou com um a menos - e tomou uma goleada de 4 a 0 (é certo que já levavam um vareio enquanto Fernandão permanecia em campo; mas, com um a menos, fora de casa, fica difícil até mesmo pensar em reação).

Pois o que mais me deixou assustado foi ver a total passividade daqueles que transmitiam a partida. Mesmo com a imagem ali, evidenciando que nada havia acontecido e que o juiz errara clamorosamente, com prejuízo considerável para um dos lados, o tom dos comentaristas era de "ah, ele errou sim, mas não vamos nos preocupar com isso". Ninguém manifestou indignação, repulsa, aversão, nada. Pelo contrário: riam, como se isso fosse somente um inofensivo folclore, e discorriam sobre suas notas para o "prêmio Armando Nogueira". Quando falavam do lance, tateavam, com receio de demonstrar alguma certeza: "olha, eu acho que não foi nada, hein?". Claro que são tão covardes e omissos quanto o apitador - mas o que me saltou às vistas foi que esse é o comportamento típico do brasileiro, o ser que não desiste nunca. O atual escândalo do Senado, que, assim como o video-tape fez na partida, trouxe tantas evidências para a deposição imediata do presidente Sarney (e isso não aconteceu), mostrou que o brasileiro tem como hábito varrer tudo para debaixo do tapete, dizendo: "ah, esses políticos são todos iguais, sempre roubam e não mudam". E vai lá e vota nos mesmos parasitas de novo. O ciclo vicioso não se rompe nunca, porque somos um povo já moldado para a submissão. Os tais "brahmeiros", que não se importam de viverem esmagados, conquanto possam ter sua cervejinha no fim de semana. Para quê levantar a voz, se as coisas são assim mesmo?

Logo, logo, o tal Ricardo volta a apitar um jogo do "Brasileirão" - afinal, como gostam de dizer alguns analistas, o futebol "é apaixonante por isso". E assim, enamorados e medrosos, prosseguimos.

sábado, 29 de agosto de 2009

Mistérios do além-túmulo


As trajetórias de alguns "craques" do moderno futebol brasileiro são realmente intrigantes. O exemplo mais absurdo é o do Júlio Baptista. Jogador sempre presente em listas de convocação da seleção brasileira, e com passagens por clubes importantíssimos da Europa, o ex meio-campista do São Paulo, na verdade, só foi titular uma vez em sua carreira, no Sevilla. Sim: já com 27 anos de idade, ele só conseguiu ser titular, em todo esse tempo como profissional, em um único clube, durante um único ano! Enquanto esteve no SP, nem posição definida o cara tinha: jogava de volante, de meia-armador, de segundo atacante, centroavante... Não conseguiu acertar em nenhuma, e foi vendido ao Velho Mundo como uma verdadeira incógnita. De repente, virou gênio - e suas passagens apagadas por Real Madrid, Arsenal e Roma mostram que tanta badalação em torno de seu nome não se justifica. Mas, mesmo assim, ele é nome certo para a Copa do ano que vem, e periga até ser titular do Brasil em uma ou outra partida. Vai entender...

Mas toco nesse assunto porque, agora mesmo, assistindo ao clássico de Milão, vejo que o volante Thiago Motta apareceu do nada na Inter, e já é titular! Jogadorzinho mediano, sem grandes atrativos, ele já defendeu dois dos maiores gigantes do futebol europeu (foi "revelado" pelo Barcelona, como mostra a foto); e não é difícil afirmar que, se permanecer entre os titulares da Internazionale, também vai logo ser convocado para a seleção, independente do que esteja jogando ou se algum outro atleta de sua posição estiver em melhor forma ou passando por bom momento. É líquido e certo. Estando entre os 11 principais da Inter em boa parte do recém-iniciado Italianão, assim como nas outras competições que a equipe irá participar, ele com certeza terá a grande "chance" de vestir a amarelinha, já que o atento Dunga adora quem é de time grande, e os convoca exclusivamente por conta disso. Já imaginou que lindo, por conta dessa política idiota, uma dupla de meio-campo formada por Thiago Motta e Felipe Melo? É de fazer o pobre Didi revirar na tumba...

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Pé-de-moleque na goela deles

Está para nascer algo que seja mais caipira que a imprensa esportiva nativa. É impressiontante o quanto esses caras se imbecilizam. No recente episódio da adequação do calendário brasileiro ao europeu, os capiaus torciam para que assim acontecesse, com os olhos brilhando - mesmo que isso significasse a rendição definitiva dos clubes daqui aos de fora. Sim, porque essa mudança teria como principal consequência a total abertura das pernas de nossos times, que, assim, poderiam vender jogadores ao exterior sem remorso, sem culpa, com todo o gosto. O futebol daqui não se fortaleceria; muito pelo contrário, se enfraqueceria cada vez mais, tecnica e políticamente. E os próprios campeonatos europeus sentiriam isso na pele, já que tal medida só faria por mediocrizar cada vez mais a mão-de-obra tupiniquim por eles adquirida (pois, com o baixíssimo nível de exigência dos gringos hoje em dia, os times do Brasil continuariam a investir somente em cabeças-de-bagre com lustro de craque). Isso seria assinar o definitivo atestado de dependência, e fazer do Brasil eternamente uma colônia futebolística - mas os pés-de-barro, ingênuos só na aparência (já que, nesse jogo podre, muito interesse graúdo se coloca em jogo), continuam a se maravilhar com o modelo estrangeiro. Por que eles não vão trabalhar lá na Inglaterra então?

Aliás, atualmente, quando cai um técnico no "Brasileirão", eu chego até mesmo a vibrar. Nada como uma boa derrubada de treinador para mostrar que ainda não nos entregamos completamente aos moldes quadrados do Campeonato Inglês. Nossa tradição é essa, por pior que isso seja; não temos que manter ninguém à frente de time por 3 ou 4 anos só porque assim é feito no certame bretão ou em qualquer outro torneio da Europa. Portanto, enquanto os "especialistas" continuarem a falar que certo é o Manchester United, que mantém o Ferguson há 800 anos no cargo, eu vou mais é querer que os daqui sejam demitidos aos borbotões.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Bola de Lixo

Um dia, já foi divertido acompanhar a Bola de Ouro da Placar. Claro, isso era na época que a revista ainda possuía algo de respeitável, e idem os jogadores que faturavam o prêmio (apesar de, claro, várias discordâncias absurdas - mas isso fazia parte do jogo). Como tudo que envolve o esporte nos dias atuais, tal troféu também se banalizou, e passou a funcionar como dispositivo de valorização de seus vencedores dentro do clube em que atuam ou para alguma inevitável transferência para o exterior. Nada é poupado na "globalização" do futebol brasileiro: o que for preciso usar para que os engravatados consigam arrancar mais dinheiro dos clubes nacionais e internacionais, eles usam. Nem algo meramente folclórico escapa.

Digo tudo isso porque tive a infelicidade de ver o último número dessa falecida revista. Se antes o meu susto foi ver o goleiro Felipe pela segunda vez em sua capa (o que será que faz esse cara tão especial para os redatores do veículo, hein?), o que realmente me apavorou foi ver o jogador mais cotado para faturar a Bola de Ouro no "Brasileirão" de 2009: Ronaldo. Sim, ele, que forjou uma contusão no braço para poder fazer uma lipoaspiração na surdina, é, segundo os critérios inanes da Placar, o melhor atleta desse campeonato horroroso. Não temos mais acesso às notas, que antes eram publicadas no Tabelão, suplemento que vinha encartado junto ao magazine; mas não é necessário nem vê-las para entender que, mesmo se Ronaldo não entrar mais em campo, vai faturar essa Bola de Ouro com folga absoluta. Basta apenas a sua presença para que sua avaliação seja, automaticamente, maior que a dos outros - afinal, ele é o "Fenômeno", não? O resto é o resto. E os que o avaliam sempre fazem vista grossa para suas patacoadas, mas amplificam por 1000 quando o sujeito faz algo digno de nota. Assim funciona. É gritante o quanto as cartas dessa eleição já estão marcadas, e eles não fazem a menor questão de esconder isso.

Nunca é demais lembrar que a Placar, juntamente com a Rede Globo, foram os que mais fizeram força para que Ronaldo se tornasse o "Fenômeno" perante a opinião pública. Me recordo como se fosse hoje do amistoso que selou a convocação do jogador para a Copa do Mundo de 1994, principalmente porque o escândalo que a emissora carioca fez por conta da presença daquele moleque de 17 anos que que prometia tornar-se um "gênio" do futebol é inesquecível (pelo lado negativo, claro). A revista também fez sua parte, colocando em letras garrafais na sua capa dois anos depois: "O Garoto de 20 Milhões de Dólares". Esse era o valor que a sua venda iria gerar para o PSV, clube que, à época, o preparava para ser vendido, tal e qual se engorda um leitão para as festas de fim de ano. Dinheiro, marketing, oba-oba, entrevistinhas divertidas, sessões de fotos "temáticas"... Bom, disso esses caras entendem.