quarta-feira, 25 de maio de 2011

Tirem as crianças da sala!

ATENÇÃO: agora você irá travar contato com uma singela e abrangente reunião dessa escória festiva que trabalha com a cobertura de futebol, prepare-se:

http://esporte.uol.com.br/album/110524reporteresenquete_album.jhtm#fotoNav=1

Será que sobra algum para votar na enquete "quem é o melhor"?

E outra: que diabos é "Smeagol"?

terça-feira, 24 de maio de 2011

Os alquimistas (do marketing) estão chegando

Em algum post aí perdido, falava que existe uma cartilha de chavões para os cronistas/narradores/apresentadores, que rege suas falas de forma robotizada, nivelada pelo rasteiro e que não dá espaço para que expressem suas reais opiniões (se é que possuem alguma). Gol que possua determinada jogada é "golaço" sempre; atleta que acerta três ou quatro passes seguidos já é digno de destaque histérico, etc. Qual a idéia por trás disso? Fazer com que a torcida, essa entidade esponjosa, comporte-se de tal forma também. Como são os "especialistas", as vozes que possuem, teoricamente, conhecimento técnico/teórico e, a partir daí, esclarecimento suficiente para determinar o que é bom e o que é ruim, eles fazem o tempo todo política nada inocente e direcionam a maneira de o espectador perceber o jogo; e este, se não se precaver (o que é fácil, pois desligar nosso senso crítico é primordial para as transmissões de TV), cai direitinho em muitos dos incontáveis embustes exaltados por aí.

Hoje, fui dar uma olhada em uma lista das 25 melhores contratações da temporada européia, feita por Leonardo Bertozzi, comentarista da ESPN Brasil e editor da revista Trivela (da qual Toro é muito fã). Não mais me identifico com esse tipo de coisa; as palavras de empolgação do cara não me atingiram (só consegui reagir aos nomes ao rir de uma menção a Robinho; o resto me soou sempre estranho, por conta do tom empolgado do articulista e da minha falta de interesse por tantos nomes medianos que empesteiam os gramados no Velho Mundo). Eis que, besta, vou dar uma olhada nos comentários, esta maneira tão veloz de tirar qualquer um do sério, e vejo lá que pessoas (isso mesmo, no plural) pediam Krasic, da Juventus de Turim, entre os listados. Tive um misto de gargalhada e desespero, sentindo que minha mente havia ficado oca repentinamente e não havia percebido: ora essa, Krasic é um desses medíocres que alcançam certa fama, um atleta desengonçado, lento, sem cintura, com dificuldade para acertar passes e enxergar o jogo - e, por todas essas "qualidades", virou motivo de galhofa entre o pessoal com o qual converso regularmente sobre futebol. O que leva um encosto desses a ser considerado "craque"?

Ser jogador da Juventus, time em má fase mas ainda um dos grandes do mundo, ajuda? Talvez. Substituir Nedved com um visual parecido, também? Sim, a ilusão de ótica pode ser fator a se considerar. Mas, mais importante que isso: note que não existe nível de exigência para o futebol publicitário. Ela não só caiu, como ficava nítido há algum tempo: agora, ela, a exigência, parece não existir mais. Tudo é vendável; tudo, se tratado com a devida parcimônia, carinho e paciência, pode ser transformado em mercadoria campeã de faturamento mesmo com embalagem enganosa. Entregue uma panela, um pára-choque de carro, ou mesmo o tal Pepe, tenebroso companheiro de Krasic na Juve, a um marqueteiro habilidoso, que saiba trabalhar com imprensa e patrocinadores, e ele é capaz de elegê-los os "melhores do mundo" naquela festa ridícula da FIFA, no fim do ano. E o público, mera (porém necessária) massa de manobra, instala-se confortavelmente na mentira, vive-a e sequer deseja sair dali, pois é mesmerizado para não dizer o contrário do que lhe é imposto de cima. Assim é o reino da propaganda: a margarina que é exibida na tela ou no anúncio de revista precisa lhe provocar ganas de consumo, de descartar as outras marcas de antemão, de colocá-la na lista de compras do mês, de aprová-la de antemão, sem ao menos tê-la experimentado. Eis então Krasic, um dos tantos craques-margarina dos novos tempos.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Começa a guerra no bananal

Não deram tempo para que ninguém pudesse respirar fundo: mal acabou o Campeonato Paulista (ou "Paulistão"), e já tinha um Campeonato Brasileiro (ou "Brasileirão") dobrando a esquina. Ainda estão sendo disputados alguns estaduais Brasil afora, mas na República das Bananas é assim que funciona: como são as TVs que sustentam os clubes em seu eterno status corrupto/falimentar, é necessário que o ritmo dos campeonatos seja igual ao de uma novela, que termina no sábado e outra já entra no ar na segunda-feira, sem tirar de dentro. Se você acreditou na balela de que os clubes não seriam mais reféns das emissoras de televisão, taí a confirmação de que sempre serão, de um jeito ou de outro, não adianta espernear.

Mas a TV faz o que bem quer com tudo, isso é consumado - se você ainda não notou, não sei, sinceramente, o que faz aqui neste blog. Pois bem: mal o campeonato começou, iniciaram-se também os trabalhos com a sua publicidade massiva, o habitat natural do futebol moderno, para a criação de mitos e a derrubada do que não os interessa. E o alvo, desta feita, foi ele: Ronaldinho Gaúcho. Depois do fracasso na Copa do Brasil, torneio que estava desenhado para que fosse vencido pelo "ex-melhor do mundo" (e só não o foi porque não existia maneira de mascarar seu péssimo futebol, nem entre aqueles que o defendem - se houvesse um mínimo apenas, o Flamengo seria campeão), o Bananeirão começa do jeito que mídia nativa gosta: com a oportunidade de exaltar aquele que é o maior investimento do futebol nacional na temporada. Sim, eles salivavam por isso desde o início. Poder dizer "Ronaldinho mostrou futebol comparável aos tempos de Barcelona", "Ronaldinho estraçalhou o adversário", "Ronaldinho deu show" (já reparou como usam a palavra "show"?). Não ia precisar de muito não, para que soltassem essas frases feitas a torto e a direito. Bastaria uma partida um pouco acima de sua média medíocre desde que voltou para cá, de preferência com gol, para que se escancarasse a burrice e a visão turva, tão notórias, da nossa imprensa esportiva, assim como a mendicância do futebol de câ, disposto a cair de joelhos e fazer pirotecnica auto-congratulatória por qualquer resto de nada. Ronaldinho agora não tem que ser melhor do que os outros: basta ser melhor do que si próprio, sair um pouco da sua zona de conforto, criada através da falta de cobrança que seu 'status de estrela' e de 'craque consagrado' o proporciona (não viram a presidente do Flamengo dizer que ele ainda é "o cara", depois de dois meses sem jogar nada?), para que seja criada, novamente, aquela realidade paralela em torno de sua "arte". Assim aconteceu, contra o time B do Avaí (?). Sem surpresa.

Tudo começa como devia começar, enfim. Um bom Bananeirão 2011 a todos nós.

(Em tempo: assisti algo da tétrica partida entre Ceará e Vasco no sábado, e o meia Bernardo, que virou uma espécie de "novo Phillipe Coutinho" por lá, ou seja, um nada propagandeado como "astro", fez o que se espera de um jogador bananeiro moderno: comemorou seus dois tentos com a câmera da TV Globo. No segundo, até agachou para melhor ser focalizado; quase lambia a lente do cobiçado objeto. Não me admiraria se esses caras jogarem imaginando, ao mesmo tempo, as jogadas que irão fazer e o posicionamento de cada uma das câmeras em campo, na forma que irão aparecer nas imagens, qual a melhor posição para ser mais filmado que os outros. Como já dito, publicidade é tudo.)

sábado, 21 de maio de 2011

Procura-se um túmulo para a dignidade

Hoje o futebol moderno escreveu um de seus capítulos mais repulsivos. No Santiago Bernabeu, o Real Madrid enfiou 8 a 1 no rebaixado Almeria. Foi um espetáculo grotesco, um verdadeiro fundo do poço, talvez a perfeita chave de ouro para esse campeonato escroto. Hoje, mais uma vez, a glorificação do lixo a qualquer custo ficou exposta sem nervos diante dos meus olhos. Um time sem dignidade, hombridade ou seriedade apenas estava de corpo presente em campo, mas em espírito completamente acuado; não queria opor qualquer resistência ao esquadrão "galático", pois já se derrotara de antemão nos vestiários, erigindo um mundo que os separava deste anfitrião tão "estrelado", e amedrontado até mesmo de marcar, de encostar nos adversários. Vimos em campo, durante excruciantes 90 minutos, o protótipo do futebol moderno, como se fosse uma maquete de seu projeto: equipe menor esmagada (em termos estritamente numéricos) por aquela que possui maior poder aquisitivo. E a verdadeira tristeza da situação foi não apenas ver essa covardia comprada, imposta de fora para dentro ao Almeria; foi ver também que tais fortunas, como essa do time merengue, adquirem apenas nomes, moicanos e chuteiras coloridas, pois ali não tínhamos algo que chegasse ao menos perto daquele espírito de empolgação crescente que se espera em uma goleada desse porte. Não: apenas gosto de plástico, apenas uma torcida amorfa cegamente disposta a se fascinar com qualquer coisa, apenas a confirmação mecânica e sem vida de uma superioridade, apenas o horror de enxergar uma dominação quase fascista (pois ditatorial, sem espaço para respirar) do maior perante o combalido e apavorado menor.

Durante algum tempo, veremos gente falando que o Real deu "show", que Cristiano Ronaldo "jogou muito" e "quebrou recordes", que Mourinho é "o melhor técnico do mundo", e tal. Isso dito pelos mesmos fantoches de sempre, que se recusam a (ou sequer são intelectualmente capacitados para) avaliar as coisas com maior profundidade. Mas esses mesmos ases da opinião sequer tocarão no assunto que salta às vistas: o total sucateamento do Campeonato Espanhol, da sua transformação em latrina futebolística da Europa, em função, agora mais do que nunca, de seus mais estrelados times, dos "maiores jogadores do mundo", do dinheiro, da manutenção do "star system", do valorizar apenas aquilo que é rentável. Só que essa rotação doentia em torno de Barça e Real gira em falso, pois esmaga qualquer possibilidade de competitividade entre os dois monstros sagrados e o resto das equipes. Não enriqueceu o campeonato; apenas o sangrou. Neste momento negro, se bobear, os nomes de Cristiano Ronaldo e Messi passam a vir antes mesmo das agremiações às quais prestam seus serviços. Eles passaram a ser as peças mais valiosas, nesse momento de acentuado individualismo futebolístico (tema que desenvolverei depois). É neles que se encontra a matéria-prima da publicidade, a mercadoria mais valiosa do esporte hoje, e tudo precisa ser manobrado para chegar a seu encontro. Mas não vai existir reavaliação: tudo que aqui repudiamos permanece sendo considerado normal, sequer é discutido. Vemos os procedimentos mais absurdos da mecânica de nossas vidas serem incorporados ao futebol com passividade assustadora. E, se tremia de ódio ao fim desse apocalíptico prélio (realmente aconteceu), é por ter a certeza de que, apesar de ainda lutar com todas minhas forças pelo contrário, é daqui para pior.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Desabafo de um saudoso



Estou, novamente, vivendo dias de observação, agonia e loucura desenfreada. Pouco escrevo quando me acomodo nesse estágio - mas muito aprendo também, ao constatar e viver o declínio intensamente. E o horror que é o futebol atual, servindo apenas de cortina para manipulação midiática, lucros para os de cima e sofrimento para os de baixo e tortura ao verdadeiro espírito esportivo do homem, fez ressurgir em mim o comentário, o desabafo - sim, devo corrigir minha interjeição de janeiro deste ano, quando presumi não ter muito mais o que dizer sobre o quadro atual. Na loucura, você vai e volta e sempre encontra o mesmo problema e busca soluções com a mesma intensidade com que respira. Portantro, há muito, sim, o que dizer sobre o tapazo na cara (estilo Capitão Nascimento) que Santander e Globo levaram na Libertadores - nós até tentamos avisar aqui, como bonsa amigos do futebol que somos -; ou como as chuteiras coloridas representam um desrespeito à própria regra do jogo uniformizado (e aí vemos como é ilegal, além de medonho, esse processo de transmutação que o futebol vêem sofrendo); sobre o rapaz que atravessa todo o campo para bater um lateral na Inglaterra (novamente, desrespeitando outra regra do jogo, já que o mesmo tem de esperar alguém passar uma toalha na bola antes do arremesso, que devora pelo menos 1 minuto do tempo de jogo, para que todos possam aplaudir esse luxo desnecessário); mais detalhes da lentidão do jogo, estampada nos passes curtos e escassez absoluta de lançamentos e toques insesperados, que transformaram o futebol no que ele é (raros são os passes que saem do jogador A para o C - quase todos têm de passar do A para o B e deste para o C, como as crianças fazem no início de suas práticas); a decisão do Campeonato Paulista mais insupórtável, fraca e silenciosa da história; Ronaldo Gaúcho e o carioca e a nova fase do amor próprio na humanidade; como a TV, com seus incessantes e nada esclarecedores replays, reparte o jogo em pequenos momentos de "emoção" que, até pouco tempo atrás, só funcionariam no cinema e, com isso, faz dos jogos medonhos algo rendável... Sim, há muito o que dizer, e virá mais, conforme os pilhadores da bola seguem construindo esse castelo de cartas (ou bolas). Sempre será hora de agir. Mas, no momento, transcrevo esse desabafo de outubro de 2007, para compartilhar com o mundo a alma destroçada pela morte do jogo.




" Que saudades do futebol, barbaridade! Daquela sensação indescritível dos domingos colados em um radinho de pilha qualquer, dos jogos duros e disputados com o coração à frente de qualquer importância econômica. Dos estádios que reluziam uma cor acinzentada, porque a arquibancada ainda era um espaço aberto ao homem que se fodia toda a semana e precisa daquilo para sobreviver no mundo moderno. O futebol vai sumindo, e eu sinto como se estivesse perdendo um ente muito próximo e querido. Perturbam-me todos os dias as imagens que rechearam minha infância e parte da adolescência. Até que tudo começou a desmoronar, e eu, desde o início, percebia o que estava acontecendo. Odiava o que estava invadindo aquele universo mágico, que pra mim era quase perfeito, onde as derrotas e as vitórias faziam parte do todo, e você sabia lidar com isso. O futebol fazia homens de verdade, e acentuava a busca por si mesmo. Hoje ele é o maior, mais lucrativo e mais eficiente campo de formação de macacos de circo, adestrados e asseados, e divulgação de um meio de vida consumista e insuportável para os que sentem a bomba funcionando. O negócio é que não se trata de choro infantil, o treco é patológico. Está destruindo tudo aquilo em que acreditamos, e nos deixando cada vez mais putos, e de veias abertas perante o descaso humano ao confrontar tamanha tragédia.


As bandas de black metal norueguesas não sabem como é difícil a vida até passarem um mês aqui nessas bandas. E o futebol moderno sempre teve as portas do terceiro mundo escancaradas na imensa costa leste do continente novo. A ignorância tomou conta de vez, e sinto falta da certeza que um jogador saberia conceber uma entrevista e formular duas frases com sentido. Sinto falta da certeza de que você sempre veria uma partida decente, onde as pelotas não pareceriam queimar os pés dos atletas, como acontece hoje. Mesmo aquelas partidas ruins (e havia uma porção delas) soavam engraçadas, porque havia um punhado de senhores tentando crescer como indivíduos e praticando aquilo que pregavam – algo tão raro nesta era desgraçada. Saudades do futebol ao vivo pela televisão, às quintas-feiras e sábados, onde não necessariamente os times grandes ocupavam a tela, e dos árbitros que defendiam a regra do jogo com ódio e fervor, porque amavam o esporte tanto quanto outros atores envolvidos no espetáculo - ou, no mínimo, sentiam nele a responsabilidade de ser imparcial e correto. Hoje, eles não passam de ignorância manipulada, sábios apenas de que dificilmente terão lugar no “mundo livre e competitivo” e conseguem, através do desejo das federações prostituídas e empresários manipuladores, um palco onde desfilam, duas horas por semana, uma suprema e inatingível autoridade – esta filha da puta autoridade que guia os comuns processos judiciais esportivos, que refletem muitas vezes a falta de colhões dos jogadores modernos. Todos querem privilégios, exigências. Nilmar parece um travesti, e a mídia impõe a opinião de que ele está certo, vivendo como em uma “prisão” e querendo se libertar – mártir da revolução da chuteira cor-de-rosa e macia! Faz-me-rir! Esse é o lado que assusta pela surpresa, e sempre achamos que já vimos de tudo quando vivenciamos uma catástrofe. Por outro lado, tenho ótimas lembranças, como a dos fortes times do interior e de seus jogadores raçudos. Pena que ficaram para trás, apenas. Havia um respeito às cidades pequenas, uma noção instantânea de que naquele retângulo descampado e bem aparado (às vezes esburacado, claro) jazia eternamente uma chance de devolver as injustiças da centralização social, por uma hora e meia que fosse. Ou simplesmente derrotar os badalados times da capital, como o fez a Internacional de Kita, Lê, Tato e Gilberto Costa. Saudades infernais dos campeonatos de juniores, que sempre antecediam as partidas principais; em especial o futebol se ressente dos garotos que não sonhavam com o velho continente. Somente invadia seus corações um Morumbi, ou um Pacaembu lotado de gente urrando seu nome após um gol, ou um carrinho bem desferido (e há melhor satisfação do que essa para um jogador de futebol?). Sinto falta das palavras poderosas que sumiram do futebol: a honra, o dever... Por isso eu adoro os “300 de Esparta”, desde que foi lançada a coletânea em quadrinhos, em 1999. A troca do seu prazer, pela anestesia das dores de outrem, coincide com aquilo que o futebol me ensinou desde 1985, e o que antes disso também edificou minha crítica, através das leituras e pesquisas. Não há nada mais digno do que uma pessoa atingir esse estágio, e no futebol eram freqüentes os casos de sacrifício. Alguns argumentam que os tempos mudam. Mas o que parece ter acontecido no futebol, ultrapassa os limites do bom senso e abre um abismo gigantesco entre a realidade social e a realidade financeira de um jogador. O respeito não pode mudar com os tempos, e o suor continua molhado até hoje. Da mesma maneira, não pode secar-se o choro no futebol. Hoje, é mais fácil enfrentar uma derrota humilhante com sorrisos cheios de dentes, porque, afinal de contas “amigo”, futebol é apenas (!) pra se divertir, dizem eles. As pessoas são contaminadas pelo veneno do futebol mercantil, e esquecem de que a violência, a defesa, a luta não são ações negativas. Elas apenas refletem o sentimento de amor a uma jaqueta; o respeito a uma história de esforço, uma saga de uma família, muitas vezes. E “quando todas as alternativas se esgotam, a violência é justificada”. Resta alguma pacífica alternativa para romper com a tirania do futebol no segundo milênio?


O futebol não é um teatro, o futebol é nosso – parafraseando meu amigo Malavita. Pouquíssimos jogadores têm isso em mente. Mas deveriam, porque, em teoria ao menos, ninguém leva uma pessoa forçosamente a ser um jogador. É uma escolha pessoal e muitas vezes natural, e ela tem que vir acompanhada da consciência de que este esporte é violento, viril e está tão longe quanto à compaixão de um traído pelo seu traidor, de ser apenas um passatempo ou uma atividade física recomendada por um médico. E exatamente por ser algo tão áspero é que, através dos séculos, apareceram tantos nomes geniais – modestamente acredito piamente que supere até a música, literatura, pintura, o teatro, cinema ou qualquer outra atividade cultural, mesmo que a maioria delas nos permeie desde o início dos tempos, enquanto que o futebol exista, como conhecemos, há pouco mais do que cento e quarenta anos. O caminho para o super-homem, algo que é “muito mais do que a vida e a morte”, segundo Sir Bill Shankly. Dessa maneira pessoas comuns calçam um par de chuteiras, e podem realizar algo que nos trará satisfação por toda a vida. Citei o espetacular batedores de faltas e lançador Gilberto Costa – um dos vários “Meninos da Vila”, de 78 – e logo me lembrei do que mais sinto falta no futebol atual (e sei, ao ler o livro “Febre de Bola”, de Nick Hornby, que não estou sozinho neste saudosismo): os meio campistas, legítimos camisas dez. Aqueles que regiam o jogo como uma criança controla sua pipa nos céus. Lembro de um Corinthians e Santos, em 1988, pelas semifinais do Paulista, e sempre brilha na minha alma um senhor chamado Mendonça – que em 1981 marcou um golaço pelo Botafogo carioca, nas semifinais do Brasileiro, no mesmo Morumbi que sete anos depois faria ecoar um “ohhh”, a cada toque de primeira, ou lançamento primoroso do, então, já veterano atleta. Eu não tinha idade pra entender profundamente o jogo em si, mas sabia que aquela pessoa era intocável, quase fictícia. Ele faz parte da lista de jogadores que, mesmo que demonstrassem alguma deficiência aqui ou ali, não precisavam de mais nada para estar no mais alto patamar dos craques, juntamente com Pita, ‘Pepe’ Signori, Paul Gascoine, Glenn Hoddle, Dennis Bergkamp, Brian Laudrup, Luc Nilis, Helmut Haller, Luiz Suarez, Ralf Edstrom, Enzo Francescoli, Roberto Mancini, Fernando Redondo, Giovanni... Todos parcialmente ocultos devido à falta ou excesso de personalidade, uma contusão mais séria, ou simplesmente má sorte. Mas nenhum desses devia nada a ninguém em campo – deuses da bola! Os craques, os toques geniais, uma notável virada de campo com um chute de sessenta metros, hoje comemorados como um gol quando aparecem de tão escassos – sua ausência lastima e machuca de verdade, ó futebol. Gosto de refrescar minha memória até com os momentos que, para um garoto de seis anos, pareciam tensos e perigosos: os corre-corres nas arquibancadas (freqüentes, pra não dizer obrigatórios), acompanhados sempre do corpo do meu velho me envolvendo em proteção. Lembro de que eu sentia certa graça naquilo, porque dificilmente a violência chegava até onde estávamos, e eu sabia que nada de mais grave aconteceria, ao mesmo tempo em que centenas de torcedores gritavam para que fugíssemos. Ou seja, eu não ainda era corrompido nem mesmo pelo tesão das brigas e emboscadas aos visitantes (ou escapar delas quando saímos de nosso campo), tampouco por nenhuma filosofia de vida babaca, que hoje supre em mim a falta do que mais amo. Ainda assim não me incomodava aquele tremor todo. Eu sabia que fazia parte do todo, e me excitava com aquilo. Eu havia escolhido ser um torcedor de futebol, não de automobilismo. Logo, sabia que não podia reclamar dos reveses da situação. Os rojões que pareciam perder a gravidade e completar a atmosfera, e faziam de um jogo qualquer uma barulhenta guerra de nervos. As torcidas, as bandeiras, as rampas dos estádios cortadas pelos toscos sacos de papel picados, que eram lavados por dois ou três brutamontes devido ao peso. A liberdade de falar o que quiser, quando quiser e pra quem quiser. Não era anarquia, nem de longe. Era festa, celebração do ódio acumulado. Saudades insuportáveis do gosto do guaraná Brahma, que sempre adocicava minha boca nos intervalos, quando meu velho voltava, a duras penas, entre os torcedores desengonçados e mal acomodados, com três copos de papel cheios do líquido que também mataria a sede do meu irmão. Não pelo gosto em si do refrigerante. Mas aquilo fazia parte do dia de futebol da minha época, e hoje os produtos são vendidos em embalagens higiênicas e guardanapos de pano, tudo frescura de empresas monopolizadoras. Parecem aqueles lanches vendidos nos jogos de beisebol nos Estados Unidos, que os torcedores vão passando, de mão em mão, até a comida chegar ao comprador. Aliás, tudo está cada vez mais parecendo o “american way of life”. As pessoas que antes freqüentavam os campos eram diferentes. As conversas eram menos enjoativas, simples, seus ídolos não levavam medalhas do amor próprio, dessas que talham os peitos com a letra inicial de seus nomes idiotas. Até o grito de gol era, indiscutivelmente, mais emocionante, carnal, raivoso e sangrento. É fácil entender; eram gritos direcionados a homens naturais, que transmitiam essa energia pro povo e dele recebiam todo o amor possível de se cultivar de volta ao gramado. Das Copas do Mundo que vi quando pequeno, nem quero lembrar muito. Emoção extrema assim, misturada com o efeito Diadema em excesso, não vai me fazer muito bem.


A verdade é que minha geração viu o derradeiro suspiro do espírito antigo, e, por isso, eu instintivamente odeio praticamente tudo no futebol moderno. Vamos lá: as bolas leves e coloridas; as transmissões cinematográficas; a descaracterização do futebol na América do Sul, e o desaparecimento dos esquadrões que sobreviviam e se agigantavam de suas raízes (o futebol uruguaio que o diga); os jogadores que não ficam mais de pé no gramado, e se barbeiam duas vezes ao dia; os centros de compras, chamados de novas arenas; a invasão de camisetas européias nas ruas sul-americanas, e a obsessiva audiência aos torneios de lá, exatamente quando eles perderam qualidade; os programas de futebol na televisão, que não falam mais de futebol; o fim das peneiras nos clubes; a Lei Pelé, que fez os jogadores pensarem que são trabalhadores, “como qualquer outro”, e “têm direitos”, mesmo que na folha salarial deles possa constar uma quantia de duzentos mil reais mensais, ou mais – o jogador é um empregado de uma religião, onde a infidelidade não pode existir e o banco de reservas é a penitência àqueles que não rezarem com vontade! Sem essa mentalidade o futebol vai, paulatinamente, perdendo toda a força e emoção que tinha na época em que os "europeus jogavam na Europa". Já havia alguns ‘convidados’ ocasionais, e que tinham mesmo que merecer chegar lá pelo futebol provado em sua terra natal. Mais cada país tinha a identidade estampada em seus times, e isso, em especial nos campeonatos continentais, conferia as partidas uma sensação absoluta de comprometimento para com aqueles que mais se importam – os torcedores. Meus domingos eram divididos entre molho de tomate espirrado na cara toda, enquanto meus olhos esbugalhados assistiam um ‘tampinha’ driblar até a sombra dos marcadores carniceiros, e certo Marco ‘fuzilar’ arqueiros, ao som endiabrado de Sílvio Luís. E depois sou culpado de ser amargo! Até algumas temporadas atrás, eu ainda me arriscava a ver um jogo, ou seguir as tabelas das grandes Ligas. Mas não consigo mais fazê-lo. Simplesmente a essência lá não existe mais. Dia desses, nem mesmo a um jogo em Anfield eu tive estômago suficiente pra sobreviver mais do que trinta segundos, antes de voltar a trocar de canal. É quase o limite do fim. Confesso que ainda não abandonei por completo o futebol. Vez ou outra aparece um jogo como a final do Europeu, em 2005. E meu coração agoniza e eu sinto uma esperança burra. Embora naquele jogaço eu gritasse até minha garanta sangrar, sei que o valor de um gol de carrinho do Biro-Biro é muito maior do que o gol equalizador de Xabi Alonso. Não pelo que o gol representou, ou trouxe pro seus respectivos times. Mas porque a essência que mantém vivo o jogo, naufraga junto com o nível dos seus atores. Inevitavelmente, continuam a nascer jogadores como Lugano, Juninho Pernambucano, Gerrard, Totti, Riquelme e Valdívia, e meus olhos colam na televisão. O problema é que (vagarosamente pra quem viveu dia após dia essa mudança, porém instantânea na linha da história) esses craques vão se tornando exceções na regra da mediocridade, exatamente o inverso do que eu via há duas décadas. E essa proporcionalidade vale para tudo no cenário futebolístico. Mas tudo isso é lixo, não importa. É superficial demais perante as barreiras que nos cercam de verdade, e contra as quais temos que lutar todos os jogos, em especial aqui na capital mundial do combate ao torcedor do futebol, São Paulo. A principal dor que sinto hoje é não poder torcer mais como podia antes, essa é a dor na pele. “Um estádio sem faixas e bandeiras, é como um prato vazio, ou um céu sem estrelas”, dizia um trapo qualquer. A ditadura, a censura, os preços de NBA, com regulamentos e tabelas mais incompetentes do que no Torneo Apertura de Honduras, a imposição da soberania irresponsável invadindo a paixão de cada criança. Repressão é o grande soldado, defensor das finanças. Sinto falta do futebol sem medo de tudo e de todos. Tenho uma terrível tendência de enxergar sempre o lado negativo das coisas, e no futebol isso faz com que cada pequena mudança nas regras, nas transmissões e, claro, nos uniformes simbolize uma momentânea visão do futuro, e ele sempre parece sombrio, aterrador e vazio. As regras podem e devem amadurecer com o tempo, não somente no esporte. Mas as mudanças não podem deixar para trás um funeral de emoções, como um estádio demolido sem outro motivo, senão acumular capitais. Isso realmente incomoda aqueles que desfrutaram de algo que lhes pertencia mais até do que sua própria vida. Cuidado, senhores engravatados e cheios de boa vontade... Logo, logo, tomaremos tudo de volta, e a saudade será de vocês em relação à mordomia luxuosa da qual, pateticamente, gozam. Prefiro morrer primeiro, a acreditar que tamanha ignorância possa vencer nossa criatividade. Hasta! "

sábado, 9 de abril de 2011

Nada ético, senhores... Nada ético

Ao que parece, existe uma tábua de conduta, uma planilha que rege as falas e atitudes de nossos cronistas. Imagine você uma aula na faculdade de narração/comentário esportivo: existe lá, na apostila do curso, um tópico que ensina como classificar as jogadas que se vê em campo. O aluno aprende que: bola por cobertura ou tento marcado com drible no zagueiro sempre é golaço; carrinho na linha lateral mostra que o jogador tem "raça"; quem dribla ou dá um passe bem dado (a tal "assistência", como os modernos gostam de falar) já está automaticamente "jogando muito", e assim por diante. Bons meninos que são, eles aplicam a técnica da decoreba, e saem a exercitar à risca o aprendido, sem ao menos dotar os ensinamentos básicos com algo personal ou criativo. A agenda é a mesma para todos, e quem sai desse registro não é exaltado, e sim marginalizado como "anti-profissional" e "maluco", entre outras coisas - mesmo que se atenha somente ao factual (algo imprescindível para um jornalista/comentarista, e um crime aos da nova geração).

E quem perde com isso? O ato de observar o futebol. Com tudo tão estanque, sem improviso, já dito na lata, e guiado por um padrão raso e de exigência cada vez mais pobre, banalizar as situações torna-se ato corriqueiro. Quem já não ouviu, nessa transmissões de domingo, alguma criatura dizer que gols comuns são "golaços"? Já vi isso ser dito até mesmo em cobrança de pênalti! A penalidade máxima, bem cobrada ou não, tornou-se "golaço". Isso é ato de desespero, rapaziada. Ou são pessoas que não possuem a capacidade da crítica, de fazer a separação do que é realmente acima da média daquilo que é apenas banal, ou que sequer possuem a de observar e entender o mínimo do futebol. Os compromissos que uma TV, rádio, revista ou que seja, assumem com os de fora do campo, não podem servir para retorcer o que acontece dentro dele, como sempre pregamos aqui e não cansamos de continuar a falar. Isso é desonestidade total, falta de ética. Ou faz parte do contrato estar sempre obrigatoriamente fascinado com tudo?

E a higienização do futebol segue a todo vapor.

(Atenção: o novo queridinho da mídia nativa é o lateral-esquerdo Marcelo, do Real Madrid - ele na foto. Constantemente exaltado, ele agora é unânime, para os bravos e intrépidos analistas, como "o melhor brasileiro da posição". Se realmente é, ou não, pouco me importa: o que conta é que, para o futebol higiênico e padronizado, uma seleção nacional inteira dotada de jogadores medianos como esse é imperativa. O marketing e a imagem precisam ser maiores do que a categoria dos atletas; precisam criá-los e abastecê-los com a fantasia que não são capazes de criar em campo. Quem avisa, amigo - ou amargo - é.)

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Libertadores pra que te quero

Sou de uma geração que cresceu ouvindo a mesma cantilena: foi somente a partir dos anos 90 que o Brasil passou a se interessar por Libertadores da América com maior seriedade. Sou cético a respeito dessa "verdade" - não é possível que o Santos desse pouco valor à suas duas vitórias continentais, uma inclusive em cima do Boca em Bombonera, e que o Flamengo não soubesse o tamanho de sua conquista ante o Cobreloa nos anos 80. Mas os títulos do São Paulo no início da década de 90 fez esse discurso se estabelecer, pois, premonitório dos atuais tempos das "marcas" e do marketing sufocante, fez elevar-se a torcida e a exposição do time - e, junto com a obsessão de todos em ser o maior da região, veio aquele papinho já tão explorado nas disputas entre seleções tupiniquins e platinas, desde os tempos idos da Copa América (época em que o Brasil era freguês de todo mundo), de que só ganha o torneio quem souber fazer a tal 'catimba'.

Ficou então estabelecido que, se quisesse ser considerado um país sempre vencedor da Libertadores, era necessário ao nativo aprender a catimbar igual a uruguaios e argentinos. Dar apertão, xingar, pisar, socar, dar cotoveladas - jogar sujo mesmo, sem sentimento de culpa. Nossos jogadores, que sempre reclamaram da "truculência" dos platinos, andinos e etc., viram que era hora de tratá-los com a mesma moeda. O segredo estava aí: usar as armas do adversário para destroná-lo. Às favas o "futebol-arte do brasileiro", sua "natural habilidade, criatividade e irreverência", portanto - vamos ser machos e raçudos, chega de ser vítima desse futebol-força ignorante e sem requinte do resto da América do Sul! Somos melhores que eles com a bola no chão, caramba! Isso é notório!

Então, caro amigo, vá tentar ver a atuação de brasileiros na Libertadores hoje. É patético demais assistir a jogadores exercitando a agressão pela agressão, sem a menor malícia para o jogo de milonga, praticando forçadamente e muito mal (pois desejam mais jogar pra galera a imagem de que estão se entregando em campo do que realmente fazer algo de produtivo) algo que não entendem, que foi imposto de fora pra dentro. E, se confundem catimba com violência gratuita, é porque entram no tapete verde movidos por essa xenofobia grotesca pregada pelos meios de comunicação, que estimulam rivalidades da forma mais simplista e rasteira possível (centrada em lugares-comuns do tipo "argentino é arrogante" e "uruguaio só sabe bater"), e não querem se impor pela malandragem: querem é revide. Assim, os jogadores brazucas, com a visão turvada por seu preconceito e total falta de conhecimento das escolas sul-americanas de jogo, jamais desestabilizam o adversário, objetivo principal do catimbeiro - desestabilizam somente a si mesmo e a própria equipe! Confundir estupidez e falta de recursos com "raça", um problema crônico do nosso futebol - e que, a cada dia que passa, torna-se mais risível.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Cools AFC x CA Locos

Extremos ajudam meu raciocínio lógico. Um sociopata ao praticar futebol pode demonstrar um temperamento frio, leal e sóbrio. Um homem educado com toda polpa das altas sociedades, pai de família (verdadeiramente) exemplar, com a pelota nos pés pode ser um verdadeiro carniceiro, viril, que não deixa passar a bola ou, no mínimo, o adversário. E entre esses extremos, toda e qualquer variação emocional que se pode conceber é possível no futebol. Ele realmente desintegra os seres humanos. É uma besta gigantesca, indomável. E agora me deparo com a “polêmica” sobre o palavrão desferido por Rooney às câmeras de TV na celebração de um tento seu. A Rede Globo ostentou, orgulhosa, a manchete de um diário inglês que estampava o “desejo da FA de que Rooney tem de ser um exemplo”. FREE Wayne! A face dele, como se supõe, era de êxtase. Num dicionário lê-se: “e.mo.ção sf Perturbação súbita ou agitação passageira causadas pela surpresa, medo, alegria, etc.”. Salvo casos de comportamentos extremos, não se deve cobrar moral de alguém nesses momentos. Engraçado como a justiça esportiva (e a do futebol é um belo exemplo) funciona “às mil maravilhas” se comparada com a mundana – sob os aspectos morais, legais, temporais e por aí vai. Não se vê a Globo cobrando políticos e a sociedade como um todo, com esse afinco e com essa segurança de sucesso como fazem no futebol. E o que se passa na Globo é o reflexo da ordem lá de fora – e vice-versa. Sufocar é preciso. Transformar um “craque” em estrela das mídias requer moldá-lo como um “exemplo”. Assim pagam contas. Mas as contradições/hipocrisias estão sempre escancaradas aos nossos olhos. Por que não cobraram a mesma moral de Oscar, quando se desfez em palavrões (mais do que merecidos) na vitória do basquete brasileiro sobre os anfitriões norte-americanos (quase um derby Norte X Sul), nos Jogos Pan-americanos, em 1987? Oscar foi político do Maluf, e até dirigente de clube de futebol. Mas e daí? Como segurar um palavrão no orgasmo? A Inquisição não morreu! As meninas do basquete, da geração de Hortência e Cia., também se esbaldavam no desabafo de baixo calão e se banhavam nos prantos da celebração. Quero mais é comer de boca aberta no futebol! Os casos relacionados ao esporte bretão são tantos que nem se precisa comentar. Todo ser vivo deve ter, no mínimo, uma cena gravada na memória de alguma briga entre jogadores de futebol. Ser um homem educado não significa ser um jogador educado. Ali dentro, nada é mais igual do que era lá fora. Um grito de “porra!” pro árbitro não é igual a outro semelhante pro cobrador do ônibus. Clebér Machado como jogador de futebol atesta isso – procurem no youtube. Alguns, como ele, viram demônio; minutos depois do fim do jogo estão todos tomando cerveja juntos – exceto, claro, os extremos entre os extremos. E na verdade, tentar analisar o espírito do futebol e (muito mais) do homem é complicado pra se resolver num texto. O fato é que este controle sobre o mesmo em nome dessa ordem mercantil está em toda parte, mas poucos parecem de dar conta de sua existência. Gosto de assistir ao “Show-Bol” pelos mesmos motivos da Libertadores: há pouca frescura e há muita loucura. Além de poder rever caras que realmente jogaram futebol. Alguns não são mais os mesmos, mas de qualquer modo é uma água escassa que tanto faz falta. Mas como nada é perfeito, ela nos chega pelos encanamentos imundos da Rede Globo. No final do match entre São Paulo e Santos, absolutamente do nada, Válber parte pra cima de Preto Casagrande, com socos furiosos que não obtiveram defesa. Em poucos segundos, a turma do “deixa-disso” acalmou os ânimos de todos. Mas aqueles primeiros segundos foram diretos pro telespectador. Assim que pode mexer seus dedos bem educados, o diretor da transmissão tirou do ar a “luta”, e o narrador, pra completar, pediu desculpas ao telespectador pelas cenas – as que eles quiseram mostrar. Eu quis que ele se desculpasse pelas desculpas. Não recrimino o ato do interlocutor em si. O caso de Válber – ao contrário de Rooney – merecia punição caso esse torneio tivesse tal intenção. Mas o pano de fundo é muito sombrio. Não eram homens se esbofeteando no meio da Avenida Paulista; eram jogadores no auge de um tenso e disputado prélio. Apesar deste específico caso apresentar apenas um envolvido que, claramente, queria brigar, não sabemos o que aconteceu lá dentro, o que fora dito entre ambos durante o jogo – alguém lembra de Zidane? E acima disso tudo, está o tal de dever de reportar tudo, com imparcialidade. Me parece que o melhor trabalho é aquele que reporta o máximo possível – inclusive numa briga esportiva. Limpar a imagem, carimbar um pedido de desculpas polido e automático não me parecem tarefas de alguém comprometido com a reza moral que seu diploma carrega. Um contraponto disso seria repetir inúmeras vezes os tapas pra conseguir audiência – que muitos chamam de sensacionalismo jornalístico. Mas, novamente, ver isso acontecer dentro do universo do futebol é doentio. Selecionam, embalam e vendem – e há muitos que compram. O que vale não é mais reportar, e sim vender. Pra isso, a verdade tem de se transformar em “show”. E eu que achava que o futebol estava perto da Broadway quando Stoichkov fez aquele gol de falta contra a Alemanha, no NY Yankees Stadium, em 1994. E agora pedem desculpas por uns tapas, como se estivéssemos assistindo ao concurso de Miss Universo na casa da Dona Florinda. Esquecem que o futebol é outra coisa, é o outro lado, onde se deve desintegrar-se para alcançar um deleite que a vida segue negando. Porque a liberdade é arquiinimiga dos meios termos – principalmente os intencionais, bem elaborados e executados. Nosso inimigo é a Globo. E tudo isso que ela representa. Sinto muito depender tanto do futebol, ao mesmo tempo em que sei que nunca viverei sem ele. Nesses extremos, nos vemos por aqui nos próximos capítulos.

terça-feira, 22 de março de 2011

O clube dos Um

Outra marca nojenta que o futebol covardista nos concebeu foi a formação de um clubinho, seleto e milionário, onde seus sócios podem ser felizes e estúpidos, sem qualquer risco de falência, fracasso ou, se quer, um mal estar. Um bom exemplo é o jogador Anelka: ele sai do Chelsea, vai pro Bayern Munich; sai deste e, de repente, já está no Real Madrid e de lá, depois de uns dois anos, voa para a Juventus... e assim continua, viajando pelo (também) clubinho dos clubes poderosos, jogando o mesmo futebol burocrático de sempre. Vale a pena deixar registrado que isso vem de encontro (e não por coincidência e, sim, consequência) com a morte do antes espetacular Campeonato Europeu de clubes (que, de fato, era um torneio de "Champions", e nada mais). O que sobrou dele foi exatamente uma idéia que começara a percorrer as línguas afiadas da televisão, por volta de 1993, ou seja, a de uma liga - separada e independente da saudosa e decente versão - onde os clubes poderosos estariam presentes e se "livrariam"das "garras sujas"da UEFA. Ora, essa! O que fizeram nesses anos foi exatamente garantir a constante presença das marcas importantes do Velho Continente na vitrine do mercado da bola. Fizeram a nova copa atropelando a antiga e enganaram (e ainda o fazem, visto a audiência do mesmo) o público chamando-a de Champions League, numa absurda contradição, já que até quatro, ou cinco, times do mesmo país estão presentes numa mesma edição. O poder da competição, antes depositado na força em campo (onde Steuas e Estrelas se sagravam campeões pela raça), hoje mora na balança comercial. Lamentável.

Voltando aos jogadores, me deparo hoje com mais uma pseudo-entrevista do pseudo-treinador da pseudo-seleção nikerinho (esse apelido não tem nada de pseudo, infelizmente) - que se prepara para mais um amistoso na sua nova casa, Londres, que tagarela o idioma da matriz e bem longe dos desdentados e mal-educados torcedores brasileiros. Confesso que só me arrisquei a ler pelo título (veja no fim desta publicação) mas, muito brevemente, as coisas voltaram a significar o nada, que engoliu tudo no futebol. Quem seriam as novidades da seleção do Brow Menezes? Lucas, Ganso e Neymar! Faz-me-rir! Renovação interna apenas, sempre com os de dentro do "clubinho dos mesmos". Essa máxima que vai deixar o futebol cada vez menos diversificado, com menos clubes (marcas), jogadores (produtos), porém cada vez mais torcidas (consumidores). Aliás, a Libertadores corre, a passos largos, para a mesma configuração sem graça e rentosa do Velho espelho europeu. O Brasileirasso idem: serão sempre os mesmos times e jogadores a se destacar e, se por milagre, algum novo aparecer, logo será tragado por esta força magnética, cheirando a "verdinhas", para então ganhar a velha nova cara de sempre. O tal de Eder Luis, masturbado na ridícula festinha de fim de ano da CBF, mal conseguia ficar de pé no primeiro jogo do Vasco da Gama este ano. Constrangedor. Esse talvez não consiga entrar no clube, tadinho. Quem vai comprar a camiseta dele, afinal, se o player não consegue manter o nível de enganação que cozinharam para ele? Sem problemas. A máquina santista está aí, e dela, certamente, sairão muitos bonequinhos, prontos para se ajoelharem para qualquer um que lhes garanta um "futuro melhor". E você, hincha de Brasil, se prepare: a volta de Southern Ronaldo já está mesmo concretizada - claro que independente de seu futebol. Essa notícia eu simplesmente adorei desde seu início, quando o tal de Messi fodeu a nikerinho ano passado. Não vejo a hora de me deparar com outro sorriso derrotado, cheio de dentes deste grande gerente do clube. Um clube inteligente, sem dúvidas, do ponto de vista financeiro: melhor cuidar de dois clientes com bilhões na conta, do que mil com 1 realzinho nela, concordam? É o mesmo princípio que fez com que o "país do futebol" ficasse a mercê de uma só emissora de televisão (quem advinhar qual ganha um doce do titio aqui) para assistir a Copa do Mundo. Seduz, controla e gira capital e as novas e ocas emoções. Assim segue o futebol.

http://www1.folha.uol.com.br/esporte/892050-precisamos-achar-mais-protagonistas-para-a-selecao-diz-mano.shtml

segunda-feira, 21 de março de 2011

Das tripas, cifrão


Analisando o Brasil no cenário futebolístico, sabe-se que existem milhares de jogadores (os que se profissionalizam e os que, por diversos motivos, não o fazem) notas dez, outros milhares nota nove, outros oito e assim por diante. E que não há uma nota única e imutável pra cada jogador. Pelo contrário: hoje você pode jogar um futebol nota dez (o que deve garantir sua convocação ou, no mínimo, uma excelente posição no seu clube e questionamentos pela sua ausência), mas amanhã não passa de sete e meio (deixando-o fora do próximo selecionado). E também sabe-se que todo e qualquer selecionado de futebol é formado pelos melhores entre os demais. Por isso, também, tornava-se tão importante, empolgante e disputada uma batalha entre selecionados futebolísticos. A "fila andava", o nível seguia forte e o prazer alimentado. Ao tomar contato com a (mais recente!) sessão de fotos de Neymar pra seleção nikerinho surgiram-me revelações (que não são novas na essência, mas que se renovam com mais intensidade a cada nova jornada): quando uma figura sempre nota dez de audiência e vendas, como Neymar, vai ficar de fora do selecionado, mesmo que apresente um futebol nota sete e meio durante determinado período? O que passa a significar a camisa da seleção quando é preenchida por estas vias? O que será do futuro dos demais jogadores, que terão que se ajoelhar pra constante (e nem sempre justificada) presença dos mesmos rostos, todas as convocações vigentes, ou então se ajoelhar pros senhores que constroem esta lucrativa dicotomia para estarem no lugar dos mesmos? E as questões só começam aí a irromper a alma inconformada que sinto sangrar. A “fila parou”, o futebol também e nós seguimos vivos. Até quando?

Para Bruno Surfistinha: tu és guerreiro, não se culpe, cabeça erguida.