quarta-feira, 13 de maio de 2015
Não sei nem o que significa o vocábulo "vocábulo"
Um pequeno glossário do Antimídia com alguns dos termos mais retardados utilizados pela mídia esportiva:
GORDURINHAS - Agora, com o retorno do "Brasileirão", esse que é o campeonato mais disputado do planeta pois entra com quase todos os times candidatos ao título, muito se falará das "gorduras", termo que ouvi pela primeira vez dito pelo sumido Paulo César Vasconcelos, e que dá conta daquele momento, inevitável neste longuíssimo torneio de pontos corridos, nos quais as equipes, que já passam o certame inteiro se arrastando em campo, exageram na frouxidão, passam a perder muitas partidas e só não se complicam ainda mais por ter acumulado pontuação que os distanciam da zona de rebaixamento - as tais "gordurinhas". Aparenta planejamento, coisa que os solertes analistas tanto prezam e cobram em suas inserções, mas mostra apenas o desleixo geral da competição, da forma como é encarada pelos atletas até a forma como é recebida pelo público em geral. Essa gordurinha tá mais é pra anorexia - e o anoréxico não acreditar que seja um doente traz à comparação ainda mais sentido.
JOIA - Nos sites especializados não se fala mais em jogador de base em ou em revelação: fala-se em "joia". Sim, o jogador brasileiro anda tão mimado que no time de juniores o cara já é tratado com essa pompa. E obviamente o novo epíteto só seria ideal se remetesse a valores. A tal "joia" não designa futebol : refere-se, principalmente, à possibilidade de dinheiro em caixa. É a prioridade. Espera-se que essa pedra preciosa já venha lapidada a contento, pois ao clube interessa apenas vendê-la. O colonizador não entregou espelhinho ao nativo da terra como se fosse presente de grande valia? Essa é a vingança tardia do brasileiro: exportar "joias" futebolísticas com valor de latão.
NAMING RIGHTS - Falar deste futebol de 2015 é falar de dinheiro. Portanto, tão corrente quanto os termos "drible" e "gol", agora temos esse, "naming rights", na boca do povo. Dá aparência de 1o. mundo, não dá? Me sinto em uma "arena" europeia, rapaz! Mas trata-se apenas do popular, e me desculpem por usar um termo chulo tão brasileiro, "passar o pires": é meio que um "outdoorzão" que usa não uma placa na rodovia, e sim o nome do estádio. É prática corrente no velho Mundo o tal do "naming rights", o Brasil não pode ficar atrás - e, se bobear, a parasitagem que rodeia o futebol vende até o próprio nome para garantir o burrinho na sombra. Um "Rivelino Nike" ou um "Zico Burger King" hoje em dia já nem me parecem tão absurdos.
quinta-feira, 7 de maio de 2015
Não posso sujar meu terninho de marinheiro
Acho que deve ser automático para certos jornalistas: quando se fala de Casemiro, quase sempre se fala em "ótima fase". Na época de São Paulo, tentaram emplacar por diversas vezes a tal "ótima fase", até que deu que deu: foi mandado embora do time sem se confirmar o "craque" que tantos apregoaram com ares de certeza absoluta. Quando foi ao Real Madrid, no lugar de tentarem entender o inexplicável dessa negociação, passaram novamente a festejar a tal "boa fase" do meio-campista - e o resultado? Foi novamente mandado embora. Agora no Porto, do nada representativo campeonato português e que deu vexame contra o Bayern de Munique na ex-Copa dos Campeões, muitos repetem, exultantes: está em "ótima fase". O destino já parece desenhado, mas a maioria ainda prefere se iludir - e a convocação para a seleção brasileira que disputa a Copa América é mais areia a se esfregar nos olhos (deles, não nos nossos).
Vejo Casemiro com o perfil ideal de jogador da seleção. Volante absolutamente comum, desses que só olham para o lado e nunca para a frente, reúne em si "qualidades" que determinam à perfeição o atleta do futebol moderno: não possui vibração (importante fator para não identificar-se com nenhuma torcida e assim poder pulular livremente de time em time, sem vínculos), é mimado por imprensa e treinadores, se dispõe a fazer tudo que o empresário mandar, gosta de "cuidar do visual" e andar com o cabelinho sempre na última moda (de preferência a trazida diretamente dos gramados ingleses), está mais preocupado em "fazer carreira" do que em jogar futebol de fato... No agrupamento da CBF ele está em casa, afinal quase nenhum da lista de Dunga dispensa as características citadas acima. Alguns por aí, inclusive, abusam do apego a tais peculiaridades, como o tal Paulo Ganso do SP - mas esse é um caso tão extremo que já parece queimado mesmo perante quem não vê problema em tal (falta de) atitude. Casemiro, esse sim, tem feito a lição de casa com aplicação exemplar - basta continuar a acertar passe lateral de 3 metros e a empinar o moicaninho que tá tudo certo.
segunda-feira, 27 de abril de 2015
É a última vez que me dá vergonha
O cinismo do futebol mercantil assusta até mesmo quem já entendeu parte de seus meandros. Semana passada, nessas caixa de comentários em blog (coisa que não recomendo a ninguém, ler comentários de usuários da Internet, porém vira e mexe faço e me arrependo sempre), um tonto se apresentava como torcedor do Chelsea, disse que não há nada de errado em se torcer para times estrangeiros (a princípio, nada errado mesmo), mas justificou que tomou essa decisão por conta da "corrupção" que toma conta dos clubes brasileiros. Ora, meu filho... Tu me sai com essa e escolhe como seu esquadrão favorito o pioneiro em se lavar a granel dinheiro da máfia russa???? Vai catar coquinho.
Outro dia, inclusive, fui xingado em um blog de cronista esportivo por ter dito, em um comentário, que o tal Hazard nada mais seria que um "Tupãzinho com grife". Vi pouquíssimas vezes esse jogador belga, tenho a certeza de que não me impressionaria nem um pouco se visse com maior atenção (e que a comparação com Tupã seria injusta - para o brasileiro, claro), mas mexer com os "ídolos" dessa molecada é, como se prova continuamente, pior que xingar a mãe.
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Pensava que essa tara por pênaltis fosse coisa exclusiva do claudicante futebol brazuca, mas me enganei - ontem assisti ao primeiro tempo de Arsenal x Chelsea pelo Inglesão e, só naqueles zerados e modorrentos 45 minutos iniciais, houve chiadeira por penalidades TRÊS vezes. Lá como cá: é gente que cai na área e levanta dando chiliques com o juiz, o narrador e o comentarista tornam-se histéricos e acreditam-se com visão além do alcance (isso depois de formarem opinião apenas após uns quatro ou cinco replays da jogada), é um monte de "mão na bola" que viram lances capitais, etc. É uma patologia! Mas, cá entre nós: um dos times entrou com cerca de mil jogadores de meio-campo e nenhum atacante de ofício (centroavante virou peça descartável nesses campeonatos "evoluídos taticamente"); o outro me sai com o tal Giroud (essa boneca aí em cima), francês que claramente serve mais pra tirar foto do que pra pra marcar gol. Numa partida como essa, de "desenho tático" regressivo e postura covarde, só um pênalti mesmo pra tirar o placar do zero.
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Embora o jogo tenha sido melhor do que imaginava a princípio, Santos e Palmeiras me assustou por ver que a arquibancada brasileira já absorve um dos comportamentos mais boçais e inócuos das "arenas" estrangeiras: as palminhas. Ao final de qualquer jogada, não importa se foi um lateral, carrinho, um escanteio, um chute a gol ou algo desimportante: aplaude-se com entusiasmo, reconhecendo generosamente o esforço daquele que suja o uniforme ou até rasga a pele no gramado. O "aplaudir", mais do que esfregar a educação e a polidez da turma endinheirada que agora povoa os estádios na cara daquela gentalha horrorosa e sem dentes que antes estava por ali, é recurso de quem assiste aos jogos sentado. Coisa de quem vai à ópera. Ou ao teatro. Ou a espetáculos de mímica. O futebol deveria ser uma outra coisa.
segunda-feira, 6 de abril de 2015
Pois estava molhado além de morto
Segunda-feira, vemos em destaque nos portais de Internet a incrível goleada do Real Madrid em cima do Granada (quem?), 9 a 0, e, obviamente, com "show" do "melhor do mundo", Cristiano Ronaldo, que marcou 5 tentos. Para muitos, isso atesta a saúde de ferro de um grande clube, este rolo-compressor que massacra quem quer que apareça pela frente - pra gente, amargos como sempre, somente confirma a triste falência desse campeonato que deveria ser oficialmente extinto (pois extra-oficialmente já não existe faz tempo), o espanhol.
Sim, pois um resultado desse é coisa para se lamentar, não merece destaque ou comemorações. É um obituário, a atrasadíssima missa de sétimo dia de um cadáver que há muito já se foi - e que ainda insistem em não velar. Pobres os que enxergam "show" nesse tipo de partida, já que desde o início espera-se uma goleada do gigante, basta apenas resolver o problema do placar, quantos gols teremos dessa vez, e o acuado time pequeno não objetará em momento algum, sua resistência será pífia, apenas aquela protocolar para garantir o emprego da moçada, "fizemos o que pudemos", na verdade não podiam mais do que isso mesmo, o torneio foi construído para que assim o fosse e ninguém parece incomodado, ao contrário, fica a impressão que todos ali se seguram para não aplaudir Cris Ronaldo CR7, estão maravilhados como crianças por estar no mesmo gramado que o "ídolo", queriam ser como o astro das sobrancelhas modeladas porém nada fazem para alcançar tal objetivo além de jogar uma bolinha bem mais ou menos em um clube que oscila todo ano entre primeira e segunda divisões, resta apenas dizer algum dia que jogou contra ele, seja em entrevistas para programas que mostram a vida de ex-boleiros ou em descontraídas churrascadas com os amigos, afirmar que Cris estava "em dia de Maradona", que "era impossível pará-lo", ajudar a construir um mito que não permite desconstrução, contente com sua função de ser um nada na inclemente roda do destino, mas pleno de satisfação por conta da foto que tirou com o craque luso e de ter trocado camisas com ele ao fim do prélio, a sua camisa não se sabe que destino teve, mas a dele... Esta mereceu ser colocada em moldura de vidro e pendurada na sala daquele que um dia foi seu adversário - e que não possui alternativa senão aceitar um 9 a 0 contrário como o maior feito de sua carreira, e ostentar o orgulho da derrota pelo resto da vida.
Fechem esse campeonato espanhol, ainda é tempo!
quarta-feira, 1 de abril de 2015
Sinforoso, um brasileiro
Não é de hoje que o apresentador/radialista Milton Neves faz campanha pela volta do "mata-mata" como fórmula de disputa do Campeonato Brasileiro (também conhecido como "Brasileirão", aquele campeonato que é o mais forte do mundo - sim, do mundo - pois sempre possui 13 ou 14 times que entram como favoritos, segundo boa parte de nossos solertes analistas). À parte o aparente retrocesso que tal ideia possa representar neste povo que tanto ansiou por ver seu torneio nacional enfim "organizado feito os europeus"; à parte algum (alguns?) interesse (interesses?) comercial que o jornalista possua que possa justificar sua pregação; mas um ponto não tão óbvio, e que de forma alguma esperaria que fosse levantado ou discutido pelos graúdos da imprensa esportiva, me pareceu importante salientar.
Não teria sido apenas isso, claro, outros fatores também influem pesadamente, mas os pontos corridos não teriam contribuído para que o jogador brasileiro se transformasse neste bonequinho de ventríloquo que aí vemos hoje, um burocrata com cartão de ponto em punho, um zero à esquerda que não possui mais qualquer poder de decisão? Um campeonato que rasteja da forma como esse Brasileirão de pontos corridos, talvez até pela inexperiência atávica do atleta nativo com esse tipo de fórmula "europeia", favorece a apatia - esta bem expressa por estes analistas leite-com-pêra de canal pago que cobram das equipes "a formação de bons elencos" e não mais "sangue nos olhos" por parte de quem está em campo (o tal "bom elenco" sempre diminui os riscos, para o bem ou para o mal, além de ser a desculpa perfeita para cozinhar os jogos em fogo brando, deixá-los ainda mais lentos por conta da prévia desculpa da "falta de conjunto", e ajudam a imbuir no profissional um excessivo senso de precaução que aniquila qualquer vitalidade que seu futebol possa apresentar). É como se, mesmo após definido o campeão, não houvesse qualquer emoção até para quem venha a comemorar esse título, pois isso se dá por um acúmulo que torna o imediato desimportante; não se encara cada jogo como um ato fundamental por si só, e sim como parte integrante de um todo que privilegia um "planejamento" metódico e indiferente. O "Brasileirão" lembra muito o personagem interpretado por Franco Nero no filme "Django" (o original), que anda pelo mundo arrastando um caixão preso a uma corda - mas a resolução que o pistoleiro apresenta para dar cabo de suas vítimas é inversamente proporcional à inércia do jogador moderno, esse adepto das "selfies" e das tatuagens porém com sérias dificuldades de acertar passes curtos. E, se a modalidade de disputa não é ela própria o peso morto a ser puxado até o fim do ano, o que esta provocou no futebolista pátrio, que de "irreverente" passou a "indolente" com grande facilidade (e com a constante proteção dos que deviam atacar esse estado de coisas - talvez aí a iniciativa de Neves em ser uma voz contrária mereça elogios), esse sim é um fardo desesperador a se carregar.
Pra se pensar.
segunda-feira, 30 de março de 2015
Um tostão de minha voz
Aproveito essa segundona para um adendo às últimas postagens: esqueci de citar o mais famoso "falso 9" (ugh) da história, Tostão, que, na copa de 70, foi escalado como tal por conta da abundância de gênios à sua volta e, atuando como o "atacante que flutua" (ugh duplo), deu conta do recado com maestria. E isso feito por Zagalo, técnico longe de ser considerado "revolucionário" (alguma controvérsia envolve a questão, muitos dizem que o mérito não é dele e sim de Saldanha, seu antecessor, que já colocava o "Mineirinho de Ouro" à frente junto de Pelé durante as eliminatórias para o Mundial - mas o Velho Lobo comandava o time em 70, e só de não ter dado asas à vaidade de comandante e escalado o Brasil com o que tinha de melhor - e o que é mais importante: sem atrapalhar - já faz por merecer o afago da história). Sim, isso mesmo que você leu acima: Tostão foi escalado como centroavante não para "confundir a marcação" ou "segurar os zagueiros" (o blablablá enfadonho típico dos "professores" atuais ainda era incipiente e daria as caras de forma definitiva um pouco mais à frente, na segunda metade da década de 70, com o falecido Claudio Coutinho), e sim para que tivéssemos espaço para que ele e outros sujeitinhos aí, uns tais de Rivelino, Gérson e Jairzinho, pudessem atacar sem restrições. Uau! Se você, a fuçar na Internet pelos últimos gols de Gareth Bale com a mão cheia de resto de Cheetos, ainda acha que Guardiola e Tite são os responsáveis por essa invenção tática fabulosa, essa ousadia teórica sem precedentes, saiba que tanto eles quanto você estão 45 anos atrasados.
(Ainda antes do título de 70, a história diz que Hidekguti, camisa 9 da seleção húngara dos anos 50, um dos maiores times já formados e de ponta a ponta um esquadrão autenticamente revolucionário, também não jogava fixo, para assim abrir espaço às investidas fulminantes de Puskas e Kocsis - mais uma prova de que a memória de um esporte pra lá de centenário é subvertida em nome da publicidade existencial furreca dos anos vigentes.)
sexta-feira, 27 de março de 2015
Eu estou falando do dever... Das obrigações!
Jogamos essa ideia do fim do centroavante aqui mesmo, neste blog, já há algum tempo - se não me engano, no momento da "explosão" de Alexandre Pato (este que, provando não ser necessário grande alcance de visão para tanto, já cravávamos ser fogo de palha). Mas hoje encontro gente que, em nome de uma pretensa "evolução tática", prega como normalíssima a substituição dos antigos "center-forwards" por meias e mais meias, ou, por que não, por "alas" - mas lhes pergunto, caros amigos: existe realmente evolução quando se exclui de uma equipe de futebol quem anota seus gols? É difícil aceitar tanto conformismo, mas ele está aí, a quem quiser fazer uso, lambuzar-se até, disfarçado de "estudo tático".
Quantos centroavantes de ofício restam no futebol de hoje? Goleadores mesmo, sem medo, que peitam zagueiros, brigam, olham para o gol quando estão de posse da bola, chutam de onde estão virados, cabeceiam, que ali estão com a função de fazer gols e não "marcar saída de bola" ou "impedir o avanço dos laterais"? De projeção internacional, apenas o uruguaio Suárez. No Brasil, somente o peruano Guerrero, aos trancos e barrancos, sobrevive - farsas como Jô ou Tardelli tiveram ascensão injustificada porém, como esperado, fôlego bastante curto. Já se aceitam naturalmente times sem o 9 (o Corinthians recentemente promoveu, com aplausos, o eficiente porém pesadíssimo Danilo a seu "homem de referência", e assim Tite, após a partida, foi aclamado como "treinador de grande visão") - ou, se quisermos ser um pouco mais diretos, aceitam-se times sem ataque. O futebol de sofá triunfa mais uma vez: as "mesas táticas" dos comentaristas, essas que tratam os atletas feito robôs e que excluem do jogo qualquer possibilidade de espontaneidade (em minha ultrapassada visão romântica eu ainda espero alguma), tornam-se tão importantes quanto o placar, fazem do técnico um Deus, da disposição de seu time em campo, a verdadeira tábua dos mandamentos. Enquanto isso, resultados minguados tipo 1 a 0 pululam por aí - mas, se tal raquitismo numérico puder ser explicado através do linguajar tão valorizado pelos cronistas, esse das "linhas de 4" ou das "gestões de equipes", não fará diferença alguma. Assunto não vai faltar.
Abro o site UOL agora de manhã, e a capa do periódico virtual festeja: "plano de Dunga para enterrar o clássico camisa 9 funciona" (graças a uma vitória do selecionado empresarial brazuca em amistoso boca-mole disputado acho que ontem, não sei em qual horário e sequer em qual país). Fala-se de tática, não fala-se de craques: eis uma legítima manchete do futebol 2015.
terça-feira, 10 de março de 2015
Dá pra ver que o senhor tá fora da onda
Procure aí, é uma mania que se alastra desde a criançada "expert" em futebol de hoje em dia aos comentaristas mais respeitáveis: superou-se o desenho tático (expressão que, utilizada a contento, empresta a qualquer um o vulto de "especialista") simples e direto de um 4-3-3 ou o tão batido 4-4-2, estes já cheirando a mofo, antigos, inertes, inexpressivos; agora temos uma festa de números para explicar como os times se postam em campo, coisas tipo 4-2-1-2-1 ou 3-2-2-1-1-1, ditas preferencialmente com gestos estilo Paulo Calçade, que usam as mãos e o dedo indicador para explicar a movimentação dos atletas em seu vem e vai para "marcar os laterais" e "fazer a parede" (termos estes também bastante utilizados pela molecada no recreio das escolas). É "falso 9" pra cá, é "time compacto" pra lá... Parece que o Barcelona de alguns anos atrás fez o futebol enfim nascer; tudo que veio antes é natimorto e apenas preparou o terreno para esse esquadrão revolucionário.
Ô rapaziada, desculpem essa minha mesquinha tentativa de estragar seus sonhos molhados, mas não foi o Guardiola que inventou isso não! Não foi o Pep que institui o "atacante que flutua" ou essa obsessão freudiana de treinador brasileiro, a de "recompor o meio-campo". A Holanda de 74 se notabilizou também por seus craques não guardarem posições fixas, não sei se vocês sabem; até mesmo a Hungria de 54 entrou para a história com a junção de força ofensiva e inovação tática - e o abismo que separa as duas épocas é exatamente esse: a preocupação antigamente ela colocar o time à frente, a busca de um resultado, ATACAR (palavra sumida do noticiário esportivo de uns anos pra cá, e que merece ser escrita com maiúsculas); a de agora é o pragmatismo sem cara herdado do mundo corporativo, a agonia sem fim do "domínio de bola" para "gerar resultados". Nessa, Rinus Michels foi derrotado por Carlos Parreira - e Guardiola, assim como o tão badalado brazuca Tite, quer vocês queiram quer não, é uma variação deste último, e não do primeiro (portanto, é hora de aceitar que de revolucionários nada possuem).
Sem contar que time abolir centroavante em favor de jogadores "táticos", essa balela de "meia-cancha congestionada" que faz brilhar os olhinhos dos treineiros de discurso empolado e apaixonados por volantes de cá, combinemos, são opções que nada tem de arrojado: apenas evidenciam a covardia e a falta de sentido do inofensivo futebol moderno, esse que não quer ver "organização" e "ousadia" tornarem-se sinônimos - há de sempre privilegiar-se a primeira; o que possa surgir em função disso é consequência, como diria Carlos Parreira, campeão do mundo em 94. A não ser que você considere "ousado" um meio-de-campo que troca passes ad infinitum e que estatísticas de posse de bola sejam mais significativas que o de tentativas a gol...
Tio Cruyff tá lá, rindo a valer dessa frescurada teórica.
terça-feira, 14 de outubro de 2014
A coisa tá assim...
Talvez o
trauma de ter vivido esta recente “copa do mundo” ajude no exagero e na
amargura a seguir. Talvez seja o restaurante “comfort food” ou o salão de
beleza com conceito. Pode ser também o “bistrô com conteúdo”, que ensina o inacreditável
prato de pipoca com chocolate derretido por cima (com conceito!), o metrô que
não anda mais na linha, os “golaços” da rodada do brasileirão que parecem
saídos de um videogame, e não posso me esquecer das antenas que não cessam a
confusão... Mas, vamos lá.
Há dezoito
anos, pelo menos, me sinto um zumbi. Mataram o futebol, e teimo em mantê-lo
vivo numa fagulha no meu peito – único rincão que nos sobrou. O jogador do
Newell’s calça chuteiras amarelas; o do Central, vermelhas. Ninguém se revolta.
A polícia atira, à queima roupa, e a TV filma tudo. Tudo virou filme, todos se
sentem as estrelas que, realmente, somos em essência – a ironia é que me
parecem tão decadentes nesta forma humanoide/modernoide, ocas luzes que morrem
na aurora da plena compreensão da realidade. O surreal aí está, jorrado,
desonrado e festejado.
Tempos atrás
vendiam o milagre da segurança social nas câmeras de seguranças, que
enfeitariam as calçadas de condomínios, escolas, microempresas, multinacionais,
esquinas... a todo canto! Hoje, vê se neste exemplo o quanto o mundo gosta não
só de equivocar-se sem parar, sem aprender em cada queda, como principalmente a
habituar-se a lidar com o surreal, aquilo que reza ser uma coisa, quando é o
oposto, de fato - parece ate papo do diabo da bíblia. A que ponto chegou a
coisa toda! O orgulho e a empáfia que reinam nas ruas e cega o aprendiz. Não
somente os crimes continuam existir, agora eles são filmados, saciando o
sadismo que, também, compõe o novo homem. O pior é o efeito psicológico das
coisas. A presença das câmeras glorifica a morte do humano. Engana-se o tempo
todo. Atua-se diante delas e como elas estão por toda parte, finge-se a vida a
todo instante. As pessoas não compartilham mais, só sabem competir. Os de
dentro do “castelo” iludem-se de segurança com as câmeras; os de fora as
invejam e, estupidamente, as almejam. E assim semeiam no pobre não o sentimento
de justiça, e sim de querer apenas trocar de lugar com “os de cima”. A confusão
dos diabos, sanguinolenta, sempre. Como sobrevivem, dia após dia? Dopados! Cada
vez mais... as festas não cessam, dia e noite, uma emenda na outra, com
“esquentas”, “afters”, ocupando as horas de cada novo dia que nasce.
Onde fica a
luta? Foda-se a luta! "O mundo é bão, Sebastião!". Vamos sorrir, é a “geração
cocaína” do sorriso histérico, numa doentia sequencia na página da rede
surreal, que os pegou como peixinhos, na real. O “sorriso Ronaldo Gaúcho”
venceu, eles entrouxaram “guela” abaixo.
Goebbles morreu, ele agora veio na forma escancarada. Não faz veneno
silencioso. Agora é barulho, é para as massas, todos estão juntos no barco da
festa que não acaba e sufoca o que poderia ser luta.
As eleições
explicitaram que esta nova geração “Flower Power” muda tanto a sociedade quanto
qualquer outra que veio antes. Mas vive o tempo todo pensando que faz, que
realiza, todos brigam por poder, querem gritar mais alto. O que bradam não
importa mais. É uma merda atrás de outra. Mas tem que gritar. São estes tempos
de guerra cósmica que afeta mares, polos energéticos...
Imaginemos
nós, lindas e minúsculas formiguinhas que somos neste universo, quanto poder
interno acumula-se neste processo e que precisamos jorrar para não explodir.
Vamos nos bestificando. Viver como escravos parece não incomodar essa gente,
tampouco. O inferno cresce na sua cara e sua expressão parece cada vez mais
amena. A cotinha, a migalha te faz dormir tranquilo, com seu papel cumprido. É
assim que domesticam o homem, enjaulando-o e divertindo-o. É o
homem-escravo-hiena. Se permite misturar com seu puto amo, que por sua vez,
também não suporta mais ignorar o sabor do suor de seu serviçal. O encontro dos
mundos, é a dança dos planetas. Aqui embaixo, a coisa ficou feia demais.
A chuteira
amarela no rival vermelho, e a vermelha no rival amarelo. Eles se revoltam? Não,
estão sorrindo, muito bem vividos e alimentados. E dopados! Os que se revoltam
também não parecem mais tão longe dos alienados. A melancolia reina no milésimo
de segundo em que você sabe que o avião vai colidir com a montanha. Com tesão
de sobreviver a tudo isso, o pobre e o rico vão se aproximando, na robotização,
o regresso a tempos ignorantes do homem-macaco, em suas mediocridades, desejos,
medos que se assemelham, também cada vez mais. Aprendendo a compartilhar nesta
doentia competição. Na marra, sanguinolento, sempre. Se violentando cada vez
mais, buscando abrir cada possibilidade, cada pedaço de carne, fazer jorrar o
sangue. Querendo ver lá dentro, de que somos feitos, estes seres tão
infectáveis, tão adoráveis. Como podem se perder tanto a ponto de matar seu
mundo? Na escravidão de cada um de nós, vivos na era em que, finalmente, um
império conquistou todo o globo. Este império dos cabos elétricos.
Eu tenho um
sonho também, como aquele mister King fazia. O meu, hoje, é um mundo sem mais
um fio elétrico, uma antena. Apenas comunicação natural, trocas naturais. Por
que com o globo todo amarrado dentro de si, o que fazem alem deste amar,
respirar, gozar, comer, cagar, mijar, gozar, dormir, pensar e sentir que nos
define? O puto amo vai responder com o domínio, o controle. O momento em que
alguém se esqueceu daquela que deveria ser a primeira e ultima regra do ser
humano aqui: ninguém é mais ou menos, menor ou maior do que outrem. Quem não
vive isso, faz merda, pisa no calo e não pede desculpa, e passa mais um e-mail
via smartphone, a única esperteza que lhe sobrou. É a cena da miséria com a
tecnologia, o siamês que te recepciona na porta do inferno e que tirou tantas
noites de sono daquele velho Nostradamus. O pênalti perdido no ultimo minuto. O
gol contra. A falta. A ausência.
Este caminho
leva direto ao fim, doloroso, sem volta. Quero perfeição, não. Reconheço e
torço pela existência da imperfeição no processo evolutivo de todos e cada um
de nos. O que me faz escrever essas coisas é a falta da mera oportunidade de
algo (perfeito, imperfeito ou a caminho de ambos...) acontecer naturalmente. O
aperto da garganta encontra na morte o limite da força dos músculos do
assassino. Eu só estou estrebuchando meu desespero antes que isso aconteça. Do
outro lado deste vicioso espelho da vaidade e ignorância, jaz o além. Além-mar
para Colombo. Além dos 4Gs para os humanoides versão 2014. Vamos além, amar o
boicote (um santo!), sentir intensamente a negação, plena e deliciosa –
verdadeira, sem concessões. Viver estes pequenos sacrifícios que escondem
gigantescas doses de carinho, vigilância, respeito... a família de Antonia. Compartilhar o mesmo Oceano Atlântico de hoje, infectado séculos a fio por malignos cargueiros de mercadorias e
homens-mercadorias, o velho Himalaia, a Amazônia, o deserto do Saara sem medo,
com igualdade entre cada uma de nossas formiguinhas, incondicionalmente. O
mesmo mundo será outro, irreconhecível às micro-ondas que estrangulam a
criatividade e paixão, irresistível aos que apenas querem viver com liberdade.
Bom dia.
domingo, 16 de junho de 2013
Quem mexeu no meu queijo?
Todos se prostram perante a "grandeza" do futebol de Neymar.
Neymar é a maior aposta do marketing esportivo desde Ronaldo "Fenômeno" (Ronaldinho Gaúcho come poeira, coitado!), a mais efetiva criação dos esquemas extra-campo desde a forjada glória daquela negociação do PSV com o Barcelona em 1996.
Quem cuida da imagem, dos compromissos publicitários, da exposição de Neymar é a empresa dele, Ronaldo "Fenômeno", inegavelmente um ás da auto-promoção que agora empresta seus talentos a outrem.
Neymar joga a Copa das Confederações, transmitida pela Globo - e por ela é tratado como um Deus na Terra.
Ronaldo comenta a competição pelo canal, e sua ligação com o agora "10" da amarelinha sequer é citada. Todos são apenas sorrisos, elogios, contemporizações ("Neymar não jogou bem, mas é que estava fora de posição" etc.) e quetais para com o novo astro do futebol europeu.
Afinal, o que seria do futebol em 2013 se não fossem tantos sorrisos?
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