quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Eu tenho a força

Primeiro: o Campeonato Português (ou Portuguesão, ou Lusão, ou Lusitanão, escolha aí) nunca pode ser levado a sério. É uma das ligas mais fracas e marginais da Europa, e seus destaques sempre dão esperado vexame nas competições do continente (quando dá de um time portuga surpreender, é porque os outros vivem fase bisonha ou subiram no salto). Os brasileiros que vão para lá sentem isso na carne: com raríssimas exceções, quem se aventura na terra de Pedro Álvares Cabral dificilmente vai para uma liga européia de destaque. Ou fica um bom tempo perambulando pelos times do país, ou retorna em baixa para o Brasil. Portanto, o oba-oba feito em cima do tal Hulk já precisa, de saída, ser visto com um pé atrás (até porque se sabe que a imprensa lusa é uma das mais exageradas e ufanistas do mundo, capaz de elevar a patamares de craque um perna-de-pau como Nuno Gomes, por exemplo).

Segundo: a pergunta que me veio quando soube da convocação do atacante é o que isso pode representar de positivo para a seleção brasileira. Acréscimo técnico, quase nenhum. Publicidade? Talvez, lá pelos lados de nossos descobridores. Novidade, só se for pelo folclore (afinal, o cara chama-se Hulk, caramba!). Bem, o fato é que isso pode mostrar aos jornalistas e à opinião pública que nosso treinador Dunga acompanha, sim, o futebol internacional, e está ligado nos brazucas ao redor do mundo. Correto, esse técnico: é destaque no Porto, merece chance com a canarinho. Que atitude bonita, desprendida e altruísta! Um verdadeiro "cala-boca" naqueles que cobravam o chamamento do atleta com nome de gigante verde. A vingança foi servida fria ao nosso ex-camisa 8, que agora a saboreia, deliciado, sentado enfim no trono dos justos. E fato também que ele prepara Hulk, e a todos os seus fãs, para a sonhada transferência para um time maior. Isso já podemos antever, sem precisar de qualquer poder de clarividência. Salvo qualquer acidente, ele vai para um dos grandes da Europa próxima temporada (eu arrisco Real Madrid - cobrem-me depois). Para isso serve a "nossa" seleção hoje: para o alívio dos rancores de seu comandante, e para expor os jogadores como num balcão de padaria. Vai Hulk que a festa é sua.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Duas frases, uma máscara

Frases do jogador Robinho, reproduzida hoje nos sites esportivos e que desejo analisar um pouquinho, ao contrário dos nossos jornalistas, acríticos ao ponto do asqueroso:

"Estou muito feliz com o interesse do Barcelona em mim, pois acredito que, jogando no Camp Nou, será mais fácil me tornar o melhor jogador do mundo".

Do alto de sua insana megalomania, de cima do pedestal marmóreo que lapidou para si mesmo, o ex-atacante santista mostra que acredita ser o maior de todos. Culpa, assim, os clubes pelos quais já passou, que não lhe deram suficente respaldo para explodir no Velho Mundo. O Real Madrid estava errado, o Manchester City estava errado. Não é o próprio Robinho que não faz por merecer o título de estrela-mor do esporte; são essas malvadas instituições, que parecem ter adquirido seu passe somente para boicotar seu brilhantismo. Clubes cruéis, esses. Agora, o Barcelona pode ser a escada para que ele chegue ao Olimpo definitivo que sua limítrofe cabecinha vive a fantasiar: o prêmio FIFA do fim do ano que vem. Na frase do jogador, não existe nada em relação ao interesse do clube catalão que não a sua vontade de continuar a olhar para o próprio umbigo, na intenção de que todos o glorifiquem, quase como que a um santo. Já desrespeita a camisa do seu provável futuro time antes mesmo de ser contratado.

"Tenho que aproveitar a oportunidade de disputar um Mundial e, para isso, não posso forçar minha volta. Não adianta antecipar as coisas e correr o risco de ficar fora da Copa. Minha recuperação tem de ser passo a passo".

Ele ainda pertence ao Manchester City, mas se sente no direito de desprezar a camisa da agremiação a esse ponto. Só quer saber de ir à Copa, e isso porque estar no torneio mundial do ano que vem significa status e cotas de patrocínio, nada mais. O clube já não existe, fica claro em suas palavras e atitudes; ele não se recupera para vestir a camisa do City, ele pensa só na equação "coroa de louros+dividendos financeiros" que o campeonato na África do Sul poderá lhe trazer. E toda essa falta de profissionalismo (para pegar leve no comentário) será premiada com uma transferência para o gigante Barcelona, ao invés de para o Albacete ou o Tenerife. É a vitória definitiva do "eu futebol clube", do jogador que é uma estrela de si mesmo, independente de qual camisa vista (é bom que use várias, já que isso significa vendas e mais vendas), que a modernidade tanto precisa, e exalta cada vez mais. E eu, daqui, me pergunto como os cartolas ingleses puderam ser tão cegos: será que nunca imaginaram que Robinho pudesse tornar-se um fiasco dessa magnitude, quando o contrataram a peso de euro? Hoje, todas as tais camisas vendidas com o nome e o número do "craque" brasileiro celebram apenas e tão somente um fantasma. Nada mais merecido, lei física de ação e reação: compraram um teco-teco com fama de Concorde. Agora, que se virem para repassar o abacaxi.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

O jogo dos sete erros

Percebi, nesses últimos tempos, que perdi a generosidade para com o futebol e com as coisas que a ele se relacionam. O que poderia, há um tempo atrás, contar com a minha tolerância (ou até mesmo me agradar), hoje em dia só me causa irritação e descontentamento. Até entendo o porquê de os comentaristas ainda encararem com tanta festa o que acontece nos gramados mundo afora - afinal de contas, eles lá estão porque amam o futebol, e resolveram fazer disso o seu ganha-pão. Só que aí reside o que mais me deixa aterrado: a paixão não pode excluir a razão. No início, fazemos besteira em nome daquilo que amamos, graças à imaturidade e à descoberta; com o tempo, já temos discernimento suficiente para separar o que é certo e o que é errado dentro de uma relação. Pois, vemos hoje, claramente, em qualquer mídia, que a linha que separa o olhar benevolente e carinhoso da calhordice hipócrita é mais tênue que que sequer imaginamos.

Ontem, o tal de Arnaldo Ribeiro, articulista da ESPN Brasil e co-apresentador do Sportscenter ao lado do péssimo André Kfouri (suas fracas piadinhas e falsa descontração chegam a dar vergonha alheia) disse, logo no início do programa, como se fosse um pé no peito à moda do antigo telecatch, que o atual Brasileirão é um campeonato "sensacional". Admito que, se a pessoa pega apenas a tábua de classificação, com suas diversas possibilidades de queda e ascensão das equipes, pode até pensar que trata-se, sim, de um torneio instigante. Mas o que se vê dentro de campo não é, mas nem de muito longe, tão genial quanto os números, sempre frios, possam apregoar. Peguemos o jogo de domingo como exemplo: parecia que tínhamos 22 mortos-vivos no gramado do Palestra Itália. Um Flamengo que fez o necessário para estar à frente do placar, e nada mais; um Palmeiras que parecia se arrastar em campo, com atletas passivos, desmotivados, entregues ao resultado adverso. Um jogo vagaroso, de técnica pobre, totalmente sem atrativos - e falamos de dois dos que ocupam as cabeças da tabela, candidatíssimos ao título! Como um campeonato que apresenta uma partida lamentável como essa pode ser considerado "sensacional"? E nem cito as outras pelejas da rodada, tão deprimentes quanto.

Que o comentarista é apaixonado pelo esporte, por suas variantes, estatísticas, camisas e tudo o que o cerca, é notório. Aplausos para ele, com toda a sua cultura futebolística. Mas o amor também pressupõe crítica. Se você gosta de alguma coisa, precisa também saber enxergar e apontar o que acontece de errado com ela, no intuito de melhorá-la. Engolir lixo não-reciclável e arrotar que trata-se de coisa "sensacional" é o mesmo que a esposa trair o marido continuamente (ou vice-versa), e este(a) permanecer conformado com tal destino, em nome da paixão que nutre pela cara-metade. Nosso amigo Arnaldo, pelo visto, prefere criar ilusões e devaneios a respeito de sua musa, e não enxergá-la como realmente é. Contenta-se em viver num mundinho de ficção, criado para mascarar a sórdida realidade em nome do corporativismo. Tal atitude pode ser classificada com uma quantidade enorme de nomes, a maioria deletérios - mas nunca, JAMAIS, pode ser confundida como generosidade. Faça-me o favor.

domingo, 11 de outubro de 2009

Um viva à corrupção

Uma vez, quando da transmissão de um jogo da seleção brasileira (provavelmente em uma Copa América, mas não me recordo qual), Luciano do Valle mostrou como as coisas são feitas na TV pós-Galvão Bueno. As imagens mostravam uma falta ou um lateral contrário ao Brasil, claríssimo, não apontado pelo árbitro, quando o solerte narrador disse: "e o o juiz não marcou... felizmente". Em pleno ar, ao vivo, sem o menor constrangimento, o popular "Bolacha" absolveu o apitador de seu erro, exatamente porque premiou a seleção de seu país. Mostrou, ali, em um lance que deveria passar despercebido, que podia ser conivente com um favorecimento ilícito (ou seja, com corrupção), e conclamou os que assistiam a fazer o mesmo - e estes, sob a ilusória bandeira do "patriotismo" a todo momento levantada pelo cronista, concordavam e aplaudiam, hipnotizados em suas casas. Não me esqueço dessa passagem porque pouca coisa pode ser tão reveladora da hipocrisia reinante nesse patético ufanismo que envolve a seleção brasileira - mas o que mais me marcou foi ver exposta, com tamanha clareza, a fragilidade da moral humana. Se o erro favorece a outra pessoa, não pode passar batido; se me envolve, já o recebo de bom grado, era a mensagem da "inocente" frase de Luciano. A mesma pessoa que reclama de um político corrupto ou dos desmandos da administração de seu condomínio ou do chefe no trabalho, por exemplo, é aquela que acha certo pisar em outra para subir de cargo ou que não acusa ter recebido um dinheiro a mais no seu contracheque, fim do mês. Dois pesos, duas medidas.

Lembro desse momento porque, ontem, o nosso querido apresentador atacou de novo. No jogo do campeonato sub-20, entre Brasil e Alemanha, ele disse que, "para nossa sorte", o melhor jogador germânico havia saído da partida, contundido. Outra vez, fez uso da filosofia "é a favor da gente, tá valendo" - e, dessa feita, até mesmo a eliminação de um adversário foi vista como algo acetável, se o que está em disputa é a "nossa" sobrevivência. Logo Luciano do Valle, o sujeito que, há um bom tempo atrás, tanto estimulava o fair-play no futebol, agora estimula o "olho por olho, dente por dente", à imagem e semelhança de seu belicoso colega global. Esse não é o papel de um narrador esportivo. A partir do momento que a pessoa passa a usar o microfone para vomitar recalques e preconceitos, com a máscara patriótica servindo de desculpa, deturpa-se por completo a sua função. Ele está lá para ser o mediador do público com o espetáculo, e não um incitador da tragédia e o pretenso porta-voz da honra, dos desejos e dos sentimentos de um país. Assim como os jogadores que lá estão, e a própria seleção como instituição, não nos representam, exatamente porque se construiu uma (proposital) distância abissal a separar o público das "estrelas", as débeis palavras dos nossos narradores, encastelados em seu cinismo e arrogância, não nos representam também.

Torcer contra a seleção canarinho: cada vez mais, uma questão de resistência.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Ainda (e sempre) contra!

Aconteceu o que era esperado: a migalha do Primeiro Mundo veio, enfim, para o Brasil. Em sua sede por ser grande, por ser europeu ou norte-americano, e para mostrar ao planeta globalizado e "pós-crise" (risos) que é um país "emergente", confiável e de muito valor para o sempre cobiçado capital estrangeiro (termos esses usados pelas revistas semanais de informação neoliberal, e que apenas reproduzo aqui), o país do Carnaval será, também, o país da Copa do Mundo e da Olimpíada. De nada adiantou o exemplo de Tóquio e Chicago, localidades cujas populações rejeitaram veementemente a realização do evento por lá (lucidez, eis um benefício que o investimento em educação pode gerar): enquanto essas cidades não precisam provar nada para si mesmas e ao mundo, e entendem que gastar bilhões de verdinhas em uma festinha de duas semanas é cretinice das brabas, o Brasil quer porque quer ser aceito pela cúpula. É, o complexo de inferioridade, nessas horas, fala mais alto. Parece até gritar. Aí, foi a hora de os desenvolvidos, os poderosos, fazerem a sua média com a parte de baixo do planeta - e o povo daqui, como bom recebedor de esmola, agradeceu sorrindo e cortejando seu benfeitor (como exemplificou o próprio presidente do COI, Carlos Nuzman, o da foto, enquanto assinava, trêmulo, os documentos que nos confirmavam como sede olímpica). Agora, aguentemos a overdose de especiais televisivos/internéticos/impressos que nos prepararão para 2016 - e olha que ainda temos 7 anos para aguentar essa turminha de deslumbrados embasbacada com tamanha "vitória"...

Vejo em muitos blogs por aí que quem condena a Olimpíada do RJ é chamado de "anti-Brasil". Acho que, na verdade, são esses os mais a favor da pátria, já que são eles os que querem vê-la crescer de forma ordenada e correta. Se nos colocamos contra, é porque entendemos que, repito o que foi dito no post aí embaixo, seria muito mais proveitoso para o nosso país se o (vultoso) dinheiro que será gasto com a farra esportiva fosse voltado para as reformas, ou até mesmo a criação definitiva, de uma infra-estrutura física/política/social que é a base óbvia de qualquer lugar que se possa rotular como "próspero" e "desenvolvido". Não é maquiando os problemas, através de vilas olímpicas e domos moderníssimos com seus tetos que abrem e fecham, que se consegue a resolução destes. Eles permanecerão lá, pelo tempo que assim necessário for a alguém, assim como permanecem, vazios e inúteis, os prédios e instalações que outrora haviam abrigado atletas do mundo inteiro.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Rio 2016: aqui, não!

Uma coisa liga à outra: na semana que soltaram o balão de ensaio sobre a contratação do Ronaldo Gaúcho pelo Corinthians, os canais de TV resolveram fazer sua parte para a mentira colar. Em alguns programas esportivos (sim, foi em mais de um), pude ouvir algo impagável, hilariante se não fosse tão espúrio, quando da exibição dos gols do Italianão: "apesar de ter Ronaldinho entre os titulares, o Milan não conseguiu balançar as redes, e empatou em 0 a 0 com o Bari". Pois é, dissimulação pouca é bobagem. Quem ainda é tonto de acreditar em tais enunciados calhordas, que têm como propósito, além de manipular e ludibriar o telespectador mais inocente (em sua eterna preguiça, ele pensa, esparramado no sofá de casa, Brahma nas mãos: "nossa, ele deve ter jogado muito bem!"), também o de tentar melhorar a imagem do falido "craque" para que sua duvidosa volta ao país se consolide com pompas de gênio? Ora essa... Aqui, não!

E, agora, uma tomada de posição por parte desse blog: ao contrário da forjada "corrente pra frente" que muitos tentam instituir por aí, nós somos radicalmente CONTRA a realização da tal Olímpiada de 2016 no Brasil, mais especificamente no Rio de Janeiro. Essa sede megalômana em "globalizar" as cidades tupiniquins, essa vontade insaciável de "inserir" o país no mundo "desenvolvido", de mostrar a todos que o brasileiro é realizador e capaz, que é lutador e não desiste nunca, só interessa a quem possa lucrar - e bastante - com isso. Por isso que apresentadores e repórteres, entre sorrisos abertos e palavras de encorajamento, exortam o povo a "torcer" pela nobre candidatura: isso representa torrencial investimento de patrocinadores pingando igual cachoeira nos cofres da sua respectiva emissora, além de possibilidades extremamente atraentes para o carreirista ("cobri a Olimpíada do RJ", ele acrescentará em seu currículo, todo pimpão). Tal visão mercantil e unilateral não permite admitir que reformas estruturais são muito mais urgentes e importantes para a saúde da nação do que qualquer evento esportivo. Mas o que fazer se o próprio povo, sempre o grande prejudicado nesses joginhos de armar das cúpulas dominantes, prefere assistir a alguma competição de lançamento de dardo no Engenhão, a exigir melhores escolas e postos de saúde para si e para os seus? Ora essa... Aqui, não!

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Mais do mesmo (ou um pouco mais que isso)

Sabe, cheguei a passar mal nessa segunda-feira, quando assisti aos programas espostivos da TV aberta na hora do almoço. Queria ver os gols do final de semana, já que não pude assitir quase nada da rodada do nosso querido "Brasileirão" sábado e domingo (por conta disso, foram dois dias bastante úteis e saudáveis, devo dizer), quando me deparo com um lance que, se classificado como grotesco, chega a ser suave: o gol de mão do Paraná Clube contra o Ceará, pela Segundona (até a divisão inferior precisa ser nomeada de forma espalhafatosa e grandiloquente, segundo a mente dos maquiavélicos marqueteiros). O tapa que o tal Wellington Silva (foto) deu na bola só não viu quem não quis. Foi uma cortada acintosa, um lance de vôlei de praia, de goleiro, de jogador de peteca, o que seja. Caberia até mesmo um cartão vermelho ao dissimulado centroavante, tamanha a vulgaridade de sua obra. Mas a tal jogada foi validada. Melhor: o ponto ilegal significou a vitória do visitante. E, novamente, vi algo que nos escancara a podridão reinante no esporte tratado de forma leviana pelos profissionais da imprensa. Algo que deveria gerar revolta e indignação vira, automaticamente, motivo para piadinhas e gracejos, e é logo esquecido na sequência. Não se pode estimular o senso crítico/político do espectador - vai que ele resolve se insurgir contra aqueles que o manipulam? Melhor é fazê-lo rir da desgraça para manter tudo na superfície. Dias, semanas, meses, anos se passam - e os mecanismos continuam a girar sempre para a mesma direção.

Mas, se aqui gostamos de fazer analogias com o que vemos dentro de campo àquilo vivido em nosso opressivo cotidiano, o que mais deve ser destacado nesse triste circo de bizarrias é a atitude do atleta, típica em nossos gramados. Ele, logo ao anotar o gol, saiu em disparada para comemorar. Ciente que havia o marcado de forma totalmente irregular, não viu pudores em vibrar como se tivesse acabado de mandar às redes uma perfeita bicicleta. Um pouco depois, não sei precisar se ainda no decorrer da partida ou já em seu término, uma repórter perguntou e ele mandou, de cara limpa: "É, foi com a mão". Ali, o falso malandro não conseguiu nem sustentar sua própria farsa, já que confessou o delito (e nem precisou ser apertado por nenhum "meganha" - o fez de livre e espontânea vontade). Ele que, no lance, parecia tão feliz e confiante em sua desonestidade, afrouxou, não sei se na inocência ou querendo contar vantagem. Só que nem mesmo a certeza da culpa condenou o camisa 9: como o tento foi validado, o camarada saiu de campo como um autêntico Deus da patifaria. Fez um gol de mão, comemorou na cara-de-pau, admitiu que fez errado, ludibriou a autoridade máxima em campo e, mesmo depois de tudo isso, deu a vitória para seu time. Levou vantagem em tudo, como dizia a célebre frase do Canhotinha de Ouro. O errado, o muito errado, transformou-se em certo. Todos esperamos por um momento desses. O humano, essa espécie tão corruptível, vibra mais ainda se a vitória vier por vias tortas ou por meios ilícitos. É parte indissociável da nossa natureza. O futebol, essa coisa tão comezinha, mostrou ali, naquele momento tratado como brincadeira por quem deveria mais do que ninguém levá-lo a sério, a face mais repugnante do mundo em que vivemos e da vida que levamos. E eu, passando mal, com o estômago revirado, fiquei cerca de 20 minutos até conseguir me movimentar de novo. Mas não me recompus até agora desse tão violento choque de realidade.

domingo, 13 de setembro de 2009

O show da ignorância

Desde que Galvão Bueno tranformou-se no narrador no. 1 do nosso país, alguns procedimentos típicos do global tornaram-se praxe entre os locutores de outros canais - entre eles, a tal "provocação" aos nossos "arqui-rivais", os argentinos. Para ruir a frágil ponte entre a gozação e a xenofobia pura e simples é bastante rápido; e nisso o no. 1 da Globo é especialista, com seu palavrório sem sutilezas e tom de voz agressivo. Agora que Diego Maradona (foto) é treinador, então, o caminho para as demonstrações de estupidez ficou ainda mais curto, graças às cutucadas que o astro argentino sempre dispensou ao Rei do futebol e à seleção amarela. Portanto, o risco de uma das maiores potências do futebol mundial não ir à Copa do ano que vem foi recebida pelos idiotas eletrônicos com galhofas e chacotas, e não com estupefação. Perde-se o esporte; a piada, nunca.

Digo isso porque, na noite da última quarta-feira (já na madrugada de quinta, para ser mais exato), o narrador do Esporte Interativo, da TV Gazeta (não sei o nome do cara e prefiro continuar sem saber) deu um show de ignorância absolutamente despropositada no VT de Paraguai e Argentina, exibido pela emissora. Já nos lances de perigo guaranis, o sujeito fazia uso de uma gritaria histérica, gratuita e sem sentido, como que para deixar claro que sua preferência pendia para os donos da casa. Aí já começa o absurdo: estamos falando de um profissional, não de um torcedor. O mínimo que esperamos da pessoa que está aos microfones é um comportamento neutro - do contrário, ou se evidencia má-fé ou uma total falta de competência/aptidão para o ofício. Mas o pior viria ao final: decretada a derrota portenha, o cara começou a berrar, a plenos pulmões, de forma convulsiva, desesperada até: "É NOSSO! É NOSSO!". Para além de lembrar o patético "É TETRAAAAA! É TETRAAAAAA!" urrado por Galvão na final do Mundial '94, tal momento mostrou o quão ridículo pode tornar-se uma pessoa ao, para usar uma expressão antiga e menos grosseira que a corrente, "fazer cortesia com o chapéu alheio". O narrador é, por acaso, paraguaio? Porque cargas d'água, então, comemora com tamanha gana a classificação de um time que nem de longe lhe pertence?

Ah, mas respondemos a tal pergunta na lata: é porquê precisamos alimentar a animosidade. Precisamos ser os melhores do mundo, sempre. Não podemos ter rivais, já que somos o "país do futebol". Como alguma outra nação quer se colocar no nosso nível, já que somos tão espetaculares, extraordinários, invencíveis? Às favas a imparcialidade, então. Esse negócio de "os fins justificam os meios" já foi lema para muito regime totalitário e genocida que até hoje estarrecem e envergonham a humanidade. Então, termino com outra questão: quem são os reais arrogantes dessa história?

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

O futebol e seu reflexo em nossas vidas

O general francês De Gaulle disse uma vez que o Brasil "não era um país sério" (consta que tal frase foi dita por outra pessoa, mas o que importa aqui não é o autor, e sim o seu conteúdo). Pois estava eu a assistir ao jogo do Internacional contra o Goiás nesse domingo último, quando aconteceu o lance da expulsão do atacante Fernandão. Já sem o replay era claro que nada havia acontecido: apenas o avançado havia se enroscado com o volante Magrão (e não adianta: se você é marcado por tal jogador, pode-se usar de qualquer recurso, menos fair play - ele, sem dúvida, não o fará). Pois aí o juiz, um tal de Ricardo Marques Ribeiro (ele na foto), resolveu jogar para a torcida, que hostilizava o goleador esmeraldino, e expulsou-o, em uma atitude demagógica e covarde. As repetições da imagem cansaram de mostrar que nada havia acontecido; mas, mesmo assim, o Goiás ficou com um a menos - e tomou uma goleada de 4 a 0 (é certo que já levavam um vareio enquanto Fernandão permanecia em campo; mas, com um a menos, fora de casa, fica difícil até mesmo pensar em reação).

Pois o que mais me deixou assustado foi ver a total passividade daqueles que transmitiam a partida. Mesmo com a imagem ali, evidenciando que nada havia acontecido e que o juiz errara clamorosamente, com prejuízo considerável para um dos lados, o tom dos comentaristas era de "ah, ele errou sim, mas não vamos nos preocupar com isso". Ninguém manifestou indignação, repulsa, aversão, nada. Pelo contrário: riam, como se isso fosse somente um inofensivo folclore, e discorriam sobre suas notas para o "prêmio Armando Nogueira". Quando falavam do lance, tateavam, com receio de demonstrar alguma certeza: "olha, eu acho que não foi nada, hein?". Claro que são tão covardes e omissos quanto o apitador - mas o que me saltou às vistas foi que esse é o comportamento típico do brasileiro, o ser que não desiste nunca. O atual escândalo do Senado, que, assim como o video-tape fez na partida, trouxe tantas evidências para a deposição imediata do presidente Sarney (e isso não aconteceu), mostrou que o brasileiro tem como hábito varrer tudo para debaixo do tapete, dizendo: "ah, esses políticos são todos iguais, sempre roubam e não mudam". E vai lá e vota nos mesmos parasitas de novo. O ciclo vicioso não se rompe nunca, porque somos um povo já moldado para a submissão. Os tais "brahmeiros", que não se importam de viverem esmagados, conquanto possam ter sua cervejinha no fim de semana. Para quê levantar a voz, se as coisas são assim mesmo?

Logo, logo, o tal Ricardo volta a apitar um jogo do "Brasileirão" - afinal, como gostam de dizer alguns analistas, o futebol "é apaixonante por isso". E assim, enamorados e medrosos, prosseguimos.

sábado, 29 de agosto de 2009

Mistérios do além-túmulo


As trajetórias de alguns "craques" do moderno futebol brasileiro são realmente intrigantes. O exemplo mais absurdo é o do Júlio Baptista. Jogador sempre presente em listas de convocação da seleção brasileira, e com passagens por clubes importantíssimos da Europa, o ex meio-campista do São Paulo, na verdade, só foi titular uma vez em sua carreira, no Sevilla. Sim: já com 27 anos de idade, ele só conseguiu ser titular, em todo esse tempo como profissional, em um único clube, durante um único ano! Enquanto esteve no SP, nem posição definida o cara tinha: jogava de volante, de meia-armador, de segundo atacante, centroavante... Não conseguiu acertar em nenhuma, e foi vendido ao Velho Mundo como uma verdadeira incógnita. De repente, virou gênio - e suas passagens apagadas por Real Madrid, Arsenal e Roma mostram que tanta badalação em torno de seu nome não se justifica. Mas, mesmo assim, ele é nome certo para a Copa do ano que vem, e periga até ser titular do Brasil em uma ou outra partida. Vai entender...

Mas toco nesse assunto porque, agora mesmo, assistindo ao clássico de Milão, vejo que o volante Thiago Motta apareceu do nada na Inter, e já é titular! Jogadorzinho mediano, sem grandes atrativos, ele já defendeu dois dos maiores gigantes do futebol europeu (foi "revelado" pelo Barcelona, como mostra a foto); e não é difícil afirmar que, se permanecer entre os titulares da Internazionale, também vai logo ser convocado para a seleção, independente do que esteja jogando ou se algum outro atleta de sua posição estiver em melhor forma ou passando por bom momento. É líquido e certo. Estando entre os 11 principais da Inter em boa parte do recém-iniciado Italianão, assim como nas outras competições que a equipe irá participar, ele com certeza terá a grande "chance" de vestir a amarelinha, já que o atento Dunga adora quem é de time grande, e os convoca exclusivamente por conta disso. Já imaginou que lindo, por conta dessa política idiota, uma dupla de meio-campo formada por Thiago Motta e Felipe Melo? É de fazer o pobre Didi revirar na tumba...