sexta-feira, 26 de agosto de 2011

"A Roma quer Casemiro para a próxima temporada" (sim, eles querem, é sério)

EXCLUSIVO! O Antimídia obteve acesso a algumas gravações (por motivos de segurança, nossa fonte permanece em sigilo) e transcreve, agora, a tradução do telefonema feito pelo presidente da Roma, Thomas di Benedetto, ao cartola são-paulino Juvenal Juvêncio, no qual ele mostrava interesse no atleta tricolor Casemiro, corroborando o que os jornais brasileiros deram como manchete. Confiram.

- Alô, Juvenal?

- Sim. É o presidente da Roma?

- Eu mesmo.

- Tudo bom com o senhor?

- Olha, cortemos as amenidades para irmos direto ao assunto. Eu não consegui dormir noite passada. Tomei calmantes, e mesmo assim nada. Tenho ido a psicólogos, para fazer tratamento. Não aguento mais, precisamos de Casemiro no nosso time.

- Sim, vi nos jornais daqui que existia um interesse por parte de vocês romanos, que a Roma queria o Casemiro e mandaria agentes para cá...

- "Interesse" é pouco: é estritamente necessário podermos contar com esse incrível, genial e absurdo Casemiro na nossa equipe próxima temporada. Que craque, que craque!

- Olhe, Benedetto, é um atleta jovem, agora valorizado...

- Não importa! Pagamos o que for necessário! Não consigo mais ver a Roma sem Casemiro no meio-campo. O time precisa dele para ontem!

- Podemos conversar...

- Juvenal, o caso é muito sério. A Roma corre o risco de fechar suas portas se não tiver o Casemiro com a gente logo. Sem um nome brilhante como esse, não valeria a pena continuar a manter o esquadrão. A presença dele aqui será o respiro que o futebol italiano precisa! É muito craque, esse garoto!

- Vou lhe mandar um DVD...

- Não precisa! Já tenho vários DVDs aqui! Quantos lances magistrais! Que noção de posicionamento, que capacidade de marcação, que vocação para subir ao ataque! Os DVDs não tem mais que 15 minutos de imagens cada um, mas já estou plenamente convencido! Não posso arredar pé!

- Você também precisa falar com o empresário dele...

- Mas já conversei com TODOS os empresários do menino! São vários, não? Eles também querem que ele seja negociado com a gente, fizeram condições especiais, etc, o que me deixou muito feliz. Me juraram que é um sonho de Casemiro jogar no futebol europeu, e em especial na Roma! Confio neles!

- Tudo bem. Me ligue ainda essa semana para fecharmos negócio, OK?

- Só retorno a falar contigo se você JURAR que não o venderá a nenhum outro clube... Repito: é da ordem de manter a Roma em atividade que ele seja nosso camisa 5 essa temporada de 2011-2012.

- Certo, vocês tem a prioridade.

- Ótimo. QUEREMOS CASEMIRO, PRECISAMOS DE CASEMIRO, O FUTEBOL AGRADECE A EXISTÊNCIA DE FENÔMENOS COMO CASEMIRO!!!

- Tudo bem, Benedetto. Abraço.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

A quem interessar possa

Outro dia, falei aqui desse previsível fenômeno que acontece toda vez que Ronaldinho Gaúcho "joga bem": as pessoas que trabalham com futebol imediatamente colocam o sujeito em um pedestal inversamente proporcional à sua disposição em campo; tratam do rapaz como se fosse um divindade mesmo que não tenha feito nada minimamente próximo ao divino - e eis aí o problema: se acreditam que Ronaldinho produz milagres, é, antes de tudo, porque QUEREM acreditar nisso, já acreditam desta maneira automaticamente, antes mesmo de qualquer acontecimento, e não abrem mão da prerrogativa. Em suas cabeças moldadas pela publicidade, o que advém dos pés do 10 rubro-negro é sempre digno de espasmos e reverência, pois assim está incutido em seus subconscientes, ditado diretamente pelo "Grande Irmão", o príncipe eletrônico que guia suas vontades. Não há espaço para questionamentos: assim é, assim deve ser feito, e pronto. Difícil lutar contra o que "especialistas" e "analistas isentos", essas vozes justas e respeitáveis, lhes injetaram na mente como dogmas inflexíveis, não é?

Agora, Ronaldinho é tido como "um dos destaques do Brasileirão", graças a alguns jogos que "decidiu". Um cruzamento feito de forma correta, se executado por ele, é "decisão de partida". Suas 10 presenças apagadas são deletadas, passam a não existir mais, em troca do auê ensurdecedor criado a partir daquela única bem disputada. "Ele recuperou a alegria de jogar", dizem. Adentramos em um território ainda mais próximo ao da lavagem cerebral quando Galvão Bueno diz, na transmissão do jogo do Flamengo, que o craque deve ser convocado para a seleção brasileira novamente. Mobilização geral: Bueno dá a ordem, seus cordeiros obedecem, e a discussão passa a ser quando Mano dará outra chance a esse "gênio". A desonestidade dá o tom dessa história porque: 1) estamos falando aqui de um campeonato no qual um inacreditável encosto como Luan é titular de um de seus principais times (e bem cotado na tabela da Bola de Prata da Placar, confiram tal hilaridade no site da revista); e 2) temos alguém alçado a patamares de "gênio" porque bate pênaltis e dá "cruzamentos decisivos". A nós, do Antimídia, tais parâmetros são muito pobrinhos. Sorry, folks, mas resistimos a cair nessa arapuca.

(Para terminar, preciso compartilhar com alguém o que escutei na transmissão de domingo: Luciano do Valle disse que o Flamengo, que ganhava por 2 a 0, deveria tomar cuidado, porque o Figueirense é "um timaço". Sim, repito: ele disse que o Figueirense é "um timaço". Sem mais.)

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Come mortadela e arrota salmão

Dentro da covarde idéia ilusionista pregada pelo futebol moderno, um de seus capítulos mais rasteiros têm sido escrito agora: alguns "articulistas" (Neto à frente, seguido de entulhos como Celso Cardoso) estão tentando incutir em nossas mentes que Luan, do Palmeiras, na realidade não é um clamoroso perna-de-pau, e é sim atleta a ser considerado, pois demonstra utilidade graças a sua "consciência tática" (qual?). Luan é, disparado, um dos casos mais grotescos do futebol atual, um atacante que sequer possui discernimento em relação à melhor maneira de ficar em pé, uma das maiores indignidades com a camisa verde em toda a sua história. Nos tentarem transmitir a idéia de que não, não estamos vendo um anti-futebolista paquidérmico e despido de qualquer condição técnica, e sim alguém que realmente possui valor e que sua condição de titular do clube é merecida, é mostrar (mais uma vez...) que encaram o espectador como um nada desprovido de qualquer capacidade de percepção e entendimento, é querer transformá-lo em um ruminante pronto a fazer outra refeição de capim. Buscar cavucar a estranhíssima história desse sujeito, que foi contratado por 7 milhões (!) de euros pelo Palestra mesmo, repito, tendo enorme dificuldade com o básico mecanismo que faz um ser humano ficar em pé, é algo que não passa pela cabeça dos tais "analistas" - afinal, isso pode representar um passo ambicioso demais para quem se refestela apenas com o superficial e com a mistificação corporativista/publicitária.

Nos últimos jogos do Palmeiras contra o Vasco, procurei observar a diferença reinante entre os noviços e Juninho Pernambucano. Deu pena, na boa. Observava Luan, entre as trombadas e sua falta de categoria usuais, que não lhe permitem sequer completar um lance sem atropelos, e o 8 cruz-maltino, que não errava passes e lançamentos para qualquer distância do campo e que não dispendia nenhum esforço adicional para que sua categoria fosse aviltantemente superior à de todos que ali estavam, e me sobrevinha uma incontrolável vontade de chorar. Quando estabeleceu-se a mim que dois dos paradigmas do futebol ali estavam, Juninho, meio-campista de classe pertencente a uma geração anterior (e nem tão distante em relação aos anos, mas já tremendamente ultrapassada em se tratando de propósitos), e Luan, desgraça que sequer poderia ter sido aprovada em uma peneira mas que ali estava vestido a camisa de um grande brasileiro (e como titular!) graças a algum nebuloso trabalho de bastidores, surge o lance capital: o vascaíno aplica um tranqüilo chapéu justo no "ponta" palmeirense. Então a ficha caiu, já que, se não havia a menor possibilidade de se concretizar um "choque entre gerações" ali, era porque o real embate naquele pedaço do campo, e que resultou no calmo lençol, era o futebol versus o anti-futebol - e o primeiro sempre sairia vencedor, não importa a quantidade de euros, não importa a cor da chuteira. Juninho está prestes a aposentar-se sem gerar sucessores, e tipos como Luan são a maioria populacional do decaído "Brasileirão". O campeonato não poderia ter um velório mais condizente.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Quando o futebol dominava a Terra...

O futebol moderno é como um furacão. Enfurecido, destruidor. Ele muda tudo, pois ele é o supremo na equação da vida e da morte. Só que o futebol moderno é um fenômeno criado pelo homem. Antes ele era um jogo. E havia gente (muita gente) que torcida pelos times e ali encontra resposta paras suas dores diárias. Não era ópio, e sim gozo. E logo, houve a imprensa que passou a noticiar e relatar os fatos envolvendo o esporte... No final, tornou-se uma loucura maravilhosa, a junção de todas as artes em uma só! Mas ai veio o furacão e tudo começou a mudar. Lógico que, de início, ele surgiu como um sopro qualquer, pois nele há articulação e veneno Lavagem cerebral se faz com flores e não tanques. E, pouco a pouco, com muito planejamento e execução, estudos e metas com públicos alvo definidos, esse monstro virou essa catástrofe que engoliu a essência do jogo, em detrimento de alguns trocados no bolso. E ele segue destruindo, pois há o homem, e não a natureza, por trás de seus instintos. Manipulando os fatos, disfarçando a verdade, quando ela agride sua pecaminosa existência e criando aberrações em forma de Hércules. Seus aplausos são pré fabricados e o cheiro mais forte não é mais do suor. E a mentira bem contada serve como força motriz desse monstro. Necessita, logo, de algum “golaço”, ou algum “jogão”, para que a venda milionária de sua arte seja justificada. Como esse monstro nasceu para esmagar o que antes havia, pois precisava de seu espaço para triunfar, vivem a difamar coisas como o “carrinho”, a discussão com o árbitro, pois nada, absolutamente nada pode ficar no seu caminho e de suas “glórias” executadas e planejadas. E esse monstro não é feito de energia natural, e sim de dinheiro. Então, ele não pede licença. Vejam agora como as camisas dos “jogadores” não precisam mais ficar para dentro dos calções dos mesmos. E não porque alguma tendência natural guiasse o jogo para essa mudança. Sim, os fardamentos de 1930 não eram mais os mesmos em 1950, e assim foi escrita a história da evolução. Mas essa nova “mudança” vem para que a parte de baixo da camiseta tenha mais um espaço para mais, claro, dinheiro. Coincide com a falta de cobrança que este mosntro tem com o legado, que agora ficou no passado. Hoje, o erro não evoca mais cobrança. O jornalista erra, e ri dizendo "oi" pro seu microfone ligado ao diretor de estúdio; o jogador erra um pênalti e não pode ser vaiado, sem que a TV diga que "a torcida está pegando no pé", e assim vamos. Havia muita cobrança no futebol, porque só assim controlava-se aquela loucura maravilhosa. Agora, com planejamento e execução, tudo pode, tudo se cria, tudo se vende. Havia espaço no futebol para tudo, inclusive ganhar dinheiro com ele. Mas nunca em nome da morte de seu legado! Ele segue destruindo e dominando, como um vírus letal faria num corpo qualquer. Há muito terreno até a Copa Havelange, que logo vem. Preparem seus abrigos. Nada mais por hoje, amigos.

PS – Viva Valdir, O Bigode! Viva o 3 a 5 na Vila Belmiro! Aquilo, sim, arrepia minha alma!

sábado, 23 de julho de 2011

E as feridas não cicatrizam

http://www.lancenet.com.br/futebol-internacional/Relembre-luta-Kerlon-volta_0_521947892.html

Essa matéria, uma pérola desse morto 2011, deixa a nu o porquê de a "seleção brasileira" ter fracassado tão clamorosamente há alguns domingos. A trajetórias desse Kerlon, o "Foquinha", é emblemática; simboliza como poucas o que se tornou o futebol brasileiro, mundial até. Mas primeiro vamos voltar no tempo. Para quem tinha a cabeça no lugar, era tranqüilo enxergar em Kerlon apenas um desses malabaristas inócuos - tanto que a ele foi necessário inventar o tão improvável quanto inútil "drible da foca" para conseguir algum destaque. Mas isso é detalhe: a jogada, em algum DVD, junto ao oferecimento por parte do empresário de algumas vantagens para a contratação do "craque" (salários mais baixos em relação ao praticado na Europa, etc), poderia enganar os gringos - e lá se foi Kerlon para a Itália. Estar no Chievo, ser reserva no Chievo, é coisa bem do tamanho do atleta, sem surpresa, portanto; voltar para o Brasil e sequer ser titular de um time de segunda divisão como o Paraná também - mas eis aí que temos a aberração da história: como que a Inter de Milão teve interesse em Kerlon, comprou e ainda mantém seu passe, e segue pagando salários ao cara até hoje? Estamos falando de um gigante do futebol, de um clube que contou, durante toda a sua história, com grandíssimos e reais craques - como essa enorme instituição se rebaixou a tanto, a ponto de contratar a esmo qualquer coisa que lhe é oferecida, e depois dispender uma vultosa 'ajuda de custo' para manter afastado de seu elenco um jogador que, convenhamos, nunca sequer lhes passou pela cabeça que fosse servir de algo?

Mas então: o que Kerlon e sua não-passagem pela Inter tem a ver com a malfadada seleção do Mano? Ora essa, veja os grandes fenômenos desse time amarelo, os mitificados donos da bola de agora: com uma ou outra exceção, são craquezinhos de plástico, frágeis e com recursos voltados apenas ao espalhafato publicitário ("drible da foca"), mas lá estão, em grandes da Europa, assim como o cirsense mineirinho um dia esteve. Kerlon não é exceção: é regra - a única diferença é que não deu certo (segundo o tio, em entrevista no fim do texto, não deu certo como atleta profissional, mas financeiramente está com a vida ganha - o que mais importa, afinal, nos asfixiantes tempos correntes). Deliciem-se com essa exposição da gangrena do futebol moderno em carne viva.

(Em tempo: Mano Menezes não sossegará enquanto não negociarem esse Renato Augusto com algum time "grande". É outro desses incontáveis "gênios" brasileiros, o meia do Bayer Leverkusen.)

terça-feira, 5 de julho de 2011

Bem-vindo ao reino virtual


http://obeco.planetaclix.pt/rkurz68.htm

Como já destacamos por aqui, uma das coisas que mais incomodam no futebol moderno é a idolatria excessiva a nomes individuais, o que descaracteriza o jogo e torna-o cada vez mais egoísta e centrado em frivolidades - e eis que surge esse interessante texto tratando do assunto, datado de 1999 (ou seja: há doze anos, apogeu da era Ronaldo-Nike, a situação já parecia ridícula; hoje, não só os procedimentos da época consolidaram-se como são cada vez mais aprofundados). O sociólogo alemão Robert Kurz sustenta que, a partir do momento que o futebol passou a significar, acima da própria idéia da prática profissional do esporte, ascensão social, concomitante com a transformação dos clubes em empresas multinacionais (um fator alimenta o outro), criou-se a necessidade de uma "identificação irracional" com os "ídolos" ali fabricados - pois somente assim gerariam consumo desenfreado, a nova ordem do futebol a partir da década de 90, e poderiam suprir os gastos cada vez maiores na manutenção deste irreal status quo (sim, é o ideário capitalista em sua forma mais pura). E a tão batida palavra "globalização" citada no título ajuda a explicar o surgimento de jogadores japoneses, coreanos, africanos de países com pouca tradição, centro-americanos, e também uma inflação insana de sul-americanos (a maioria com técnica abaixo da crítica) nos clubes com maior poder aquisitivo: barateiam-se os custos para os europeus, criam-se novos mercados para venda de produtos licensiados a reboque da participação desses atletas, obtem-se projeção e lucro astronômico, vende-se o "craque" pelo dobro/triplo do que foi pago, e assim vamos. Enquanto aumenta-se cada vez mais a demanda por quantidade, a qualidade diminui vertiginosamente - uma disparidade que, a eles, homens de negócios, interessa, e muito.

Estamos então no futebol como "reino da virtualidade", lugar no qual os jogadores "não têm mais nada a ver consigo mesmos". A fantasia agora é criada fora de campo. Tema esse familiar a quem frequenta esse blog.

sábado, 2 de julho de 2011

Taras secretas

Duas classes de jogadores do 2011 despertam minha curiosidade. São eles...

O que não joga mas é "craque" - Entre tantos, três se destacam nessa incrível categoria de ilusionistas: Alexandre Pato, Paulo Ganso e Adriano. Dificilmente estão em campo, ouve-se mais de suas "contusões" ou aventuras fora dos gramados (Pato com vistosas namoradas, Adriano em bebedeiras e escapadelas para bailes funk, Ganso em choramingos para ser "valorizado" e obter aumentos de salário) do que de algo produzido dentro dele, mas, mesmo assim, de alguma forma que só a modernidade pode explicar, são indiscutíveis, em clubes, convocações de seleção brasileira e especulações de transferências. Se você quer a prova de que o futebol hoje é feito de imagem bem trabalhada e dos factóides jornalísticos, olhe atentamente para esses três e caia na real de vez.

O que é considerado "craque" de acordo com a multa contratual - Os da nova geração, encubados por empresários e desde cedo acostumados às suas táticas de guerrilha marketeira, são assim: jogam na imprensa, essa entidade tão voraz por números, o valor da renegociada rescisão do contrato, normalmente aquela recheada de chamativos zeros, para que todos os observem com novos (e generosos) olhos. É um recurso que sempre dá certo. Vejam o caso desse garoto Lucas, do São Paulo (que o Tino Marcos, da Globo, chama de "Lucas Silva"): já era uma estrela indiscutível dentro do clube e fora dele sem nada ter feito de relevante pela camisa tricolor, somente para si próprio - e o argumento que muitos utilizariam para rebater posições contrárias é a de que "a multa rescisória dele é de não sei quantos milhões, um jogador valioso assim só pode ser 'diferenciado' (sic)". Como já dito, amigos: é tática certeira.

domingo, 26 de junho de 2011

Leu na Veja? Azar o seu

Matéria de capa da revista Veja essa semana trata desse novo fenômeno mercadológico-televisivo: o garoto Neymar. Primeiro ponto: a chamada de capa diz que "finalmente, surge um craque da linhagem de Pelé". Ora essa, quem acompanha futebol desde os semi-perdidos anos 90 sabe que muitos já vestiram o tal manto. Como abandonar agora aquilo que disseram de Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo, Robinho e alguns outros, que não só seriam tão grandes quanto, mas superariam o rei do futebol, na lógica imediatista e descartável do senso dominante? E qual critério é utilizado para negar jogadores da estirpe de Rivaldo, Giovanni, Renato Gaúcho, Careca, Serginho, e principalmente Romário, nessa festa de localizar os maiores craques contemporâneos? Que muleta extraordinária e inesgotável para aqueles pára-quedistas que não conhecem o assunto mas teimosamente se dispõem a falar dele (inclua aí parasitas do jornalismo esportivo, lógico)!

Segundo: a ascensão de Neymar mostra um mundo inapelavelmente corroído pelos manuais comportamentais de RH, o ditame do ser humano "evoluído" do novo século, ao lado das receitas de felicidade instantânea catalogadas em livros de auto-ajuda (livros esses que, sabiamente, não explicam que a busca mecânica e induzida por felicidade é contrária à própria idéia em si de felicidade, aparenta-se mais a um desespero social latente e está a um passo da patologia). Isso ajuda a explicar essa idolatria doente, pois são conceitos cada vez mais absorvidos por nosso tempo, parte identitária dos dias correntes: Neymar representa não o arrogante ou o individualista, mas sim o "pró-ativo", o que "lidera seu grupo à vitória", o "arrojado"; características essas as quais os psicólogos corporativos apontam em quem é "vencedor nato" para nortear seus critérios de seleção. Não é à toa que o jogador seja capa de Veja, portanto, um veículo que dá voz a tal mentalidade escriturária-robotizada e é direcionado a quem a valoriza e aplica em seu dia-a-dia. E tome números: quanto custa, quanto ganha, quantos patrocinadores possui, o quanto não sei quem vai lucrar, o quanto o Santos investiu, etc, etc, etc... Seria isso uma planilha de Excel ou uma matéria sobre jogador de futebol? Nesse nebuloso 2011, está cada vez mais difícil fazer a separação.

(Só para constar: me sinto um tanto quanto tentado a defender o Pelé jogador, e não tenho o menor problema com isso, haja visto a distância que vai ficando maior dele a cada geração que surge, e também a obrigatória negação ao modernismo que daí deriva - mas determinadas atitudes tomadas pelo "Rei" são de uma estupidez alarmante. Como manter a boa vontade depois de conferir Edson no Pacaembu usando o terno do patrocinador, permanecer em um camarote cercado de políticos, e ainda querer um naco dos holofotes ao descer para fazer populismo junto ao time no gramado? Nivelar seu maior jogador ao nível dos outdoors ambulantes de hoje, outro serviço prestado pelo futebol moderno - e no qual Pelé mergulha de cabeça sem pensar duas vezes.)

terça-feira, 21 de junho de 2011

Pincelar bem para pincelar sempre

É legal ver que alguns comentaristas midiáticos (não por coincidência, aqueles que possuem o perfil mais "combativo" ante a malta de cachorrinhos de dondoca que povoa a crônica) compram a idéia do "ódio eterno ao futebol moderno" - mas não adianta achar que essa briga se resume à questão da elitização das arquibancadas e nada mais. É o mesmo que tratar de um ou outro órgão em uma doença que já se espalhou por vários deles. Ora, de que serve a pessoa fazer discursos de repúdio ao estágio atual do esporte, enquanto, ao mesmo tempo, exalta clubes que fizeram (e que continuam fazendo, sem trégua) por matar e enterrar o espírito real do jogo, e trata a pão de ló esses jogadores holográficos que vivem a realidade do futebol-marketing às últimas consequências? Uma coisa não exclui a outra: todos possuem sua parcela de culpa; e, se deseja-se realmente uma mudança, a solução definitivamente não é estapear com uma mão e afagar com a outra.

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Linko vez ou outra aqui alguns textos desses blogs "de esquerda" - mas como é triste dar uma passada d'olhos nos comentários destes sites! Sim, pois tais veículos são, supostamente, direcionados a quem deseja ver desnudadas as artimanhas sujas da mídia monopolista; mas, quando o assunto é futebol, essas mesmas pessoas ditas "esclarecidas" e "conscientes" (em nome, via de regra, da paixão clubística, e, para defender "astros" da profissão, daquilo que existe de mais raso e clichê no discurso patriótico) passam a cordeirinhos do senso comum com velocidade estonteante. Ou seja: tornam-se reféns e vítimas daquilo que acreditam criticar; caem com facilidade na armadilha a qual se crêem alertas; em função de um provincianismo risível que parece esquecer que futebol também é política massiva de controle e manipulação, e que, assim sendo, traz consigo corrupção, tráfico de influência, favorecimento ilícito, etc. Demonstração cabal de que as ventosas do esquemão vigente são tão perniciosas e envolventes que se estendem até onde menos imaginamos.

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Como disse em outro post, o futebol anda cada vez mais previsível - e o título do Santos foi anunciado antes por aqui. Foi também, como o esperado, uma festa que visava, antes de tudo, produzir imagens para a TV. Assustava ver que o que acontecia em campo não existiria sem a intermediação de uma máquina, foi montado em sua função; e, a ela, acima do próprio espetáculo em si, cabia a responsabilidade por guiar as reações e sensações. Quem estava no gramado (até mesmo seres periféricos, como reservas, cartolas, etc.) atuava com o propósito de ser eternizado em fotos e fotogramas; calculava suas poses para melhor aparecer em capas de jornais e esportivos do meio-dia, fornecia bons ângulos de foco e esperava ser correspondido; premeditou as atitudes que tomaria caso o título chegasse com esse propósito, o de produzir efeitos bombásticos pela pose. Como bons veiculos de marketing que são, os jogadores aprenderam a viver o efêmero, e fazem até mesmo a conquista de um título tornar-se evento frio, mecânico, artificial, esquecível dali a algumas horas. Isso caracteriza o futebol moderno: ser ligeiro de espírito; jurar amor aqui e dias depois jurar em outro lugar, sempre sob o signo do consumo. A vaidade e o egocentrismo exacerbados talvez sejam suas únicas manifestações de vida não-programada, não-publicitária - e Neymar dar a volta olímpica sozinho e correr a jornalistas antes de partir para a torcida é a realidade do futebol mundial em 2011 esfregada em nossos focinhos.

domingo, 19 de junho de 2011

Caldeirão? Por onde que eu não vi?

(Notícia retirada do site "Diário da Bananolândia":)

TORCEDOR PROCESSA JORNALISTAS POR PROPAGANDA ENGANOSA
Por Paulo Nonato

Um torcedor de São Paulo, capital, que preferiu não se identificar, mas que aceitou que divulguemos as iniciais G.C., está com um processo correndo na justiça da cidade, no qual responsabiliza todos os jornalistas por aquilo que considera propaganda enganosa divulgada em sites, jornais e programas de TV. "Sim, pois eles estão dizendo que, se o Santos mandar a final da Libertadores no Pacaembu, o estádio se transformará em um 'caldeirão'. Considerei tal afirmação, além de mentirosa, ofensiva, pois, se brasileiro sequer sabe torcer, comporta-se no campo como uma tia velha, como terá condições de tornar qualquer ambiente em um 'caldeirão? Por isso, processo mesmo".

G.C. acredita que existam outros interesses por trás de tal colocação. "É uma maneira de tentar passar para aquele que está em casa um sentido da loucura que uma 'final' deve ter, mas de forma desesperada e proto-marketeira, que visa produzir esse clima na véspera de forma artificial, incutir no torcedor que ele ajudará a criar um descontrole e a fazê-lo acreditar que qualquer coisa que assista no Pacaembu quarta-feira remeterá a um memorável inferno na Terra - mas eles sabem que os que lá vão gastaram muito dinheiro para simplesmente 'torcer', essa coisa animalizada e reservada somente aos de baixo nível econômico/social. Por isso, em 10 minutos começam essa coisa típica de brasileiro, que é vaiar o time se as coisas não saem como o esperado. Barulho de apupos não é 'torcer'", afirma.

"Também é uma forma ridícula de igualar a torcida nativa com as demais latino-americanas, ainda baseado no clichê 'Brasil é o país do futebol'. No discurso desses profissionais, não podemos ser inferiores às torcidas de outros países, pois, de acordo com o chavão, precisamos ser melhores do que eles em todos os níveis. Mas a tradição platina, uma escola reconhecida universalmente como exemplar, ensina que uma torcida deve ser a força do time partindo das aquibancadas - e a brasileira, que o time deve, do campo, empurrar a torcida e ditar suas reações. A latina reage antes e durante; a brasileira, somente depois. A mentalidade é o exato inverso, e o brasileiro nunca transporá esse abismo que o separa do torcedor verdadeiro porque uma questão cultural os diferencia".

Com o processo já iniciado, G.C. acredita em uma vitória no litígio. "É lamentável que essas pessoas da imprensa, e até mesmo esses torcedores de ocasião, insistam em criar uma realidade paralela, ao invés de começarem a trabalhar com fatos concretos, que qualquer um com a cabeça no lugar pode ver. Quando tiverem a humildade de admitir que Brasil não possui torcidas, e sim gente que vai assistir aos jogos, pode ser que algo se transforme".