terça-feira, 27 de setembro de 2011

Rápidos pitacos

Um bom exemplo (entre tantos) de como a mídia esportiva brasileira é subserviente e prostrada, é deixar passar a oportunidade de mergulhar nos meandros escusos dessas negociações do futebol brasileiro com a máfia russa. Uma história como a de André, atacante ex-Santos que pra lá foi e retornou alguns meses depois como se nada tivesse acontecido (ou como se sua transferência tivesse custado alguns centavos, e não muitos milhões), fedem de longe. A quem isso serviu? A quem isso calou? Qual a responsabilidade do "grupo de investidores", os que receberam esse dinheiro de procedência (não tão) duvidosa e que agora o gasta sem atropelos? Como esses nada modestos montantes continuam a levar jogadores daqui mesmo que exista a suspeição e indícios claros de lavagem de grana criminosa? O dia em que o jornalismo deixar de ser a área de trabalho de analfabetos funcionais e candidatos a figurante na Praça É Nossa, quem sabe...

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Um dos muitos mimados e metidos a prima-dona do futebol nativo, jogador supervalorizado devido à crônica carência de reais talentos, chamado até mesmo de "ídolo", o atacante Kleber (foto), do Palmeiras, agora adota o procedimento Rogério Ceni no trato com a imprensa: situa-se, arrogantemente, como que em um mundo acima do resto de sua equipe. Despista, com palavras ambíguas tipo "precisamos" ou "não podemos", qualquer imposição de responsabilidade perante o mau momento da equipe, assim como atribui, de forma enviesada, a "culpa" a atletas de todos os setores do time - e ainda se dá ao direito de ditar soluções ao que não lhe compete, enquanto acumula trocentos jogos sem desempenhar sua função, ou seja, marcar gols. O apelido "Gladiador" sugeriria que o atacante encarasse sem medo os percalços do caminho - mas ele prefere, pelo visto, fazer o contrário. A não ser que se confunda prepotência e crocodilagem com "raça".

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Mário Fernandes não foi à seleção - e esta é uma das histórias mais mal explicadas dos últimos tempos. Porém, o que chega a público é que o jogador já possui o agora tradicional "grupo de investidores" pro trás de si - então, se sua estranha ausência no milionário bando da CBF ainda carece de esclarecimento, até por conta da "valorização do passe" que sua presença por lá traria, o motivo de sua convocação agora está bem menos nebuloso. As lombrigas e os sanguessugas agradecem.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Quem não sangrou não sangra mais

Resultados como o 8 a 0 que o Barcelona enfiou no tal Osasuna fim de semana passado só impressionam aos mais facilmente impressionáveis. Mas pensava esses dias que a greve no Campeonato Espanhol veio na hora certa: o volume de dinheiro investido por Barcelona e Real Madrid não pode gerar concorrentes. Eles precisam reinar sozinhos, para que tal montante de cascalho injetado massivamente em suas "estrelas" não seja em vão. A concorrência, se existir, se já não surge enfraquecida pelo assustador peso dos gigantes, precisa ser esmagada e humilhada, para manter-se em seu devido lugar. O futebol-dinheiro, assim como no mundo dos arranha-céus e das manobras de escritório, também gera oligopólios - e o retorno do Campeonato Espanhol mesmo em estado agonizante representa como nenhuma outro o quanto as idéias feudais ainda encontram respaldo no ser humano "moderno".

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Desde que os cabelos passaram a ser peça fundamental de um jogador de futebol, e que cabelereiros são contratados por clubes e seleções para dar um trato no visual dos "craques", o fundamento chamado 'cabeçada' sumiu dos estádios. Onde estão os grandes cabeceadores? Desapareceram com um golpe de laquê atrás de algum moicaninho por aí. E fica fácil entender: como desmanchar um topete, que tanto trabalho deu para ser montado, que tanto gel gastou para ser erguido, que tantos "seguidores" encontra arquibancadas mundo afora, com uma cabeçada, essa coisa rude e primitiva? Antes não saber cabecear do que tornar-se um pária que renega os modismos mais quentes dos gramados, não?

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Fico a imaginar o que uma pessoa que leva esse futebol de 2011 a sério, acha "interessante taticamente" um espetáculo de horrores sem precedentes como Avaí x Palmeiras, que aceita um jogador tipo esse Tinga, do Palestra, como "um bom meio-campista", faria se vivesse em outra época. São esses os que costumam dizer que "os jogadores de antigamente não dariam certo hoje". Qual a base de uma frase dessas? O quê um atleta do passado, de qualquer época, não faria agora, nesse mundo de Luans e Mários Fernandes? Na verdade, são os fãs do futebol-dinheiro que não se encaixariam nas toscas assistências do passado, pois não entendem como o futebol um dia já existiu sem chuteiras coloridas ou salários exorbitantes - e seu elitismo é tão abusivo que situam-se acima do espectador de qualquer época sem ao menos entender o seu próprio tempo, e sua função dentro deste, para além do consumo incessante e do marketing desenfreado de idiossincrasias (via Internet, claro, essa ferramenta fundamental para a disseminação do vazio). Assim, eximem-se, inconsciente porém convenientemente, de qualquer responsabilidade perante a morte do jogo. Ver esse tipo de coisa me mostra que ser saudosista pode ser inútil do ponto de vista prático, mas, no corrente ano, é quase uma necessidade vital...

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Alô você, venha bater um escanteio!

http://placar.abril.com.br/bola-de-prata/brasileiro/figueirense/noticias/top-5-e-destaques-da-bola-de-prata-ate-a-22%C2%AA-rodada-do-brasileirao.html

"O escanteio cobrado com perfeição contra o Corinthians desempatou a briga pela Bola de Ouro, que agora é de Ronaldinho Gaúcho".

Atenção você, que é ou não jogador profissional!

Treine muito para bater escanteios, pois isso pode levá-lo a ser o incontestável líder da Bola de Ouro do "Brasileirão", e a merecer toda sorte de elogios por sua visão e categoria! Sua cobrança de córner pode tornar-se um daqueles lances que marcam época, que o elevam a "maior do mundo", como um dia já foram o gol de Zico contra a Iugoslávia e o de Pita contra o Palmeiras no 4x4 do Pacaembu! Essa é a sua chance, caro amigo!

Isso significa a brutal queda de divisas do futebol moderno, no qual um jogador torna-se "bestial" por dominar um fundamento básico e obrigatório que é cobrar corretamente um escanteio? Não, é claro! Significa cara-de-pau de articulistas criados pela vó em apartamento, acostumados a vibrar com VTs do Youtube e a santificar determinados jogadores em detrimento da objetividade? Em absoluto! Significa comemorar, com radicalismo sem precedentes, a vitória da burocracia, do treinamento robotizado, do pragmatismo mais banal, que é a "bola parada" decidindo um prélio neste zumbificado 2011? Pára com isso, vai! Admire a beleza dessa cobrança milimétrica e genial!

(Antes de o campeonato começar, cravávamos por aqui Ronaldinho Gaúcho como nome certo para ganhar uma Bola de Prata - e não seria surpresa se também faturasse o troféu máximo, a Bola de Ouro, jogando o que jogasse. Sob o signo da previsibilidade, marca primeira do futebol-dinheiro, que prioriza aquele que paga/recebe mais, e também da indecência descarada dos "crítérios de avaliação", taí a concretização momentânea do vaticínio.)

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Esse 2011, que ano traquinas!

- Em conversa recente com um amigo, chegamos à conclusão de que a covardia do fair play, instituído por Blatter e seus cordeirinhos há um par de décadas, nada mais é do que um dos tentáculos do polvo mercadológico que domina todas as atividades humanas em 2011: trata-se de uma forma de limpar o jogo para vendê-lo melhor. Depois, pensando no assunto, vi que a maciça presença feminina no futebol hoje nada mais é do que um desdobramento dessa política – é uma forma de expandir público e, para usar o termo que deixam molhados tanto os marketeiros quanto boa parte dos analistas esportivos de hoje, “atrair consumidores e vender uma marca”. Pois uma garota sentiria-se interessada por um jogo como a final do Brasileiro de 90, na qual Antônio Carlos, Bernardo e Márcio desandaram a distribuir rasteladas em quem quer que lhes aparecesse à frente? Dificilmente, convenhamos. Amaciar essa selvageria era imperativo para trazer ao shopping center do futebol todos os sexos, todas as idades, famílias, tios bonachões, anunciantes crentes no poder de um sorriso e quetais. Não temos aí uma questão técnica, a balela de "conter a violência nos gramados para melhorar a qualidade do espetáculo" que usaram como argumento para o convencimento da massa, e sim uma parasitária imposição externa a influir diretamente no jogo para dele extrair não jogadas e gols, e sim capital - nada mais 2011 do que isso, portanto.

- Não é à toa que, entre tantos outros motivos que vivemos destacando aqui, desde que o futebol se assumiu como um esporte televisivo acima de tudo, o nível técnico tenha caído tanto. Pois temos câmeras em todos os lados do campo, para captar qualquer movimento, dispostas a engolir os jogadores se for preciso, e diversos seres a narrar absolutamente tudo o que acontece, transformando os jogadores (e a si próprios também, no caso do “jornalismo-stand up” global) em atores sabe-se lá do quê. Pois então: como, cercado de um aparato dessa magnitude, um jogador pode concentrar-se somente no jogo? Independente do talento que possua, não existe mais possibilidade do atleta respirar e pensar o futebol – ele precisa estar constantemente ligado ao já citado aparato, porque este agora se arroga o papel de ser o único meio de lhe emprestar uma vida. Existir, jogar, ser atleta profissional, está intimamente conectado ao desespero de se fazer notar pelo mercadológico/midiático porque estes tornaram-se a única forma de contato possível dessa gente com o mundo. Lembre-se disso da próxima vez que o "craque" do seu time comemorar a marcação de tentos com a câmera de TV.

- Futebolistas modernos são criaturas tão pouco marcantes, tão domadas por aquilo que é externo ao jogo, que necessitam ser chamados por nomes compostos para que sejam identificados até mesmo a si próprios. Isso sempre existiu, claro (Leônidas da Silva, Domingos da Guia, Jair Rosa Pinto, Mauro Ramos de Oliveira, etc.), mas agora assumiu ares de pandemia – e, se antigamente servia como uma deferência, uma forma de evidenciar o respeito adquirido por um craque citar seu nome completo, hoje é uma tática necessária para desembaralhar essa camarilha de seres sem alma que despersonaliza cada vez mais o esporte. Todos os times possuem seus Renans Oliveiras, seus Andrés Santos, seus Maikons Leites, seus Thiagos Ribeiros, seus Fabrícios Carvalhos - e agora a seleção conta com gente tipo Mário Fernandes (foto) e Renato Abreu, tão carismáticos quanto uma folha de alface. Não dê muito, e esses típicos funcionários de repartição do futebol estarão em campo ostentando crachás com seus nomes inteiros, para que possamos saber quem é quem nesse mar de impessoalidade e imbecilização (da qual não são vítimas, e sim agentes diretos porque coniventes).

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

"A Roma quer Casemiro para a próxima temporada" (sim, eles querem, é sério)

EXCLUSIVO! O Antimídia obteve acesso a algumas gravações (por motivos de segurança, nossa fonte permanece em sigilo) e transcreve, agora, a tradução do telefonema feito pelo presidente da Roma, Thomas di Benedetto, ao cartola são-paulino Juvenal Juvêncio, no qual ele mostrava interesse no atleta tricolor Casemiro, corroborando o que os jornais brasileiros deram como manchete. Confiram.

- Alô, Juvenal?

- Sim. É o presidente da Roma?

- Eu mesmo.

- Tudo bom com o senhor?

- Olha, cortemos as amenidades para irmos direto ao assunto. Eu não consegui dormir noite passada. Tomei calmantes, e mesmo assim nada. Tenho ido a psicólogos, para fazer tratamento. Não aguento mais, precisamos de Casemiro no nosso time.

- Sim, vi nos jornais daqui que existia um interesse por parte de vocês romanos, que a Roma queria o Casemiro e mandaria agentes para cá...

- "Interesse" é pouco: é estritamente necessário podermos contar com esse incrível, genial e absurdo Casemiro na nossa equipe próxima temporada. Que craque, que craque!

- Olhe, Benedetto, é um atleta jovem, agora valorizado...

- Não importa! Pagamos o que for necessário! Não consigo mais ver a Roma sem Casemiro no meio-campo. O time precisa dele para ontem!

- Podemos conversar...

- Juvenal, o caso é muito sério. A Roma corre o risco de fechar suas portas se não tiver o Casemiro com a gente logo. Sem um nome brilhante como esse, não valeria a pena continuar a manter o esquadrão. A presença dele aqui será o respiro que o futebol italiano precisa! É muito craque, esse garoto!

- Vou lhe mandar um DVD...

- Não precisa! Já tenho vários DVDs aqui! Quantos lances magistrais! Que noção de posicionamento, que capacidade de marcação, que vocação para subir ao ataque! Os DVDs não tem mais que 15 minutos de imagens cada um, mas já estou plenamente convencido! Não posso arredar pé!

- Você também precisa falar com o empresário dele...

- Mas já conversei com TODOS os empresários do menino! São vários, não? Eles também querem que ele seja negociado com a gente, fizeram condições especiais, etc, o que me deixou muito feliz. Me juraram que é um sonho de Casemiro jogar no futebol europeu, e em especial na Roma! Confio neles!

- Tudo bem. Me ligue ainda essa semana para fecharmos negócio, OK?

- Só retorno a falar contigo se você JURAR que não o venderá a nenhum outro clube... Repito: é da ordem de manter a Roma em atividade que ele seja nosso camisa 5 essa temporada de 2011-2012.

- Certo, vocês tem a prioridade.

- Ótimo. QUEREMOS CASEMIRO, PRECISAMOS DE CASEMIRO, O FUTEBOL AGRADECE A EXISTÊNCIA DE FENÔMENOS COMO CASEMIRO!!!

- Tudo bem, Benedetto. Abraço.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

A quem interessar possa

Outro dia, falei aqui desse previsível fenômeno que acontece toda vez que Ronaldinho Gaúcho "joga bem": as pessoas que trabalham com futebol imediatamente colocam o sujeito em um pedestal inversamente proporcional à sua disposição em campo; tratam do rapaz como se fosse um divindade mesmo que não tenha feito nada minimamente próximo ao divino - e eis aí o problema: se acreditam que Ronaldinho produz milagres, é, antes de tudo, porque QUEREM acreditar nisso, já acreditam desta maneira automaticamente, antes mesmo de qualquer acontecimento, e não abrem mão da prerrogativa. Em suas cabeças moldadas pela publicidade, o que advém dos pés do 10 rubro-negro é sempre digno de espasmos e reverência, pois assim está incutido em seus subconscientes, ditado diretamente pelo "Grande Irmão", o príncipe eletrônico que guia suas vontades. Não há espaço para questionamentos: assim é, assim deve ser feito, e pronto. Difícil lutar contra o que "especialistas" e "analistas isentos", essas vozes justas e respeitáveis, lhes injetaram na mente como dogmas inflexíveis, não é?

Agora, Ronaldinho é tido como "um dos destaques do Brasileirão", graças a alguns jogos que "decidiu". Um cruzamento feito de forma correta, se executado por ele, é "decisão de partida". Suas 10 presenças apagadas são deletadas, passam a não existir mais, em troca do auê ensurdecedor criado a partir daquela única bem disputada. "Ele recuperou a alegria de jogar", dizem. Adentramos em um território ainda mais próximo ao da lavagem cerebral quando Galvão Bueno diz, na transmissão do jogo do Flamengo, que o craque deve ser convocado para a seleção brasileira novamente. Mobilização geral: Bueno dá a ordem, seus cordeiros obedecem, e a discussão passa a ser quando Mano dará outra chance a esse "gênio". A desonestidade dá o tom dessa história porque: 1) estamos falando aqui de um campeonato no qual um inacreditável encosto como Luan é titular de um de seus principais times (e bem cotado na tabela da Bola de Prata da Placar, confiram tal hilaridade no site da revista); e 2) temos alguém alçado a patamares de "gênio" porque bate pênaltis e dá "cruzamentos decisivos". A nós, do Antimídia, tais parâmetros são muito pobrinhos. Sorry, folks, mas resistimos a cair nessa arapuca.

(Para terminar, preciso compartilhar com alguém o que escutei na transmissão de domingo: Luciano do Valle disse que o Flamengo, que ganhava por 2 a 0, deveria tomar cuidado, porque o Figueirense é "um timaço". Sim, repito: ele disse que o Figueirense é "um timaço". Sem mais.)

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Come mortadela e arrota salmão

Dentro da covarde idéia ilusionista pregada pelo futebol moderno, um de seus capítulos mais rasteiros têm sido escrito agora: alguns "articulistas" (Neto à frente, seguido de entulhos como Celso Cardoso) estão tentando incutir em nossas mentes que Luan, do Palmeiras, na realidade não é um clamoroso perna-de-pau, e é sim atleta a ser considerado, pois demonstra utilidade graças a sua "consciência tática" (qual?). Luan é, disparado, um dos casos mais grotescos do futebol atual, um atacante que sequer possui discernimento em relação à melhor maneira de ficar em pé, uma das maiores indignidades com a camisa verde em toda a sua história. Nos tentarem transmitir a idéia de que não, não estamos vendo um anti-futebolista paquidérmico e despido de qualquer condição técnica, e sim alguém que realmente possui valor e que sua condição de titular do clube é merecida, é mostrar (mais uma vez...) que encaram o espectador como um nada desprovido de qualquer capacidade de percepção e entendimento, é querer transformá-lo em um ruminante pronto a fazer outra refeição de capim. Buscar cavucar a estranhíssima história desse sujeito, que foi contratado por 7 milhões (!) de euros pelo Palestra mesmo, repito, tendo enorme dificuldade com o básico mecanismo que faz um ser humano ficar em pé, é algo que não passa pela cabeça dos tais "analistas" - afinal, isso pode representar um passo ambicioso demais para quem se refestela apenas com o superficial e com a mistificação corporativista/publicitária.

Nos últimos jogos do Palmeiras contra o Vasco, procurei observar a diferença reinante entre os noviços e Juninho Pernambucano. Deu pena, na boa. Observava Luan, entre as trombadas e sua falta de categoria usuais, que não lhe permitem sequer completar um lance sem atropelos, e o 8 cruz-maltino, que não errava passes e lançamentos para qualquer distância do campo e que não dispendia nenhum esforço adicional para que sua categoria fosse aviltantemente superior à de todos que ali estavam, e me sobrevinha uma incontrolável vontade de chorar. Quando estabeleceu-se a mim que dois dos paradigmas do futebol ali estavam, Juninho, meio-campista de classe pertencente a uma geração anterior (e nem tão distante em relação aos anos, mas já tremendamente ultrapassada em se tratando de propósitos), e Luan, desgraça que sequer poderia ter sido aprovada em uma peneira mas que ali estava vestido a camisa de um grande brasileiro (e como titular!) graças a algum nebuloso trabalho de bastidores, surge o lance capital: o vascaíno aplica um tranqüilo chapéu justo no "ponta" palmeirense. Então a ficha caiu, já que, se não havia a menor possibilidade de se concretizar um "choque entre gerações" ali, era porque o real embate naquele pedaço do campo, e que resultou no calmo lençol, era o futebol versus o anti-futebol - e o primeiro sempre sairia vencedor, não importa a quantidade de euros, não importa a cor da chuteira. Juninho está prestes a aposentar-se sem gerar sucessores, e tipos como Luan são a maioria populacional do decaído "Brasileirão". O campeonato não poderia ter um velório mais condizente.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Quando o futebol dominava a Terra...

O futebol moderno é como um furacão. Enfurecido, destruidor. Ele muda tudo, pois ele é o supremo na equação da vida e da morte. Só que o futebol moderno é um fenômeno criado pelo homem. Antes ele era um jogo. E havia gente (muita gente) que torcida pelos times e ali encontra resposta paras suas dores diárias. Não era ópio, e sim gozo. E logo, houve a imprensa que passou a noticiar e relatar os fatos envolvendo o esporte... No final, tornou-se uma loucura maravilhosa, a junção de todas as artes em uma só! Mas ai veio o furacão e tudo começou a mudar. Lógico que, de início, ele surgiu como um sopro qualquer, pois nele há articulação e veneno Lavagem cerebral se faz com flores e não tanques. E, pouco a pouco, com muito planejamento e execução, estudos e metas com públicos alvo definidos, esse monstro virou essa catástrofe que engoliu a essência do jogo, em detrimento de alguns trocados no bolso. E ele segue destruindo, pois há o homem, e não a natureza, por trás de seus instintos. Manipulando os fatos, disfarçando a verdade, quando ela agride sua pecaminosa existência e criando aberrações em forma de Hércules. Seus aplausos são pré fabricados e o cheiro mais forte não é mais do suor. E a mentira bem contada serve como força motriz desse monstro. Necessita, logo, de algum “golaço”, ou algum “jogão”, para que a venda milionária de sua arte seja justificada. Como esse monstro nasceu para esmagar o que antes havia, pois precisava de seu espaço para triunfar, vivem a difamar coisas como o “carrinho”, a discussão com o árbitro, pois nada, absolutamente nada pode ficar no seu caminho e de suas “glórias” executadas e planejadas. E esse monstro não é feito de energia natural, e sim de dinheiro. Então, ele não pede licença. Vejam agora como as camisas dos “jogadores” não precisam mais ficar para dentro dos calções dos mesmos. E não porque alguma tendência natural guiasse o jogo para essa mudança. Sim, os fardamentos de 1930 não eram mais os mesmos em 1950, e assim foi escrita a história da evolução. Mas essa nova “mudança” vem para que a parte de baixo da camiseta tenha mais um espaço para mais, claro, dinheiro. Coincide com a falta de cobrança que este mosntro tem com o legado, que agora ficou no passado. Hoje, o erro não evoca mais cobrança. O jornalista erra, e ri dizendo "oi" pro seu microfone ligado ao diretor de estúdio; o jogador erra um pênalti e não pode ser vaiado, sem que a TV diga que "a torcida está pegando no pé", e assim vamos. Havia muita cobrança no futebol, porque só assim controlava-se aquela loucura maravilhosa. Agora, com planejamento e execução, tudo pode, tudo se cria, tudo se vende. Havia espaço no futebol para tudo, inclusive ganhar dinheiro com ele. Mas nunca em nome da morte de seu legado! Ele segue destruindo e dominando, como um vírus letal faria num corpo qualquer. Há muito terreno até a Copa Havelange, que logo vem. Preparem seus abrigos. Nada mais por hoje, amigos.

PS – Viva Valdir, O Bigode! Viva o 3 a 5 na Vila Belmiro! Aquilo, sim, arrepia minha alma!

sábado, 23 de julho de 2011

E as feridas não cicatrizam

http://www.lancenet.com.br/futebol-internacional/Relembre-luta-Kerlon-volta_0_521947892.html

Essa matéria, uma pérola desse morto 2011, deixa a nu o porquê de a "seleção brasileira" ter fracassado tão clamorosamente há alguns domingos. A trajetórias desse Kerlon, o "Foquinha", é emblemática; simboliza como poucas o que se tornou o futebol brasileiro, mundial até. Mas primeiro vamos voltar no tempo. Para quem tinha a cabeça no lugar, era tranqüilo enxergar em Kerlon apenas um desses malabaristas inócuos - tanto que a ele foi necessário inventar o tão improvável quanto inútil "drible da foca" para conseguir algum destaque. Mas isso é detalhe: a jogada, em algum DVD, junto ao oferecimento por parte do empresário de algumas vantagens para a contratação do "craque" (salários mais baixos em relação ao praticado na Europa, etc), poderia enganar os gringos - e lá se foi Kerlon para a Itália. Estar no Chievo, ser reserva no Chievo, é coisa bem do tamanho do atleta, sem surpresa, portanto; voltar para o Brasil e sequer ser titular de um time de segunda divisão como o Paraná também - mas eis aí que temos a aberração da história: como que a Inter de Milão teve interesse em Kerlon, comprou e ainda mantém seu passe, e segue pagando salários ao cara até hoje? Estamos falando de um gigante do futebol, de um clube que contou, durante toda a sua história, com grandíssimos e reais craques - como essa enorme instituição se rebaixou a tanto, a ponto de contratar a esmo qualquer coisa que lhe é oferecida, e depois dispender uma vultosa 'ajuda de custo' para manter afastado de seu elenco um jogador que, convenhamos, nunca sequer lhes passou pela cabeça que fosse servir de algo?

Mas então: o que Kerlon e sua não-passagem pela Inter tem a ver com a malfadada seleção do Mano? Ora essa, veja os grandes fenômenos desse time amarelo, os mitificados donos da bola de agora: com uma ou outra exceção, são craquezinhos de plástico, frágeis e com recursos voltados apenas ao espalhafato publicitário ("drible da foca"), mas lá estão, em grandes da Europa, assim como o cirsense mineirinho um dia esteve. Kerlon não é exceção: é regra - a única diferença é que não deu certo (segundo o tio, em entrevista no fim do texto, não deu certo como atleta profissional, mas financeiramente está com a vida ganha - o que mais importa, afinal, nos asfixiantes tempos correntes). Deliciem-se com essa exposição da gangrena do futebol moderno em carne viva.

(Em tempo: Mano Menezes não sossegará enquanto não negociarem esse Renato Augusto com algum time "grande". É outro desses incontáveis "gênios" brasileiros, o meia do Bayer Leverkusen.)

terça-feira, 5 de julho de 2011

Bem-vindo ao reino virtual


http://obeco.planetaclix.pt/rkurz68.htm

Como já destacamos por aqui, uma das coisas que mais incomodam no futebol moderno é a idolatria excessiva a nomes individuais, o que descaracteriza o jogo e torna-o cada vez mais egoísta e centrado em frivolidades - e eis que surge esse interessante texto tratando do assunto, datado de 1999 (ou seja: há doze anos, apogeu da era Ronaldo-Nike, a situação já parecia ridícula; hoje, não só os procedimentos da época consolidaram-se como são cada vez mais aprofundados). O sociólogo alemão Robert Kurz sustenta que, a partir do momento que o futebol passou a significar, acima da própria idéia da prática profissional do esporte, ascensão social, concomitante com a transformação dos clubes em empresas multinacionais (um fator alimenta o outro), criou-se a necessidade de uma "identificação irracional" com os "ídolos" ali fabricados - pois somente assim gerariam consumo desenfreado, a nova ordem do futebol a partir da década de 90, e poderiam suprir os gastos cada vez maiores na manutenção deste irreal status quo (sim, é o ideário capitalista em sua forma mais pura). E a tão batida palavra "globalização" citada no título ajuda a explicar o surgimento de jogadores japoneses, coreanos, africanos de países com pouca tradição, centro-americanos, e também uma inflação insana de sul-americanos (a maioria com técnica abaixo da crítica) nos clubes com maior poder aquisitivo: barateiam-se os custos para os europeus, criam-se novos mercados para venda de produtos licensiados a reboque da participação desses atletas, obtem-se projeção e lucro astronômico, vende-se o "craque" pelo dobro/triplo do que foi pago, e assim vamos. Enquanto aumenta-se cada vez mais a demanda por quantidade, a qualidade diminui vertiginosamente - uma disparidade que, a eles, homens de negócios, interessa, e muito.

Estamos então no futebol como "reino da virtualidade", lugar no qual os jogadores "não têm mais nada a ver consigo mesmos". A fantasia agora é criada fora de campo. Tema esse familiar a quem frequenta esse blog.