sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Meu mundo sem futebol

Acordo. Muitas vezes, após um sono perturbado. Não posso pensar na bola. A realidade nua e crua bate à porta: a imperiosa necessidade de trabalhar, sobreviver neste Inferno. Em São Paulo, minha terra natal (que tanto amo e odeio), purgatório do bem e do mal, se encontra a infâme Babilônia – lar da exclusão e injustiça social, morada dos maiores preconceitos e afetos deste planeta. Após tomar a primeira de muitas doses de remédios que vou ingerir até o fim do dia, devo me conectar às linhas cibernéticas – até porque não encontro, de imediato, nada melhor para se fazer. Já passei do ponto de segurança de não me tornar um monstro ao combatê-los. Nem um inseto consegui me tornar – a frase de Marilene Felinto cada vez mais verdadeira e presente. Sinto-me fadigado, como se arrastasse em minhas costas uma rede lotada com toneladas de peso.
Nunca precisei do universo da música, cinema, escultura, pintura... tinha o futebol comigo, e nele havia tudo isso e muito mais. Sempre segui as tentações da vida com entusiasmo e coragem. Mas já é passado o tempo de me afastar deste vício de querer a pelota. É perigoso demais pra mim; catalisa o processo da fadiga. Devo escrever, então. Mas como o faço sempre com o coração em primeiro lugar, esta também se torna uma tarefa estafante. Exige-me lágrimas pesadas de
sangue, carreiras poéticas e figa apertada na canhota. Penso, penso e penso. Devo comer para me manter (minimamente) saudável. Tudo é caro, droga. Comer aqui custa muito dinheiro (trabalhemos, pois). Após invadir a internet, ela me rompe. O show do inútil e das notícias controladas diante de meus olhos. A mídia que serve de termômetro para esta sociedade domesticada até o talo. Para acalmá-la do caos, até mesmo dicas de como pintar as unhas vira notícia de destaque nos portais mais acessados e “respeitáveis”. O mundo se deixando levar
pelo oco. Volto ao dia-a-dia. Pouco me agrada no mundo artístico vigente, domado pelo tesão do auto-gozo e superficiais artifícios. Me arrependo, por um breve e dolorido instante, de não ter vivido qualquer outra manifestação artística com a mesma intensidade com que fiz com o futebol – ou ele teria feito isso comigo, e só ele poderia tê-lo feito? Acho que encontraria algo, sim, de meu agrado. Escondidas por aí, verdadeiras representações de arte ainda existem, sei disso. Mas não posso mais desfrutá-las, sem poder fazer com o número um em minha alma – é como um trêm perfeitamente funcionando e que de repente, perde a locomotiva. Chega! Agora, preciso pensar no trabalho. Pego às 13 horas e saio as 22. São duras, porém revigorantes horas. Fico longe das lágrimas na pressão da labuta, e só isso já bastaria para eu valorizar (e muito) aquele local. Mas como diria o pai de Kevin Arnold, “trabalho é trabalho”. Meu corpo pesa, dói em várias partes, por fora e por dentro. Moído pela fadiga física – que nunca vai ser tão intensa quanto a mental – penso muito no futebol. O problema sempre aparece se alguém quer falar de futebol comigo. Adoraria manter o mesmo padrão de alegria que eles, mas é impossível. A sombra
paira em mim desde 1996. Ela não me deixa em paz. Gera muito ataque nervoso e sinto, sempre, o dever de promover o anti futebol midiático que, inevitavelmente será (indireta ou diretamente) o assunto em questão. Sabem como é: cachorro mordido por cobra tem medo de lingüiça. Fim de expediente é hora de enfrentar a solidão do apartamento novamente. Tenho que comer mais um pouco, mas o estômago está doendo, apesar de ranger de fome. Sinto falta dos amigos,
do amor, da fiesta del fútbol! Mas não consigo mais enfrentar o caos do metrô, do transporte público paulistano. Engraçado que quanto mais propaganda otimista faz o Governo, pior, de fato, está o quadro que se tenta desenhar. Assim como no futebol moderno. Quanto mais os “narradores” gritam algo como “...é pura emoção, amigo!”, mas ela se faz ausente. Então fico comigo mesmo e o vazio do futebol e da vida. Tomo os últimos remédios: um pra dormir, outro pra não chorar, mais um pra cagar, outro pra respirar, pro psico, pro alento. E o melhor, e mais esperado, deles vem no último ato do dia, quando coloco no moderníssimo aparelho de DVD um jogo antigo qualquer – não me canso de nenhum deles! Em transe, começo a sonhar acordado. Ou teria vivido dormindo? Nem me importa. Mais um dia se foi, vencido, superado e a vida segue. Esse é o mundo de Deus, hombre! Passo longe de aceitar que minhas recentes lamúrias são sobre a vida, em primeira estância. Na derrocada é que deve-se viver seu ápice, diriam
Nietzsches, Hemingways e Seixas. É apenas a lamúria do futebol. Desse, eu já abri mão faz tempo. Boa noite.

Pelo amor dos meus filhinhos!




O futebol é meu ópio. Dependo demais dele, muito mesmo. Hoje, sofro porque não quero mais lutar por ele – não se pode ressuscitar algo jazido. Enquanto havia esperança, havia energia e futuro. Ultimamente, escrevo e falo com desânimo. Me enche de tristeza ver as pessoas ainda perdendo tempo com o futebol, vivendo-o como se ainda fosse aquele mágico jogo de alegria.
Hoje é guerra, na carne mesmo. Estão queimando nossas ações, em nome do lucro. Sinceramente, eles venceram, pilharam e nos resta esperar para ver ate onde este câncer vai
crescer sem que tudo exploda pelos ares. A televisão deixou o futebol burro,
muito burro demais.


Talvez eu esteja perdendo meu tempo ao desistir, me rebaixando mais ainda na categoria dos vermes terráqueos. Mas sei que vivi 15 anos gritando contra isso tudo, enchendo o saco de quem convive comigo, alertando “meio mundo” de que a arte esta sendo derrotada pela mediocridade rentável, a arma do capitalismo contra a vida. E todo esse ódio me levou a solidão e
loucura clinica. Não me falta força ou paciência – sobra-me desdém a este patético
circo que virou o futebol. E pra que lutar contra um circo, não? Deixem os
pulhas pularem por ai como pipocas, enquanto a semente que gera o sabugo jaz apodrecida
nas galerias das mesas de edições mídias afora. No inicio das mudanças, eu
realmente acreditava que as pessoas iriam se rebelar contra as terríveis
mentiras que construíram esse novo futebol modernista. Que por mais poderoso
que fosse, haveria um limite para a investida do dinheiro nos campos de jogo. Mas
não há. E as pessoas seguem como sempre: escolhendo o caminho da aceitação das
mudanças, sem ao menos filtrar o que se passa por seus olhos e mentes. A vida
segue, seja como for, não? E como uma catastrófica bola de neve, o que era emoção
foi sendo substituído por controle autoritário (das regras de jogo, ações
policiais, etc), festas com limites estabelecidos (parece piada imaginar um
descontrole controlado) e, principalmente, justificativas midiáticas com
efeitos imediatos no senso comum. Qualquer problema que surge e que parece ameaçar
a nova ordem é rapidamente abafado com alguma matéria televisiva idiota,
divertida infantilmente (Globo Esporte!), pouco informativa e que transforma
toda e qualquer ação de qualquer ator envolvido com o jogo (jogador, narrador,
torcedor, dirigente, autoridades) em padrão. Seja isolando aquilo que pode lhes
incomoda ou exaltando (com intensidade que envergonharia ate os faraós) aquilo
que lhes traz dinheiro (tipo esse Neymar aí). Para isso estão aí os Thiagos Leifferts.
E não adianta trocar de canal. Você não vai mais encontrar uma Bandeirantes,
que sempre representara o sentimento simples e direto de que o futebol pertencia
ao povo. Infelizmente, não o é mais. Todos envolvidos, hoje, têm o dever de
seguir (com cabresto e sorriso confiante) este mundinho que a Rede Globo trouxe
para cá, agradando mentores das Nikes, FIFAs e afins. Ai reside a certeza de
que estamos sozinhos nessa luta. Sobrou você, sua consciência e sua dor. A
ditadura não morreu; lamentavelmente, o futebol atual deixa claro isso. E a atuação
do torcedor se encontra absolutamente controlada, regulada – nem uma bandeira se
pode levar mais aos campos do jogo; quiçá manifestar-se abertamente contra
aqueles que são os proprietários do futebol. Tem mais essa: o futebol hoje tem
dono, amigo! Um, dois ou meia dúzia. Quem deveria mandar no futebol eram as
camisetas dos clubes e, conseqüentemente, os torcedores que viviam por elas.
Todos os clubes se transformaram em reféns desta hecatombe que os obrigou a
encaixar mais seis zeros nos “salários” de seus novos “craques”, seus direitos
de imagens e afins. E neste circulo vicioso, a trajetória esportiva, a linhagem
de diferentes estilos de jogo foram todos misturados nesse caos monetário e,
claro, vaidoso por parte dos milionários mimadinhos que deveriam estar ali só
pra “bater aquela bolinha”, certo? E não é mole ser milionário, filhos. É muita
coisa para manter, cuidar, bens e imagens de celebridades; o futebol tem de
ficar em segundo plano, inevitavelmente. Ate onde vamos parar? Como já escrito,
os canais televisivos não tem mais opção a não ser se enquadrar no novo molde,
pagar salários (também, claro) milionários aos comentaristas que falam cada vez
menos de futebol e esse especializam em parecerem bobos da corte da Idade Media
– entrar na dança, amigo! Promover o super show, abundante desta nova emoção cibernética,
em produção de serie, mega propagandas e vendas à valer. Jogadores, novos
artigos nas lojas, celulares touch-screen, apito de Nextel, tudo se conectando
e se perdendo no ar, automóveis luxuosos, festas excludentes e tatuagens cheias
de simbolismo oco da geração que clama pela revolução, mas não consegue dizer
mais “bom dia”, “por favor”, “obrigado”. O caos da modernidade, onde vive a
bomba atômica. E pensam que o futebol pode sobreviver intacto a tudo isso?
Nunca! Novamente, deixo aqui este recado porque o que entope, vaza. E, dentro
de mim, estou buscando auto-controle e uma saída.


Os deuses da bola devem ter iluminado um ser que esta
vendendo no centro de SP uma porrada de jogos antigos. Já comprei meia dúzia deles,
com fome de bola. Sinto, ao vê-los, um misto daquele deleite que só o futebol
pode trazer e desespero pela certeza de que não há mais aquele jogo. Alias, por
mim, ele poderia ate mudar de nome, sim senhor. Que falta eu sinto da incerteza
no jogo, que não poderia acabar. Havia a duvida no prognóstico do jogo. Narradores
bradavam a inconstância e não tinham medo de errar e de se contradizer, pois
era o jogo que fazia aquela reviravolta eterna. No olho do furacão, a sobrevivência
fala mais alto. Hoje, se muito, como acontece em jogos de vôlei (onde uma
equipe muito superior dificilmente vai perder pra outra inferior), esperam
apenas pelo escore final. Ta difícil imaginar um Ituano vencer um Santos,
realmente. Esta tudo muito controlável, dios mio! È bussiness, catso! Tem de
estar assim! Não podem mais “errar”, pois há consumidores (e não
mais só torcedores) pagando seus salários e exigindo a diversão que os
ingressos (ou pay-per-views) caríssimos exigem. A ridícula excelência à lá Wall
Street! Mas não somos bestas. Sabemos que num contexto incerto fica quase impossível
garantir o sucesso que bilionários investimentos clamam. E nós aqui, perdidos
nessa roleta do absurdo, onde a bola rola acompanhada de mil cores nas “chuteiras”
das “estrelas”. Acreditando que o sonho não acabou – tolos e maravilhosos irmãos
e irmãs. Vamos caminhando nessa estrada e nos encontrando quando a bola estufa
a rede e o trêm parece se encaixar nos trilhos novamente. Não vamos desistir de
viver. Mas precisamos acordar desse pesadelo e limpar a sujeira que ele deixa pra
trás quando a merda bate no ventilador. A televisão mandava em si mesma, tinha
responsabilidade no seu trabalho e colocava imagens do futebol para torcedores
sem ingresso assistirem aos prélios. Hoje ela manda no jogo, mermão! Ela tem
responsabilidade nas fintas, nos carrinhos (ou na Inquisição dos mesmos), nas comemorações...
em tudo! E tudo pelo dinheiro, não pelo espírito esportivo. Acham que podem
vencer isso tudo? Boa sorte, então!



*No Inferno, a gente abraça o Capeta, pois eis minha cota diária de egocentrismo também: um vídeo feito
por dois amigos da várzea, sobre futebol e loucuras. Rafael, becão de fazenda revolucionário
e Rodrigo Erib, ponta craque de bola, que só se atira ao solo quando não há mais
outra opção. http://cevadanavuvuzela.blogspot.com/2011/03/episodio-xii-fernando-toro-e-baden.html

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Pizzaz x Porras!

O futebol já acabou. Morto, como uma estrela cuja luz produz uma sensação de vida ao espectador. É no post-mortem onde ele se encontra. Agora é a hora de aceitar o destino, e virar as costas para este jogo que tanto nos ensinou. Ou, então, é hora de engolir as mentiras que sustentam o que sobrou da carcaça: vestir as mil camisas diferentes que estão a venda na super loja oficial de seu “clube”, como se a história que ilumina o passado ainda se fizesse presente, de corpo e alma, quando não o está; acreditar que os escudos nas camisas dos clubes voltaram a medir tamanho com os anúncios porque se respeita (novamente) o passado glorioso, onde jaz o significado das coisas – e não se dar conta de que não há mais diferença entre escudos e patrocínios; comparar os “craques” atuais com os do (opa, olha a mágica palavra novamente!) passado, pois se os de outrora não valiam nada perto dos de hoje, estes tem que ser – a qualquer custo moral, ético, comparativo – melhores ou, no mínimo, semelhantes aos de antes, pois assim manda o mercado que destruiu a bola; deve, também,
acreditar piamente que o campeonato brasileiro é o melhor do mundo, como se ainda houvesse alguma diferença entre ele e os da Europa ou qualquer outro rincão deste planeta. Passo este recado hoje, porque estas questões abundam minha existência, cuja necessidade de sentir e viver o futebol abunda em igual medida com este ódio que jorra em nossas ações reacionárias ao caos produzido pela ganância do capitalismo e moldado por este câncer da Terra, chamada mídia
privada.

Tempos atrás, concedi uma entrevista pro Terra, quando uma
enxurrada de jornalistas procurava a Javari para “entender” o que era aquele “ódio
eterno ao futebol moderno” que estampava a capa de um filme sobre o Juventus.
Nela, defendi Kléber como um jogador que saia da mesmice que esta geração
plastificada cria e recria com facilidade. E ele parecia mesmo um cara que ia
demonstrar em campo que o futebol é muito mais do que dinheiro – alias, é muito
mais do que tudo nessa vida quando esta sendo praticado; é o gozo que tanto
procuramos, não? Lembro bem daquele time do Palmeiras, que encerrou o jejum
palestrino de títulos desde 76 (porque entre 93 e 99 vimos uma multinacional campeã, além de um time). Gostava demais dos dois meio campistas, ambos com requintes
clássicos, e até mesmo Denílson – um dos primeiros fanfarrões, que colocaram a
bola atrás do dinheiro e que, jogando, pareciam sempre muito mais preocupados
com auto-afirmação do que com honra e gloria - demonstrou ali grande dedicação.
Passados só dois aninhos, o mesmo player está agora envolvido em mais uma patética
novelinha criada e alimentada pela mídia – logo esta acaba, e cria-se outra pro
seu lugar, exatamente como na grade de novelas comerciais. E seu futebol de
“guerreiro” também se foi, não só sua imagem de jogador envolvido com o jogo e
não com o dinheiro. Mas não sinto vergonha de minhas palavras após essa
mudança. Na mesma entrevista cravei, “o futebol moderno acaba com a resistência
das pessoas”, e assim será enquanto ele existir. Hoje, eu já nem sinto mais
falta do futebol em primeiro lugar. Sinto falta de mim mesmo, porque por mais
que eu seja forte e tente, dia após dia, não me desesperar, sei que não posso
viver mais normalmente sem o futebol. Nos últimos meses, sei que a falência (e
não me refiro aqui `a ”crise” de Boca e River, por favor!) e (mais) a morte
daquele espírito nu e cru do futebol argentino tem sido um dos principais
fatores para que essa sensação mórbida aterrorize meus nervos, minuto após
minuto. E sinto nojo de Messi, do dinheiro sujo, inútil, vago e oco.

O maior atentado terrorista que a Terra produziu foi a morte
desse jogo estupendo. Mesmo calejado por mais de 15 anos de luta contra esse
crime, me surpreendo às vezes tentando entender como conseguiram controlar algo
que era movido por emoção. Sabemos como e porquê, mas é difícil de crer como
robôs podem se tornar tão poderosos. Meu recado hoje não deve fazer muito
sentido. Assim como não faz nenhum sentido comemorar uma suposta vitória
do futebol brasileiro (pior ainda, deste “novo” Brasil, democrático” e “desenvolvido”)
sobre o de fora porque Neymar vai ficar no Santos. Como pouco faz sentido nesse
universo que antes (exatamente) nos dava norte e sul neste inferno de vida. Então,
peço desculpas a todos os amigos que, porventura, procuram este sitio pela
baixa assiduidade e vibração do mesmo. Resta-me pedir que abandonem este corpo
morto, não dêem muita bola mais ao futebol. Não significa deixar de ir ao estádio,
se emocionar e curtir os títulos destes tempos. Sigo alentando o Juve, nada
disso deve mudar. Mas há uma postura de ódio e repudio que deve ser levado aos
campos, aos bares e lares. Percebi que meu pai – corintiano fanático – anda meio
perturbado estes dias. Tirando o fato de estar preocupado com meu estado psicológico,
certeza também porque seu time anda envolvido com disputa de taça. Conheço isso
nele, e disso eu entendo! Meu colega de várzea, lusitano, também afirmou – para
meu desespero – que curtiu a campanha deste ano de sua Portuguesa campeã. Nada
disso deve mudar. O que não podemos mais é aplaudir (quando a emoção nos entupir),
sem olhar torto. Um olho no gato... Porque se continuarmos a aplaudir e comprar
as camisas, os “salários”, as mentiras, as mudanças de condutas, os
caixas-dois, a falência técnica do jogo... enfim, ai estaremos muito errados. Desde
criança ouvia a frase, “o futebol é o ópio do povo”. E desde então rechaçava
esta máxima com toda a energia que o futebol transferia a mim. Infelizmente, tenho
que acreditar hoje que, depois dessa enxurrada psicologicamente bem elaborada de
cores, imagens, shows, ele é exatamente isso. Hoje não há mais gozo, não se
escutam mais os gritos de “porra!”, que vinham carregados (da torcida, dos
players, dos árbitros e narradores)daquela energia (natural, por favor!)que
estrangulava o previsível e respondia ao que surpreendia e nos emocionava.
Hoje, está tudo cada vez mais relacionado ao mundo das celebridades, do status,
da beleza, da fama e da riqueza material. É a Broadway em carne e osso (e –
merda! – alma!). É o sentimento “pizzaz”, gíria utilizada pelos latinos que
vivem nos Estados Unidos, que reflete o desejo de ter esta abundância material –
que coincide perfeitamente com o universo da bola destes idos correntes. Aliás,
deve estar no meu sangue essa escravidão ao tempo. Peço também desculpas pela insistência
em ir e voltar o tempo (ops!) todo. Gooda bye, my friend! O futebol acabou. Resta-nos
viver sem ele.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Rápidos pitacos

Um bom exemplo (entre tantos) de como a mídia esportiva brasileira é subserviente e prostrada, é deixar passar a oportunidade de mergulhar nos meandros escusos dessas negociações do futebol brasileiro com a máfia russa. Uma história como a de André, atacante ex-Santos que pra lá foi e retornou alguns meses depois como se nada tivesse acontecido (ou como se sua transferência tivesse custado alguns centavos, e não muitos milhões), fedem de longe. A quem isso serviu? A quem isso calou? Qual a responsabilidade do "grupo de investidores", os que receberam esse dinheiro de procedência (não tão) duvidosa e que agora o gasta sem atropelos? Como esses nada modestos montantes continuam a levar jogadores daqui mesmo que exista a suspeição e indícios claros de lavagem de grana criminosa? O dia em que o jornalismo deixar de ser a área de trabalho de analfabetos funcionais e candidatos a figurante na Praça É Nossa, quem sabe...

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Um dos muitos mimados e metidos a prima-dona do futebol nativo, jogador supervalorizado devido à crônica carência de reais talentos, chamado até mesmo de "ídolo", o atacante Kleber (foto), do Palmeiras, agora adota o procedimento Rogério Ceni no trato com a imprensa: situa-se, arrogantemente, como que em um mundo acima do resto de sua equipe. Despista, com palavras ambíguas tipo "precisamos" ou "não podemos", qualquer imposição de responsabilidade perante o mau momento da equipe, assim como atribui, de forma enviesada, a "culpa" a atletas de todos os setores do time - e ainda se dá ao direito de ditar soluções ao que não lhe compete, enquanto acumula trocentos jogos sem desempenhar sua função, ou seja, marcar gols. O apelido "Gladiador" sugeriria que o atacante encarasse sem medo os percalços do caminho - mas ele prefere, pelo visto, fazer o contrário. A não ser que se confunda prepotência e crocodilagem com "raça".

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Mário Fernandes não foi à seleção - e esta é uma das histórias mais mal explicadas dos últimos tempos. Porém, o que chega a público é que o jogador já possui o agora tradicional "grupo de investidores" pro trás de si - então, se sua estranha ausência no milionário bando da CBF ainda carece de esclarecimento, até por conta da "valorização do passe" que sua presença por lá traria, o motivo de sua convocação agora está bem menos nebuloso. As lombrigas e os sanguessugas agradecem.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Quem não sangrou não sangra mais

Resultados como o 8 a 0 que o Barcelona enfiou no tal Osasuna fim de semana passado só impressionam aos mais facilmente impressionáveis. Mas pensava esses dias que a greve no Campeonato Espanhol veio na hora certa: o volume de dinheiro investido por Barcelona e Real Madrid não pode gerar concorrentes. Eles precisam reinar sozinhos, para que tal montante de cascalho injetado massivamente em suas "estrelas" não seja em vão. A concorrência, se existir, se já não surge enfraquecida pelo assustador peso dos gigantes, precisa ser esmagada e humilhada, para manter-se em seu devido lugar. O futebol-dinheiro, assim como no mundo dos arranha-céus e das manobras de escritório, também gera oligopólios - e o retorno do Campeonato Espanhol mesmo em estado agonizante representa como nenhuma outro o quanto as idéias feudais ainda encontram respaldo no ser humano "moderno".

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Desde que os cabelos passaram a ser peça fundamental de um jogador de futebol, e que cabelereiros são contratados por clubes e seleções para dar um trato no visual dos "craques", o fundamento chamado 'cabeçada' sumiu dos estádios. Onde estão os grandes cabeceadores? Desapareceram com um golpe de laquê atrás de algum moicaninho por aí. E fica fácil entender: como desmanchar um topete, que tanto trabalho deu para ser montado, que tanto gel gastou para ser erguido, que tantos "seguidores" encontra arquibancadas mundo afora, com uma cabeçada, essa coisa rude e primitiva? Antes não saber cabecear do que tornar-se um pária que renega os modismos mais quentes dos gramados, não?

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Fico a imaginar o que uma pessoa que leva esse futebol de 2011 a sério, acha "interessante taticamente" um espetáculo de horrores sem precedentes como Avaí x Palmeiras, que aceita um jogador tipo esse Tinga, do Palestra, como "um bom meio-campista", faria se vivesse em outra época. São esses os que costumam dizer que "os jogadores de antigamente não dariam certo hoje". Qual a base de uma frase dessas? O quê um atleta do passado, de qualquer época, não faria agora, nesse mundo de Luans e Mários Fernandes? Na verdade, são os fãs do futebol-dinheiro que não se encaixariam nas toscas assistências do passado, pois não entendem como o futebol um dia já existiu sem chuteiras coloridas ou salários exorbitantes - e seu elitismo é tão abusivo que situam-se acima do espectador de qualquer época sem ao menos entender o seu próprio tempo, e sua função dentro deste, para além do consumo incessante e do marketing desenfreado de idiossincrasias (via Internet, claro, essa ferramenta fundamental para a disseminação do vazio). Assim, eximem-se, inconsciente porém convenientemente, de qualquer responsabilidade perante a morte do jogo. Ver esse tipo de coisa me mostra que ser saudosista pode ser inútil do ponto de vista prático, mas, no corrente ano, é quase uma necessidade vital...

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Alô você, venha bater um escanteio!

http://placar.abril.com.br/bola-de-prata/brasileiro/figueirense/noticias/top-5-e-destaques-da-bola-de-prata-ate-a-22%C2%AA-rodada-do-brasileirao.html

"O escanteio cobrado com perfeição contra o Corinthians desempatou a briga pela Bola de Ouro, que agora é de Ronaldinho Gaúcho".

Atenção você, que é ou não jogador profissional!

Treine muito para bater escanteios, pois isso pode levá-lo a ser o incontestável líder da Bola de Ouro do "Brasileirão", e a merecer toda sorte de elogios por sua visão e categoria! Sua cobrança de córner pode tornar-se um daqueles lances que marcam época, que o elevam a "maior do mundo", como um dia já foram o gol de Zico contra a Iugoslávia e o de Pita contra o Palmeiras no 4x4 do Pacaembu! Essa é a sua chance, caro amigo!

Isso significa a brutal queda de divisas do futebol moderno, no qual um jogador torna-se "bestial" por dominar um fundamento básico e obrigatório que é cobrar corretamente um escanteio? Não, é claro! Significa cara-de-pau de articulistas criados pela vó em apartamento, acostumados a vibrar com VTs do Youtube e a santificar determinados jogadores em detrimento da objetividade? Em absoluto! Significa comemorar, com radicalismo sem precedentes, a vitória da burocracia, do treinamento robotizado, do pragmatismo mais banal, que é a "bola parada" decidindo um prélio neste zumbificado 2011? Pára com isso, vai! Admire a beleza dessa cobrança milimétrica e genial!

(Antes de o campeonato começar, cravávamos por aqui Ronaldinho Gaúcho como nome certo para ganhar uma Bola de Prata - e não seria surpresa se também faturasse o troféu máximo, a Bola de Ouro, jogando o que jogasse. Sob o signo da previsibilidade, marca primeira do futebol-dinheiro, que prioriza aquele que paga/recebe mais, e também da indecência descarada dos "crítérios de avaliação", taí a concretização momentânea do vaticínio.)

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Esse 2011, que ano traquinas!

- Em conversa recente com um amigo, chegamos à conclusão de que a covardia do fair play, instituído por Blatter e seus cordeirinhos há um par de décadas, nada mais é do que um dos tentáculos do polvo mercadológico que domina todas as atividades humanas em 2011: trata-se de uma forma de limpar o jogo para vendê-lo melhor. Depois, pensando no assunto, vi que a maciça presença feminina no futebol hoje nada mais é do que um desdobramento dessa política – é uma forma de expandir público e, para usar o termo que deixam molhados tanto os marketeiros quanto boa parte dos analistas esportivos de hoje, “atrair consumidores e vender uma marca”. Pois uma garota sentiria-se interessada por um jogo como a final do Brasileiro de 90, na qual Antônio Carlos, Bernardo e Márcio desandaram a distribuir rasteladas em quem quer que lhes aparecesse à frente? Dificilmente, convenhamos. Amaciar essa selvageria era imperativo para trazer ao shopping center do futebol todos os sexos, todas as idades, famílias, tios bonachões, anunciantes crentes no poder de um sorriso e quetais. Não temos aí uma questão técnica, a balela de "conter a violência nos gramados para melhorar a qualidade do espetáculo" que usaram como argumento para o convencimento da massa, e sim uma parasitária imposição externa a influir diretamente no jogo para dele extrair não jogadas e gols, e sim capital - nada mais 2011 do que isso, portanto.

- Não é à toa que, entre tantos outros motivos que vivemos destacando aqui, desde que o futebol se assumiu como um esporte televisivo acima de tudo, o nível técnico tenha caído tanto. Pois temos câmeras em todos os lados do campo, para captar qualquer movimento, dispostas a engolir os jogadores se for preciso, e diversos seres a narrar absolutamente tudo o que acontece, transformando os jogadores (e a si próprios também, no caso do “jornalismo-stand up” global) em atores sabe-se lá do quê. Pois então: como, cercado de um aparato dessa magnitude, um jogador pode concentrar-se somente no jogo? Independente do talento que possua, não existe mais possibilidade do atleta respirar e pensar o futebol – ele precisa estar constantemente ligado ao já citado aparato, porque este agora se arroga o papel de ser o único meio de lhe emprestar uma vida. Existir, jogar, ser atleta profissional, está intimamente conectado ao desespero de se fazer notar pelo mercadológico/midiático porque estes tornaram-se a única forma de contato possível dessa gente com o mundo. Lembre-se disso da próxima vez que o "craque" do seu time comemorar a marcação de tentos com a câmera de TV.

- Futebolistas modernos são criaturas tão pouco marcantes, tão domadas por aquilo que é externo ao jogo, que necessitam ser chamados por nomes compostos para que sejam identificados até mesmo a si próprios. Isso sempre existiu, claro (Leônidas da Silva, Domingos da Guia, Jair Rosa Pinto, Mauro Ramos de Oliveira, etc.), mas agora assumiu ares de pandemia – e, se antigamente servia como uma deferência, uma forma de evidenciar o respeito adquirido por um craque citar seu nome completo, hoje é uma tática necessária para desembaralhar essa camarilha de seres sem alma que despersonaliza cada vez mais o esporte. Todos os times possuem seus Renans Oliveiras, seus Andrés Santos, seus Maikons Leites, seus Thiagos Ribeiros, seus Fabrícios Carvalhos - e agora a seleção conta com gente tipo Mário Fernandes (foto) e Renato Abreu, tão carismáticos quanto uma folha de alface. Não dê muito, e esses típicos funcionários de repartição do futebol estarão em campo ostentando crachás com seus nomes inteiros, para que possamos saber quem é quem nesse mar de impessoalidade e imbecilização (da qual não são vítimas, e sim agentes diretos porque coniventes).

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

"A Roma quer Casemiro para a próxima temporada" (sim, eles querem, é sério)

EXCLUSIVO! O Antimídia obteve acesso a algumas gravações (por motivos de segurança, nossa fonte permanece em sigilo) e transcreve, agora, a tradução do telefonema feito pelo presidente da Roma, Thomas di Benedetto, ao cartola são-paulino Juvenal Juvêncio, no qual ele mostrava interesse no atleta tricolor Casemiro, corroborando o que os jornais brasileiros deram como manchete. Confiram.

- Alô, Juvenal?

- Sim. É o presidente da Roma?

- Eu mesmo.

- Tudo bom com o senhor?

- Olha, cortemos as amenidades para irmos direto ao assunto. Eu não consegui dormir noite passada. Tomei calmantes, e mesmo assim nada. Tenho ido a psicólogos, para fazer tratamento. Não aguento mais, precisamos de Casemiro no nosso time.

- Sim, vi nos jornais daqui que existia um interesse por parte de vocês romanos, que a Roma queria o Casemiro e mandaria agentes para cá...

- "Interesse" é pouco: é estritamente necessário podermos contar com esse incrível, genial e absurdo Casemiro na nossa equipe próxima temporada. Que craque, que craque!

- Olhe, Benedetto, é um atleta jovem, agora valorizado...

- Não importa! Pagamos o que for necessário! Não consigo mais ver a Roma sem Casemiro no meio-campo. O time precisa dele para ontem!

- Podemos conversar...

- Juvenal, o caso é muito sério. A Roma corre o risco de fechar suas portas se não tiver o Casemiro com a gente logo. Sem um nome brilhante como esse, não valeria a pena continuar a manter o esquadrão. A presença dele aqui será o respiro que o futebol italiano precisa! É muito craque, esse garoto!

- Vou lhe mandar um DVD...

- Não precisa! Já tenho vários DVDs aqui! Quantos lances magistrais! Que noção de posicionamento, que capacidade de marcação, que vocação para subir ao ataque! Os DVDs não tem mais que 15 minutos de imagens cada um, mas já estou plenamente convencido! Não posso arredar pé!

- Você também precisa falar com o empresário dele...

- Mas já conversei com TODOS os empresários do menino! São vários, não? Eles também querem que ele seja negociado com a gente, fizeram condições especiais, etc, o que me deixou muito feliz. Me juraram que é um sonho de Casemiro jogar no futebol europeu, e em especial na Roma! Confio neles!

- Tudo bem. Me ligue ainda essa semana para fecharmos negócio, OK?

- Só retorno a falar contigo se você JURAR que não o venderá a nenhum outro clube... Repito: é da ordem de manter a Roma em atividade que ele seja nosso camisa 5 essa temporada de 2011-2012.

- Certo, vocês tem a prioridade.

- Ótimo. QUEREMOS CASEMIRO, PRECISAMOS DE CASEMIRO, O FUTEBOL AGRADECE A EXISTÊNCIA DE FENÔMENOS COMO CASEMIRO!!!

- Tudo bem, Benedetto. Abraço.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

A quem interessar possa

Outro dia, falei aqui desse previsível fenômeno que acontece toda vez que Ronaldinho Gaúcho "joga bem": as pessoas que trabalham com futebol imediatamente colocam o sujeito em um pedestal inversamente proporcional à sua disposição em campo; tratam do rapaz como se fosse um divindade mesmo que não tenha feito nada minimamente próximo ao divino - e eis aí o problema: se acreditam que Ronaldinho produz milagres, é, antes de tudo, porque QUEREM acreditar nisso, já acreditam desta maneira automaticamente, antes mesmo de qualquer acontecimento, e não abrem mão da prerrogativa. Em suas cabeças moldadas pela publicidade, o que advém dos pés do 10 rubro-negro é sempre digno de espasmos e reverência, pois assim está incutido em seus subconscientes, ditado diretamente pelo "Grande Irmão", o príncipe eletrônico que guia suas vontades. Não há espaço para questionamentos: assim é, assim deve ser feito, e pronto. Difícil lutar contra o que "especialistas" e "analistas isentos", essas vozes justas e respeitáveis, lhes injetaram na mente como dogmas inflexíveis, não é?

Agora, Ronaldinho é tido como "um dos destaques do Brasileirão", graças a alguns jogos que "decidiu". Um cruzamento feito de forma correta, se executado por ele, é "decisão de partida". Suas 10 presenças apagadas são deletadas, passam a não existir mais, em troca do auê ensurdecedor criado a partir daquela única bem disputada. "Ele recuperou a alegria de jogar", dizem. Adentramos em um território ainda mais próximo ao da lavagem cerebral quando Galvão Bueno diz, na transmissão do jogo do Flamengo, que o craque deve ser convocado para a seleção brasileira novamente. Mobilização geral: Bueno dá a ordem, seus cordeiros obedecem, e a discussão passa a ser quando Mano dará outra chance a esse "gênio". A desonestidade dá o tom dessa história porque: 1) estamos falando aqui de um campeonato no qual um inacreditável encosto como Luan é titular de um de seus principais times (e bem cotado na tabela da Bola de Prata da Placar, confiram tal hilaridade no site da revista); e 2) temos alguém alçado a patamares de "gênio" porque bate pênaltis e dá "cruzamentos decisivos". A nós, do Antimídia, tais parâmetros são muito pobrinhos. Sorry, folks, mas resistimos a cair nessa arapuca.

(Para terminar, preciso compartilhar com alguém o que escutei na transmissão de domingo: Luciano do Valle disse que o Flamengo, que ganhava por 2 a 0, deveria tomar cuidado, porque o Figueirense é "um timaço". Sim, repito: ele disse que o Figueirense é "um timaço". Sem mais.)

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Come mortadela e arrota salmão

Dentro da covarde idéia ilusionista pregada pelo futebol moderno, um de seus capítulos mais rasteiros têm sido escrito agora: alguns "articulistas" (Neto à frente, seguido de entulhos como Celso Cardoso) estão tentando incutir em nossas mentes que Luan, do Palmeiras, na realidade não é um clamoroso perna-de-pau, e é sim atleta a ser considerado, pois demonstra utilidade graças a sua "consciência tática" (qual?). Luan é, disparado, um dos casos mais grotescos do futebol atual, um atacante que sequer possui discernimento em relação à melhor maneira de ficar em pé, uma das maiores indignidades com a camisa verde em toda a sua história. Nos tentarem transmitir a idéia de que não, não estamos vendo um anti-futebolista paquidérmico e despido de qualquer condição técnica, e sim alguém que realmente possui valor e que sua condição de titular do clube é merecida, é mostrar (mais uma vez...) que encaram o espectador como um nada desprovido de qualquer capacidade de percepção e entendimento, é querer transformá-lo em um ruminante pronto a fazer outra refeição de capim. Buscar cavucar a estranhíssima história desse sujeito, que foi contratado por 7 milhões (!) de euros pelo Palestra mesmo, repito, tendo enorme dificuldade com o básico mecanismo que faz um ser humano ficar em pé, é algo que não passa pela cabeça dos tais "analistas" - afinal, isso pode representar um passo ambicioso demais para quem se refestela apenas com o superficial e com a mistificação corporativista/publicitária.

Nos últimos jogos do Palmeiras contra o Vasco, procurei observar a diferença reinante entre os noviços e Juninho Pernambucano. Deu pena, na boa. Observava Luan, entre as trombadas e sua falta de categoria usuais, que não lhe permitem sequer completar um lance sem atropelos, e o 8 cruz-maltino, que não errava passes e lançamentos para qualquer distância do campo e que não dispendia nenhum esforço adicional para que sua categoria fosse aviltantemente superior à de todos que ali estavam, e me sobrevinha uma incontrolável vontade de chorar. Quando estabeleceu-se a mim que dois dos paradigmas do futebol ali estavam, Juninho, meio-campista de classe pertencente a uma geração anterior (e nem tão distante em relação aos anos, mas já tremendamente ultrapassada em se tratando de propósitos), e Luan, desgraça que sequer poderia ter sido aprovada em uma peneira mas que ali estava vestido a camisa de um grande brasileiro (e como titular!) graças a algum nebuloso trabalho de bastidores, surge o lance capital: o vascaíno aplica um tranqüilo chapéu justo no "ponta" palmeirense. Então a ficha caiu, já que, se não havia a menor possibilidade de se concretizar um "choque entre gerações" ali, era porque o real embate naquele pedaço do campo, e que resultou no calmo lençol, era o futebol versus o anti-futebol - e o primeiro sempre sairia vencedor, não importa a quantidade de euros, não importa a cor da chuteira. Juninho está prestes a aposentar-se sem gerar sucessores, e tipos como Luan são a maioria populacional do decaído "Brasileirão". O campeonato não poderia ter um velório mais condizente.