sexta-feira, 27 de março de 2015
Eu estou falando do dever... Das obrigações!
Jogamos essa ideia do fim do centroavante aqui mesmo, neste blog, já há algum tempo - se não me engano, no momento da "explosão" de Alexandre Pato (este que, provando não ser necessário grande alcance de visão para tanto, já cravávamos ser fogo de palha). Mas hoje encontro gente que, em nome de uma pretensa "evolução tática", prega como normalíssima a substituição dos antigos "center-forwards" por meias e mais meias, ou, por que não, por "alas" - mas lhes pergunto, caros amigos: existe realmente evolução quando se exclui de uma equipe de futebol quem anota seus gols? É difícil aceitar tanto conformismo, mas ele está aí, a quem quiser fazer uso, lambuzar-se até, disfarçado de "estudo tático".
Quantos centroavantes de ofício restam no futebol de hoje? Goleadores mesmo, sem medo, que peitam zagueiros, brigam, olham para o gol quando estão de posse da bola, chutam de onde estão virados, cabeceiam, que ali estão com a função de fazer gols e não "marcar saída de bola" ou "impedir o avanço dos laterais"? De projeção internacional, apenas o uruguaio Suárez. No Brasil, somente o peruano Guerrero, aos trancos e barrancos, sobrevive - farsas como Jô ou Tardelli tiveram ascensão injustificada porém, como esperado, fôlego bastante curto. Já se aceitam naturalmente times sem o 9 (o Corinthians recentemente promoveu, com aplausos, o eficiente porém pesadíssimo Danilo a seu "homem de referência", e assim Tite, após a partida, foi aclamado como "treinador de grande visão") - ou, se quisermos ser um pouco mais diretos, aceitam-se times sem ataque. O futebol de sofá triunfa mais uma vez: as "mesas táticas" dos comentaristas, essas que tratam os atletas feito robôs e que excluem do jogo qualquer possibilidade de espontaneidade (em minha ultrapassada visão romântica eu ainda espero alguma), tornam-se tão importantes quanto o placar, fazem do técnico um Deus, da disposição de seu time em campo, a verdadeira tábua dos mandamentos. Enquanto isso, resultados minguados tipo 1 a 0 pululam por aí - mas, se tal raquitismo numérico puder ser explicado através do linguajar tão valorizado pelos cronistas, esse das "linhas de 4" ou das "gestões de equipes", não fará diferença alguma. Assunto não vai faltar.
Abro o site UOL agora de manhã, e a capa do periódico virtual festeja: "plano de Dunga para enterrar o clássico camisa 9 funciona" (graças a uma vitória do selecionado empresarial brazuca em amistoso boca-mole disputado acho que ontem, não sei em qual horário e sequer em qual país). Fala-se de tática, não fala-se de craques: eis uma legítima manchete do futebol 2015.
terça-feira, 10 de março de 2015
Dá pra ver que o senhor tá fora da onda
Procure aí, é uma mania que se alastra desde a criançada "expert" em futebol de hoje em dia aos comentaristas mais respeitáveis: superou-se o desenho tático (expressão que, utilizada a contento, empresta a qualquer um o vulto de "especialista") simples e direto de um 4-3-3 ou o tão batido 4-4-2, estes já cheirando a mofo, antigos, inertes, inexpressivos; agora temos uma festa de números para explicar como os times se postam em campo, coisas tipo 4-2-1-2-1 ou 3-2-2-1-1-1, ditas preferencialmente com gestos estilo Paulo Calçade, que usam as mãos e o dedo indicador para explicar a movimentação dos atletas em seu vem e vai para "marcar os laterais" e "fazer a parede" (termos estes também bastante utilizados pela molecada no recreio das escolas). É "falso 9" pra cá, é "time compacto" pra lá... Parece que o Barcelona de alguns anos atrás fez o futebol enfim nascer; tudo que veio antes é natimorto e apenas preparou o terreno para esse esquadrão revolucionário.
Ô rapaziada, desculpem essa minha mesquinha tentativa de estragar seus sonhos molhados, mas não foi o Guardiola que inventou isso não! Não foi o Pep que institui o "atacante que flutua" ou essa obsessão freudiana de treinador brasileiro, a de "recompor o meio-campo". A Holanda de 74 se notabilizou também por seus craques não guardarem posições fixas, não sei se vocês sabem; até mesmo a Hungria de 54 entrou para a história com a junção de força ofensiva e inovação tática - e o abismo que separa as duas épocas é exatamente esse: a preocupação antigamente ela colocar o time à frente, a busca de um resultado, ATACAR (palavra sumida do noticiário esportivo de uns anos pra cá, e que merece ser escrita com maiúsculas); a de agora é o pragmatismo sem cara herdado do mundo corporativo, a agonia sem fim do "domínio de bola" para "gerar resultados". Nessa, Rinus Michels foi derrotado por Carlos Parreira - e Guardiola, assim como o tão badalado brazuca Tite, quer vocês queiram quer não, é uma variação deste último, e não do primeiro (portanto, é hora de aceitar que de revolucionários nada possuem).
Sem contar que time abolir centroavante em favor de jogadores "táticos", essa balela de "meia-cancha congestionada" que faz brilhar os olhinhos dos treineiros de discurso empolado e apaixonados por volantes de cá, combinemos, são opções que nada tem de arrojado: apenas evidenciam a covardia e a falta de sentido do inofensivo futebol moderno, esse que não quer ver "organização" e "ousadia" tornarem-se sinônimos - há de sempre privilegiar-se a primeira; o que possa surgir em função disso é consequência, como diria Carlos Parreira, campeão do mundo em 94. A não ser que você considere "ousado" um meio-de-campo que troca passes ad infinitum e que estatísticas de posse de bola sejam mais significativas que o de tentativas a gol...
Tio Cruyff tá lá, rindo a valer dessa frescurada teórica.
terça-feira, 14 de outubro de 2014
A coisa tá assim...
Talvez o
trauma de ter vivido esta recente “copa do mundo” ajude no exagero e na
amargura a seguir. Talvez seja o restaurante “comfort food” ou o salão de
beleza com conceito. Pode ser também o “bistrô com conteúdo”, que ensina o inacreditável
prato de pipoca com chocolate derretido por cima (com conceito!), o metrô que
não anda mais na linha, os “golaços” da rodada do brasileirão que parecem
saídos de um videogame, e não posso me esquecer das antenas que não cessam a
confusão... Mas, vamos lá.
Há dezoito
anos, pelo menos, me sinto um zumbi. Mataram o futebol, e teimo em mantê-lo
vivo numa fagulha no meu peito – único rincão que nos sobrou. O jogador do
Newell’s calça chuteiras amarelas; o do Central, vermelhas. Ninguém se revolta.
A polícia atira, à queima roupa, e a TV filma tudo. Tudo virou filme, todos se
sentem as estrelas que, realmente, somos em essência – a ironia é que me
parecem tão decadentes nesta forma humanoide/modernoide, ocas luzes que morrem
na aurora da plena compreensão da realidade. O surreal aí está, jorrado,
desonrado e festejado.
Tempos atrás
vendiam o milagre da segurança social nas câmeras de seguranças, que
enfeitariam as calçadas de condomínios, escolas, microempresas, multinacionais,
esquinas... a todo canto! Hoje, vê se neste exemplo o quanto o mundo gosta não
só de equivocar-se sem parar, sem aprender em cada queda, como principalmente a
habituar-se a lidar com o surreal, aquilo que reza ser uma coisa, quando é o
oposto, de fato - parece ate papo do diabo da bíblia. A que ponto chegou a
coisa toda! O orgulho e a empáfia que reinam nas ruas e cega o aprendiz. Não
somente os crimes continuam existir, agora eles são filmados, saciando o
sadismo que, também, compõe o novo homem. O pior é o efeito psicológico das
coisas. A presença das câmeras glorifica a morte do humano. Engana-se o tempo
todo. Atua-se diante delas e como elas estão por toda parte, finge-se a vida a
todo instante. As pessoas não compartilham mais, só sabem competir. Os de
dentro do “castelo” iludem-se de segurança com as câmeras; os de fora as
invejam e, estupidamente, as almejam. E assim semeiam no pobre não o sentimento
de justiça, e sim de querer apenas trocar de lugar com “os de cima”. A confusão
dos diabos, sanguinolenta, sempre. Como sobrevivem, dia após dia? Dopados! Cada
vez mais... as festas não cessam, dia e noite, uma emenda na outra, com
“esquentas”, “afters”, ocupando as horas de cada novo dia que nasce.
Onde fica a
luta? Foda-se a luta! "O mundo é bão, Sebastião!". Vamos sorrir, é a “geração
cocaína” do sorriso histérico, numa doentia sequencia na página da rede
surreal, que os pegou como peixinhos, na real. O “sorriso Ronaldo Gaúcho”
venceu, eles entrouxaram “guela” abaixo.
Goebbles morreu, ele agora veio na forma escancarada. Não faz veneno
silencioso. Agora é barulho, é para as massas, todos estão juntos no barco da
festa que não acaba e sufoca o que poderia ser luta.
As eleições
explicitaram que esta nova geração “Flower Power” muda tanto a sociedade quanto
qualquer outra que veio antes. Mas vive o tempo todo pensando que faz, que
realiza, todos brigam por poder, querem gritar mais alto. O que bradam não
importa mais. É uma merda atrás de outra. Mas tem que gritar. São estes tempos
de guerra cósmica que afeta mares, polos energéticos...
Imaginemos
nós, lindas e minúsculas formiguinhas que somos neste universo, quanto poder
interno acumula-se neste processo e que precisamos jorrar para não explodir.
Vamos nos bestificando. Viver como escravos parece não incomodar essa gente,
tampouco. O inferno cresce na sua cara e sua expressão parece cada vez mais
amena. A cotinha, a migalha te faz dormir tranquilo, com seu papel cumprido. É
assim que domesticam o homem, enjaulando-o e divertindo-o. É o
homem-escravo-hiena. Se permite misturar com seu puto amo, que por sua vez,
também não suporta mais ignorar o sabor do suor de seu serviçal. O encontro dos
mundos, é a dança dos planetas. Aqui embaixo, a coisa ficou feia demais.
A chuteira
amarela no rival vermelho, e a vermelha no rival amarelo. Eles se revoltam? Não,
estão sorrindo, muito bem vividos e alimentados. E dopados! Os que se revoltam
também não parecem mais tão longe dos alienados. A melancolia reina no milésimo
de segundo em que você sabe que o avião vai colidir com a montanha. Com tesão
de sobreviver a tudo isso, o pobre e o rico vão se aproximando, na robotização,
o regresso a tempos ignorantes do homem-macaco, em suas mediocridades, desejos,
medos que se assemelham, também cada vez mais. Aprendendo a compartilhar nesta
doentia competição. Na marra, sanguinolento, sempre. Se violentando cada vez
mais, buscando abrir cada possibilidade, cada pedaço de carne, fazer jorrar o
sangue. Querendo ver lá dentro, de que somos feitos, estes seres tão
infectáveis, tão adoráveis. Como podem se perder tanto a ponto de matar seu
mundo? Na escravidão de cada um de nós, vivos na era em que, finalmente, um
império conquistou todo o globo. Este império dos cabos elétricos.
Eu tenho um
sonho também, como aquele mister King fazia. O meu, hoje, é um mundo sem mais
um fio elétrico, uma antena. Apenas comunicação natural, trocas naturais. Por
que com o globo todo amarrado dentro de si, o que fazem alem deste amar,
respirar, gozar, comer, cagar, mijar, gozar, dormir, pensar e sentir que nos
define? O puto amo vai responder com o domínio, o controle. O momento em que
alguém se esqueceu daquela que deveria ser a primeira e ultima regra do ser
humano aqui: ninguém é mais ou menos, menor ou maior do que outrem. Quem não
vive isso, faz merda, pisa no calo e não pede desculpa, e passa mais um e-mail
via smartphone, a única esperteza que lhe sobrou. É a cena da miséria com a
tecnologia, o siamês que te recepciona na porta do inferno e que tirou tantas
noites de sono daquele velho Nostradamus. O pênalti perdido no ultimo minuto. O
gol contra. A falta. A ausência.
Este caminho
leva direto ao fim, doloroso, sem volta. Quero perfeição, não. Reconheço e
torço pela existência da imperfeição no processo evolutivo de todos e cada um
de nos. O que me faz escrever essas coisas é a falta da mera oportunidade de
algo (perfeito, imperfeito ou a caminho de ambos...) acontecer naturalmente. O
aperto da garganta encontra na morte o limite da força dos músculos do
assassino. Eu só estou estrebuchando meu desespero antes que isso aconteça. Do
outro lado deste vicioso espelho da vaidade e ignorância, jaz o além. Além-mar
para Colombo. Além dos 4Gs para os humanoides versão 2014. Vamos além, amar o
boicote (um santo!), sentir intensamente a negação, plena e deliciosa –
verdadeira, sem concessões. Viver estes pequenos sacrifícios que escondem
gigantescas doses de carinho, vigilância, respeito... a família de Antonia. Compartilhar o mesmo Oceano Atlântico de hoje, infectado séculos a fio por malignos cargueiros de mercadorias e
homens-mercadorias, o velho Himalaia, a Amazônia, o deserto do Saara sem medo,
com igualdade entre cada uma de nossas formiguinhas, incondicionalmente. O
mesmo mundo será outro, irreconhecível às micro-ondas que estrangulam a
criatividade e paixão, irresistível aos que apenas querem viver com liberdade.
Bom dia.
domingo, 16 de junho de 2013
Quem mexeu no meu queijo?
Todos se prostram perante a "grandeza" do futebol de Neymar.
Neymar é a maior aposta do marketing esportivo desde Ronaldo "Fenômeno" (Ronaldinho Gaúcho come poeira, coitado!), a mais efetiva criação dos esquemas extra-campo desde a forjada glória daquela negociação do PSV com o Barcelona em 1996.
Quem cuida da imagem, dos compromissos publicitários, da exposição de Neymar é a empresa dele, Ronaldo "Fenômeno", inegavelmente um ás da auto-promoção que agora empresta seus talentos a outrem.
Neymar joga a Copa das Confederações, transmitida pela Globo - e por ela é tratado como um Deus na Terra.
Ronaldo comenta a competição pelo canal, e sua ligação com o agora "10" da amarelinha sequer é citada. Todos são apenas sorrisos, elogios, contemporizações ("Neymar não jogou bem, mas é que estava fora de posição" etc.) e quetais para com o novo astro do futebol europeu.
Afinal, o que seria do futebol em 2013 se não fossem tantos sorrisos?
quarta-feira, 13 de junho de 2012
Novos mares

A curiosidade move os homens. Achei o vídeo com narração do
mister Galvão Bueno. Melhor ainda para testemunhar tudo de ruim, que
certamente ocorreria ali, no mundo da distorção e manipulação. E a merda já começa com a “pele” dos "guerreiros", como sussurram dramaticamente nas propagandas. À cancha, os
uniformes em nada têm a ver com sua tradição. O do Brasil, pilhado pela Nike e
Rede Globo, eu não respeito desde pouco antes da deliciosa derrota pra Nigéria,
em 1996. E a Argentina, também, mesmo com seu passado de luta e lágrimas
dramáticas, já não é mais a mesma, não tem mais na força de conjunto – ou algum
camisa 10 encapetado - sua arma. Sim, digo isso na era de Messi! Não esqueçam,
falamos aqui da Seleção. O máximo que ele fez foram excelentíssimos minutos em
2006 (se tivesse entrado no lugar de Crespo, na prorrogação contra os da casa, teríamos vencido a Copa, certeza) e
o título em Pequim, em 2008. Na África, já ao status de Deus, deveria ter
trazido a taça, ou no mínimo jogado bem mais do que seus (vários) passes errados
e postura displicente nos momentos decisivos demonstraram. E assim foi também na Copa América, em terra natal. Mas mídia é mídia.
Sei que há uma verdade intocável pairando por aí. Daquelas que nem mesmo Pelé
ou Maradona seriam capazes de justificar, de tão estupidamente gananciosa e
vendida aos mínimos cuidados na mente da massa que ela é. E ao não justificar –
como acontece com todos, desde o primeiro, o Nazário - eles falham, não demonstram
o valor com que são etiquetados. Ao vivo, é flagrante: o “narrador” sempre
coloca a culpa das falhas em qualquer outra coisa, ou jogador e qualquer
acerto, mesmo que mínimo (já esperado desde sempre na transmissão, servindo de
edição pro telejornal de amanhã), já é vendido da mesma maneira que faz um
feirante, aos berros e repetidamente. E isso dói, pois rebaixa o nível do jogo.
Os brucutus de hoje são terríveis, os zagueiros que colocam a bola para fora e
comemoram idem, mas os superpopstars são a grande marca e pilar do futebol
mercantil. O “eu futebol clube”, sobre qual já debatemos um pouco aqui. Nesse
campo, Messi é perfeito. Com a camiseta argentina, deve muito. Não à toa vivem os
argentinos, também, a era de um só jogador, do nome próprio a frente do
conjunto, da super estrela. É a vez do pulguinha! E assim, comecei a ver o
vídeo – sempre querendo acreditar que vou me decepcionar nas minhas certezas,
que vou ver algo razoável, no mínimo. Afinal de contas, trata-se de Brasil x Argentina!
Será que ainda é possível reconhecer algum traço do que representaram essas
duas camisetas? O local do jogo ser os Estados Unidos ou a Suíça já nem
surpreende, e faz todo o sentido pros negócios. Longe dos verdadeiros adeptos,
da reação das torcidas; perto do dinheiro, do controle das ações, expandindo
territórios, conquistando almas, digo, consumidores... A lista vai embora, o
sistema funcionando, o Império vencendo. Lamentável. E vem os gols. O primeiro
do Brasil surge, claro, de uma falta, após o “incrível” Hulk fugir de mais uma
dividida, típica ação dos modernos. E outra dos modernos foi a burrice do
defensor argentino de se jogar em cima do contrário – saudades de Ruggeri eSensini!
Como faz falta o cérebro e alma no futebol! Ai vem o primeiro de Messi. E engraçado,
falam tanto, mas tanto, mas tanto destes intocáveis ídolos de ouro. Quando eu
penso que ele fez como faziam aqueles de antes, que os de hoje afirmam já terem
sido superados pelo tal novo “gênio”, driblando dois ou três adversários. Mas, não!
O primeiro gol surge com o “gênio” recebendo um passe na cara do gol e tirando
a bola do ângulo do goleiro nada mais do isso. Nada de mais, pra quem já viu
tanto futebol bom na vida. Uma das coisas que mais desagradavam na invenção da
Ronaldo-Mania era isso: a distorção, a bajulação propositalmente exagerada. Ele
recebia uma bola perfeita, após jogada toda dos companheiros, mas quem recebia
todo o credito era só aquele que vendia tudo do lado de fora dos campos. Pois,
o “gênio” iniciava boa tabela e aí, mais uma vez, recebia outra bola na cara do
gol, driblava o goleiro e fazia a virada. Não discuto a qualidade técnica, a
capacidade o jogador com a bola. Isso tudo já é superficial no jogo perto do que
se tem feito nas mesas de edições e cabines de locução. Discuto o todo. O
tratamento da mídia, a fabricação de opiniões distorcidas, a vida distorcida. O
Brasil vira o placar com dois gols, claro, onde se vê a combinação de bola parada
com falhas dos contrários e de toques e mais toques, sem que nenhum marcador
contrário encoste em ninguém. Futebol modernista, ei-lo. Esse é o novo futebol.
A Argentina empata em outro gol chato. Eu esperando ver golaços, jogadas
absurdas, disputa sangrenta pelas bolas, cotoveladas, defesa da honra, o que
cresci vendo num clássico desses - algo assim lembram-se? E o que via parecia cada
vez mais um vídeo game. Muito mais doque o vídeo game parece real. E Galvão
solta, claro, um “que jogão amiiiiigo”. Eu queria fingir que era mesmo um jogão,
que a cada gol ali, independente de qualquer critica, fazia me encher de alegria
– pois essa é o final da contas, a mágica do futebol, dar prazer, alegria. Mas
meus parâmetros vivem acessos, dentro do meu peito. O futebol deoutrora ficou
pra trás, mesmo. Mas em mim ele vai sempre viver. Não há como comparar nada de
hoje, com algo de antes do dinheiro mandar no esporte, como vem sendo há mais
ou menos, 10, 15 anos. E o quarto gol deste novo “gênio”, também não me fez
pular da cadeira. Não discuto, novamente: um belo gol, belo chute, bela técnica
desse que, só se destacaem demasia, além da magia da mídia, porque os demais
estão cada vez mais fracos. A exceção à regra, a lei da contingência
determinando o terrível nível técnico do futebol atual. Mas me incomoda ver
como sumiu o contato físico viril, aquele que, ao ultrapassado, transformava o
futebol no ambiente de suspiros e infartos. Como um verdadeiro gladiador na
arena - ali, sim, eram arenas! O sentimento de ver seu ídolo matando “um leão
por jogo” foi enterrado. E isso sempre vai afetar meu julgamento. Talvez não do
jogo em si. O do contexto histórico que nunca pode se apagar – até porque
futebol se joga em qualquer lugar e condição. Pode ser, disparado, o melhor do
mundo hoje, assim como o menino Neymar o melhor do Santos e assim por diante.
Mas não há como comparar com o que ocorria antes desta geração tomar conta, este
novo espírito produzindo cada movimento em campo e fala sua ao microfone.
Assim, no lance do gol final, ninguém encostou no “gênio”, tampouco o
perturbaram neste novo “golaço da rodada” – coisa, aliás, que esta geração não
sabe viver sem. Ainda fizeram aquela corrida acompanhando o movimento, entregando
todo o ângulo para o chute, não oferecendo qualquer combate. Porque não há mais
falta e carrinhos no futebol. E, também, há cada vez mais visível, esse “respeito”
lamentável exatamente por estes superpopstars e Barcelonas modernos. E os
“gênios” não podem ser incomodados. E assim vão,aplaudindo essa mentira. Eu
nunca!
Acabei o vídeo, ouvindo o Galvão falando suas besteiras de sempre,
justificando ali, masturbando aqui, um verdadeiro manager do dinheiro. De
futebol se fala pouco. Não há mais aquele Silvio Luiz dizendo “mas ninguém
encostou nele também, pô! Aí até eu!”. Ou algo qualquer que realmente pintasse
o quadro que vê, como manda a reza de um jornalista, esportivo ou não. A
crítica. O que fazia do jogo algo sério, mais do que a vida e a morte, também
não tem mais espaço. Não se pode criticar um produto que é seu. E assim, o
jornalista esportivo de hoje veste, como todo orgulho e submissão, o manto da
parcialidade. Veem um belo gol, mas não conseguem analisar de onde vem, como
veio. O gol de três chapéus do Vivinho, pelo Vasco, contra a Portuguesa, o
levaria ao Milan hoje. Só isso tenho a dizer. Não há mais consistência no
futebol. Sobrou o reino do superficial, isto é o que
sobrou do futebol. E eu pensando, porque
caralho eu ainda perco meu tempo com futebol atual? A novaArgentina, sem aqueles
cabeludos insanos, não é mais a Argentina pra mim. Os novos estádios,
torcedores. Todos representam a mesma coisa: dinheiro, riqueza, fama e beleza.
Isso já não é mais futebol. Sinto muito. A verdade um dia prevalecerá. Vejo
Messi como o melhor de todos esses ídolos modernos. E, por favor, não é porque
ele é o primeiro argentino deles. Desde meu ódio ao Ronaldo sou acusado de ser
antipatriota. Mentira! Era Bury e eu lutando juntos. Ao mesmo tempo em que
atacávamos a mentira da Ronaldo Mania, alertávamos sobre como Giovanni era transformado
em nada, jogando muita bola. Mas Messi é um dos poucos que não tenho dúvidas se
daria certo mesmo enfrentado a pauleira de antes. È na alienação, no exagero,
na imparcialidade, na injustiça que mora o perigo. Cria-se um senso comum e se
manipula uma sociedade toda. O torcedor de hoje é alienado. É o novo torcedor,
de fato. Novas roupas, mentalidade e atitude. Precisa tanto do passado que vive
comprando camisas de lá. Enriquecendo os de hoje, claro. Mas é sempre no
exagero, na manipulação que mora o perigo. E fazem isso no futebol, ao vivo! Prestem
mais atenção, já que não saem da frente da televisão mesmo. Não são só eles que
estão ficando sem cérebro. Bueno, sem mais delongas, o tempo vai passando. Um
dos grandes problemas. A memória do que era futebol vai ficando cada vez mais
distante. Sinto medo. Daqui a pouco o Fenômeno vira presidente. Nem imagino que
está por vir. Cuidemo-nos.
Ódio eterno ao futebol moderno!
terça-feira, 13 de março de 2012
O mundo gira e a planta cresce
"Jogador (insira aqui o nome de qualquer um) é gênio!"Assim funciona um dos dispositivos mais definidores da moderna assistência de futebol: a criação dos "craques". Mas esta, a um observador atento, é facilmente explicável. Tome um neófito, uma criança de 12, 13 anos, por exemplo: quando toma contato com times de uniformes cuidadosamente atraentes, com design arrojado, jogadores de moicanos e tatuagens (visual agressivo porém palatável), gramados verdejantes que aparentam-se à visão de paraíso, toques de bola exaustivamente ensaiados para não darem a impressão de frieza e mecanicidade, audiências civilizadas que aplaudem cada lance - como desinstalar-se daí? É um mundo perfeito servido de bandeja, construído com esmero (e abundantes recursos) para que as percepções se nublem.
A partir daí dá as caras, então, a ignorância histórica - afinal, é necessário parâmetros para se tecer comparações. Como considerar alguém "craque" ou mesmo "gênio" sem a sombra de outro "craque" ou "gênio" a lhe fazer peso para a análise de seus recursos técnicos? Dali, daquele mundo verdejante e comportado no qual o instalaram, o garoto não deseja sair; como algo pode ser maior do que aquela milionária perfeição?, ele se pergunta. Não volta os olhos a momentos vulgares do futebol, Copa de 74, aqueles cabelos desgrenhados, costeletas, aqueles uniformes que colavam ao suor... Este ser, que já possui em si a a (moderna) tendência a amortizar-se, deita na cama, não busca sair do comodismo de sua época, não quer entender o esporte como um todo. Sua estagnação (em plena "era do conhecimento"!) o obriga, sem traumas ou culpa, a exaltar apenas os de seu tempo que, pela ausência de conhecimento, não sabe serem de plástico. E nessa ele fica, como parte atuante da engrenagem que move a mediocridade.
Muitos gênios, em 2012.
sexta-feira, 2 de março de 2012
O show do vazio
Vivo dizendo a um amigo: os de agora, ignorantes históricos contumazes que chafurdam por opção pessoal (ou mesmo por conta de uma inescapável mediocridade intelectual) no imediatismo mais raquítico, PRECISAM que Messi seja o maior de todos os tempos, pois a quantidade de dinheiro e de massiva publicidade que destinam ao jogador é tão sem precedentes que a necessidade de elevá-lo de qualquer maneira a um patamar de Olimpo é imperativa. O que significam os "recordes quebrados" pelo argentino, em tempos de futebol tão destroçado? Tais números sequer conseguem figurar com maior destaque na biografia do 10 do Barça, de tão frágeis (ou irrelevantes) que são se colocados em um contexto de história - apenas demonstram que a presença de um "craque" de tal magnitude não ajudou a fortalecer o futebol, e sim a enfraquecê-lo, para girar viciosamente em torno dessa grotesca mistificação (mistificação essa que a própria figura de Messi, um sujeito pálido, sem vibração, trata de tornar paradoxal a todo momento). Se exageros ainda mais absurdos já foram perpetrados nesse desespero, típico dos nossos tempos, em encontrar relevância em si mesmo (como Ronaldinho Gaúcho, por exemplo, figurar em algumas listas de "maiores" feitas por esses asnos corporativistas que são os "especialistas"), o caso Messi apenas coloca a nu o horror de uma época que busca forjar a própria importância em lugar de ser realmente importante. E o vácuo só aumenta.
sexta-feira, 2 de dezembro de 2011
O horror nosso de cada dia
Como dizíamos desde o início do ano, Ronaldinho Gaúcho faturou uma Bola de Prata. Apesar de todos os esforços da revista Placar, que tentou por diversas rodadas entregar a Bola de Ouro ao grande "mito" do nosso futebol, o campeonato do ilusionismo não conseguiu forçar a barra tanto assim. Mas aí está: o troféu já estava entregue ao jogador desde antes de o torneio começar; jogando o que jogasse, ele a faturaria. O triste de toda a história é ver que a Bola de Prata, que antes, por ser um prêmio menos circense, proporcionava seu prestígio ao atleta premiado, agora faz o contrário: corre atrás, em mendicância desesperada, daquilo que acredita ser uma "grife futebolística" (não importa se ascendente ou decadente) para que estas lhe emprestem um pouco de "importância" e "relevância". Uma contra-mão que tem como objetivo o famoso (e, neste caso, literal) pote de ouro no fim do arco-íris.********************
O Santos logo entra em campo no mundial da pirotecnia - e, apesar de escaldado com os procedimentos do marketing moderno, ainda me causa espécie ver Paulo Ganso, que não jogou esse ano, ser apontado como "craque", ou como "destaque" do time. Uma vez pregada a estrelinha de bom menino na testa da nova geração, é impossível despegá-la. Chega a ser ofensivo dizer aos do atual público do futebol (ou mesmo entre alguns com anos e anos de vivência entre os altos e baixos do esporte) que Pato sequer devia ser convocado para a seleção brasileira, por exemplo. Eles espumam, ameaçam nos morder. Como contestar que Pato é um "craque", um "fenômeno"? Dizer que ele mal entra em campo? Dizer que ele marca uma quantidade irrisória de gols para alguém com sua reputação? Como blasfemar a ponto de falar que o garoto Lucas, do São Paulo, não é um prodígio? Só porque ele nunca decidiu uma partida importante em sua carreira? Não adianta: vivemos em uma redoma de letargia e mistificação barata, e o futebol moderno é um dos agentes mais certeiros para a perpetuação de ambos.
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Kleber "Gladiador" chegou ao Grêmio já com status de "ídolo". É bom lembrar que o sujeito sequer entrou em campo com a camisa gremista. Pelo visto, com todos tão em dia com as obrigações e procedimentos do futebol 2011, nesse círculo vicioso de construções cimentadas com marketing, nem precisaria.
sexta-feira, 25 de novembro de 2011
A mistura de dois que não dá um
Abro espaço para tecer um elogio ao putardo do Bury. Os textos do cara são cirúrgicos, com instinto de “V de Vingança” – acredito que tinham de ser lidos em pleno “horário nobre” da televisão. Ecomo ele contou essa linda historia de seu tragicômico domingo, vou dar continuidade a ela, voltando um pouco no tempo e a alguns domingos passados. Também será sobre o gordo Neto, mas, principalmente, sobre o nosso bom e velho “sangue, suor e lágrimas”, que tanto rivaliza com o “planejamento, execução e merchandising”.
Estava relembrando com um colega de trabalho as primeiras lágrimas que derramamos no futebol. Ele é bem mais novo do que eu, outra geração ate – embora sua mentalidade e atitude não demonstrem isso. Rompeu aos prantos pelo seu Palmeiras-Parmalat derrotado em 1995. Ali, a
sombra do antifutebol já rondava minha alma. Eu debutei pouco antes, em 1985. Desde esse ano, disputei torneios de futebol de salão e, ainda um garotinho de cinco anos no banco de reservas, não resisti aos gols que levamos numa prorrogação que valia titulo. Demorei a parar, ate que minha mãe ofereceu o lanchinho pós jogo e a coisa fluiu rumo a mais uma segunda-feira. Eu aprendia a nascer no futebol. Nos anos subseqüentes, derramei outras tantas lágrimas ao
jogar, mas nunca pela emoção da vitoria; sempre decepção da derrota. O futebol sempre ensinou os jovens a lidar com as adversidades da vida de maneira adulta, enquanto ele foi futebol de verdade. Ao vivê-lo intensamente, as derrotas explodiam na sua cara, assim como o cronômetro, impiedoso, não podia parar – e realmente não há como se esconder num campo de jogo desses. Mas é no futebol profissional que o caldo engrossa – incluso o das lágrimas. Meus olhinhos fitavam a TV, enquanto Zico, Sócrates, Platini e Julio Cesar perdiam seus penais, na épica
partida entre Brasil e França, na Copa de 1986. Não chorei; talvez muito novo, me senti “apenas” assustado e preocupado com o desespero e lágrimas de meus pais e tios, pós desclassificação dos canários. Parecia o anúncio de uma nova guerra mundial, de tão fúnebre que ficou minha casa. A vida seguiu. Vi meu pai, tomado pela raiva, espatifar no chão seus óculos quando D.W. Boschilla apitou o fim do jogo decisivo do Paulista de 1987. A luz havia acabado no bairro bem na
hora do sagrado jogo, e ele acompanhou o prélio num daqueles aparelhos de imagem em preto e branco, que pareciam cinemas para formigas. Enputecido, ele se trancou no quarto e minha mãe, imediatamente, veio correndo, querendo saber o que tinha acontecido. Eu sabia muito bem o que era – e era muito mais do que uma derrota em um jogo. Era o poder do futebol que me encantava cada vez mais; já estava cooptado por ele, e por esse comprometimento que te fazia destruir um objeto que seria útil no dia seguinte de trabalho sem pestanejar – o futebol realmente desintegrava os homens. Mas também não chorei. O velho havia me levado, junto
ao meu irmão e um primo, na primeira partida daquelas finais. Eu estava louco, não podia crer que existia tal universo nesse inferno de vida. Mas, em 1988, eu amadureci. Foi o primeiro ano que acompanhei, de fato (como “gente grande”), rodada a rodada, o Campeonato Paulista e não agüentava mais desconhecer o sabor de um titulo. Quando a ultima rodada chegou, e o Corinthians tinha de vencer o Santos e ainda torcer pela vitória dos rivais verdes (já desclassificados) contra a máquina do São Paulo, fiquei doido. E, do nada, anunciei ao velho: sou
tricolor. Honestamente, episódios como esse me fazem crer que desde tenro garoto já tinha uma intuição de buscar, por conta própria, meu verdadeiro amor no futebol – ate que me encontrei com meu querido Juventus. Em 1995, por exemplo, tinha o pôster de Giovanni com a camisa do Santos no meu quarto – não acho que essa seja uma atitude muito normal de um “corintiano”. Mas voltando a historia, eu tinha de ser campeão, de qualquer jeito. Ate que Gerson Caçapa matou os tricolores e me salvou de ser um Bâmbi. O convite, irrecusável, do velho para
irmos a primeira partida das finais contra o fortíssimo Guarani, me trouxe uma real possibilidade de ser o primeiro. ‘É agora ou nunca! Quem é esse Guarani ai?’. Envolto nessa insuportável expectativa, rumamos ao Morumbi inflado de bandeiras e rojões. Eis que surgiu, então, a famosa bicicleta de Neto – que, por sinal, aconteceu bem na nossa frente. E ali, como acontece com todo choro verdadeiro, eu explodi. Era muito humilhante levar um gol daqueles (ainda mais numa final) e o time adversário era visivelmente superior em campo. Eu não queria acreditar no meu azar. Somado a minha inexperiência de vida (e de jogo, também), o gol me fez visualizar duas goleadas bugrinas nas finais. Me fechei no meu assento e chorei feito um bebê, ate que o primeiro tempo acabara e eu, por fim, me acalmara - sem aquela tinhosa presença da pelota que parecia correr contra meu destino. Acredito piamente que as primeiras lágrimas no futebol têm de ser de tristeza, ou raiva. Como a raiz que vem da terra e troca com o ar seus
fluidos vitais – de baixo pra cima, de dentro pra fora, como toda revolução. Todavia, não chorei de alegria com o titulo de Viola, uma semana mais tarde – talvez ainda novo, um pouco tímido para derramar lágrimas triunfantes. Faltava algo, mas ali eu aprendi a bater punheta no futebol. Por mim, eu podia passar o resto da vida sem outra conquista, outra taça – já tinha passado pelo mais difícil, a perda da virgindade e da falta de gozo. E como ele é bom! Dois anos se passaram. Quem conviveu com o Corinthians nesses tempos, lembra que pós torneio estadual, não havia muito mais esperança pro restante do ano. Assim, quando Silvio e o Bragantino massacraram o time de Marcio e Ronaldo, fui as lagrimas de desespero – bradei pela casa que não iria a escola na manhã seguinte. Fui, mas colei num camarada corintiano e lancei: ‘pois é, agora só no ano que vem’. Como eu morro pela minha boca! O Campeonato Brasileiro chegou e com ele havia
Neto jogando como um Maradona (quase, ok). Seu futebol e liderança (muito mais do que “apenas” suas cobranças de faltas) levaram o Corinthians a um mata-mata decisivo. A expectativa era muito grande, e o velho levou seus pupilos a partida contra o Galo Mineiro, pelas quartas-de-finais. A necessidade de um bom resultado em casa, misturado a falta de cancha daquele plantel, fez o jogo transcorrer de maneira absolutamente dramática, digna de um teatro grego da
antiguidade. O jogo era elétrico e o Pacaembu tinha uma atmosfera de guerra literalmente, com bombas e gritos enfurecidos. Faltando quinze minutos pro fim de jogo, o placar apontava a vantagem mínima pros visitantes. Eis que o camisa dez, em dez minutos de jogo, virava o escore e sacramentava a vitória. No primeiro tento me emocionei muito, mas todos ali sentiam, juntos, que o empate ainda não era o orgasmo. Mas no segundo, explodi como nunca. Não havia como
resistir, segurar – como uma avalanche nas montanhas de neve. O aspecto heróico presente, o fraco batendo o forte, os abraços com meu irmão e com outros desconhecidos, os gritos ensurdecedores da massa, a expressão de delírio de meu pai... gozei, digo chorei – e muito, aos berros! Ali eu aprendi a foder no futebol. Fui empurrado para dentro do trem da alegria, como fazem com você no metro de SP as 18 horas (na verdade, em quase todos os horários hoje em dia). E adorei, claro.
Voltei a molhar o rosto e ruborizar os olhos em outras oportunidades: em 93 e 95, nas duas maiores roubalheiras que já vi – e nas duas eu torcia pelo afanado – e ate mesmo com o Brasil de Romário, em Los Angeles (minha grande despedida da seleção). Logo viriam a Nike, a Globo e as Ronaldos-Manias e todos os meus prantos a seguir (e já foram muitos, garanto) viriam acompanhados de um ódio mortal e não mais de decepção ou êxtase esportivo. Desses não quero falar agora. Ate que chegou a Mooca, nossa querida torcida e o titulo de 2007, o “Javarinazzo”
seguido de um milagre no ultimo segundo de uma temporada inesquecível pra mim e pro Juventus - detalhe, hoje faz exatos quatro anos desse dia inesquecível. Como Roberto Gomez Bolaños, fiz Pi-pi-pi-pi-pi-pi... Ali eu renasci no futebol e chorei com tal – e senti, uma vez mais, que nenhum dos choros antes dos grenás tinha esse sabor. Essas minhas memórias clubísticas antes de minha epopéia com os Travessos foram apagadas, sobrepostas pela paixão que descobri no time da Javari. Mas as lembranças permanecem ativas como coisas que vivi, aprendi, sofri e gozei. Hoje, nem ligo mais pra lagrimas de vitorias e
derrotas. Numa guerra, como a que estamos metidos contra o dinheiro, elas são apenas um combustível natural pra suportar a pressão. O mundo globalizado, misturado, onde a Coca-Cola Company promove shows para Chitãozinho e Chororó compartilharem o palco com a “roqueira” Pitty (de acordo, afinal eles representam o mesmo estilo, ou seja, o comercial) e a torcida favelada do Rock Gol da MTV veste camisetas do Mc’Donalds e Banco do Brasil não me agrada nem um pouco. Outro dia liguei nesse programa pra ver se ao menos um futebol que já nasceu
pra ser idiota me agradava. Mas não consegui fitar a imagem por muito tempo. O gramado
sintético e (muitas) outras coisas me fazem enxergar o futebol business em todo lugar. Lá estava, como sempre, o ex-árbitro Edmundo Lima Filho, que foi bandeirinha na final de Viola, em 88, e arbitro principal na final carniceira de 90. E como disse o Bury, o Netão, hoje “comentarista”, realmente comparou a virada de Adriano com essa que acabo de relatar, apesar da gritante distância entre elas. Simples, porque quando se custa caro e se sai de Porsche do Pacaembu, o
negocio tem de ser grandioso, a qualquer custo. Chorei, largado!
quarta-feira, 23 de novembro de 2011
É que a maquiagem ajuda um pouco
Aproveitando que Toro reativou este sítio, contarei uma breve historinha aos amigos.Não via um jogo há umas três semanas. Não havia vontade. O Brasileiro, que todos os envolvidos financeiramente com a competição sacramentam ter "um final emocionante", só me provoca bocejos. Tudo ali recende a morte e oportunismo; cada novo jogo é um velório de 90 minutos com gente a disposta a tudo pela venda do caixão mais caro. Coisa reservada aos nulos de espírito ou aos entusiastas das facilidades modernas (tecnologia, consumismo, conectividade, etc.). Pois bem: fui encarar de assistir Corinthians x Atlético-MG. Não consegui; me perdia em meio a outras coisas mais interessantes. Então o Galo sai na frente - e o Mosqueteiro empreeende uma pressão tão fajuta, tão em acordo com esses tempos de aceitar qualquer carrinho como "raça", que instantaneamente passei a ter nojo daquela vergonha em campo. Era uma pressão desordenada e de fundo medíocre porém já rotulada de antemão como "típica do Corinthians"; a classificação precedia o que acontecia em campo, e assim deveria ser engolida pelos que assistiam, mesmo que esses percebessem ali um time amedrontado com a repercussão da derrota em casa para seus planos pessoais, e não um esquadrão em busca de uma virada a segurar o próprio coração na ponta de uma estaca.
Pois então o orgasmo da mídia (essa entidade que hoje é quem pressiona os jogadores e as agremiações, não mais a torcida) entra em campo: Adriano. Neto já percebe que o "Imperador" não tem condições de jogar, e o diz, até mesmo com certa raiva, no microfone da Band. De repente, Adriano faz o tento que vira a partida. Eu desando a rir, não conseguia parar de gargalhar, tive um acesso de riso como há muito não tinha, pois ali estavam desnudadas as maiores falácias do futebol moderno: um sujeito que, de gordo e aleijado passa a gênio em um piscar de replays; uma torcida que vaiava uma atuação bizarra de seu time e que, em alguns instantes de uma magia que só o hipnotismo coletivo pode proporcionar, passa a considerar aquela uma "virada histórica" (é muita história sendo feita em tempos tão nulos, não?); comentaristas de TV e redatores de sites já com as manchetes prontas, tipo "Adriano salva o Timão", "Virada na raça", "Sofrido como corinthiano gosta" e bobagens assim que não apenas não davam conta da piada que se via em campo, mas que mostravam como nossa época carece (mas não se interessa por isso) de sair do script do lugar-comum... Saí da sala ainda gargalhando; com o cenário todo pronto em minha mente, só precisaria ali continuar se fosse débil mental. No dia seguinte, por prezar minha saúde estomacal, não acessei site algum - somente um, o blog do querido Neto, que, já esperado, mudava seu discurso, agora em prol de Adriano, pois este "calara sua boca". Assim funciona: mude sua opinião de acordo com o lado para o qual o dinheiro e a preguiça mental apontam. Não mais assisti a nada relacionado a futebol ou ao imundo Brasileirão depois disso; e, quando algo surge de surpresa, minha reação imediata é dar risada. Fim.
(Em tempo: o site do garoto Lucas, esse craque que nunca decidiu um jogo, lançado com estardalhaço essa semana, configura-se como um dos capítulos mais constrangedores do futebol em toda a sua história. Não linkarei esse entulho aqui - se tiver curiosidade em ver a maquiagem que o modernismo reserva a seus "meninos de ouro", vá ao Google por sua conta e risco.)
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