terça-feira, 14 de outubro de 2014
A coisa tá assim...
domingo, 16 de junho de 2013
Quem mexeu no meu queijo?
Todos se prostram perante a "grandeza" do futebol de Neymar.
Neymar é a maior aposta do marketing esportivo desde Ronaldo "Fenômeno" (Ronaldinho Gaúcho come poeira, coitado!), a mais efetiva criação dos esquemas extra-campo desde a forjada glória daquela negociação do PSV com o Barcelona em 1996.
Quem cuida da imagem, dos compromissos publicitários, da exposição de Neymar é a empresa dele, Ronaldo "Fenômeno", inegavelmente um ás da auto-promoção que agora empresta seus talentos a outrem.
Neymar joga a Copa das Confederações, transmitida pela Globo - e por ela é tratado como um Deus na Terra.
Ronaldo comenta a competição pelo canal, e sua ligação com o agora "10" da amarelinha sequer é citada. Todos são apenas sorrisos, elogios, contemporizações ("Neymar não jogou bem, mas é que estava fora de posição" etc.) e quetais para com o novo astro do futebol europeu.
Afinal, o que seria do futebol em 2013 se não fossem tantos sorrisos?
quarta-feira, 13 de junho de 2012
Novos mares

terça-feira, 13 de março de 2012
O mundo gira e a planta cresce
"Jogador (insira aqui o nome de qualquer um) é gênio!"Assim funciona um dos dispositivos mais definidores da moderna assistência de futebol: a criação dos "craques". Mas esta, a um observador atento, é facilmente explicável. Tome um neófito, uma criança de 12, 13 anos, por exemplo: quando toma contato com times de uniformes cuidadosamente atraentes, com design arrojado, jogadores de moicanos e tatuagens (visual agressivo porém palatável), gramados verdejantes que aparentam-se à visão de paraíso, toques de bola exaustivamente ensaiados para não darem a impressão de frieza e mecanicidade, audiências civilizadas que aplaudem cada lance - como desinstalar-se daí? É um mundo perfeito servido de bandeja, construído com esmero (e abundantes recursos) para que as percepções se nublem.
A partir daí dá as caras, então, a ignorância histórica - afinal, é necessário parâmetros para se tecer comparações. Como considerar alguém "craque" ou mesmo "gênio" sem a sombra de outro "craque" ou "gênio" a lhe fazer peso para a análise de seus recursos técnicos? Dali, daquele mundo verdejante e comportado no qual o instalaram, o garoto não deseja sair; como algo pode ser maior do que aquela milionária perfeição?, ele se pergunta. Não volta os olhos a momentos vulgares do futebol, Copa de 74, aqueles cabelos desgrenhados, costeletas, aqueles uniformes que colavam ao suor... Este ser, que já possui em si a a (moderna) tendência a amortizar-se, deita na cama, não busca sair do comodismo de sua época, não quer entender o esporte como um todo. Sua estagnação (em plena "era do conhecimento"!) o obriga, sem traumas ou culpa, a exaltar apenas os de seu tempo que, pela ausência de conhecimento, não sabe serem de plástico. E nessa ele fica, como parte atuante da engrenagem que move a mediocridade.
Muitos gênios, em 2012.
sexta-feira, 2 de março de 2012
O show do vazio
Vivo dizendo a um amigo: os de agora, ignorantes históricos contumazes que chafurdam por opção pessoal (ou mesmo por conta de uma inescapável mediocridade intelectual) no imediatismo mais raquítico, PRECISAM que Messi seja o maior de todos os tempos, pois a quantidade de dinheiro e de massiva publicidade que destinam ao jogador é tão sem precedentes que a necessidade de elevá-lo de qualquer maneira a um patamar de Olimpo é imperativa. O que significam os "recordes quebrados" pelo argentino, em tempos de futebol tão destroçado? Tais números sequer conseguem figurar com maior destaque na biografia do 10 do Barça, de tão frágeis (ou irrelevantes) que são se colocados em um contexto de história - apenas demonstram que a presença de um "craque" de tal magnitude não ajudou a fortalecer o futebol, e sim a enfraquecê-lo, para girar viciosamente em torno dessa grotesca mistificação (mistificação essa que a própria figura de Messi, um sujeito pálido, sem vibração, trata de tornar paradoxal a todo momento). Se exageros ainda mais absurdos já foram perpetrados nesse desespero, típico dos nossos tempos, em encontrar relevância em si mesmo (como Ronaldinho Gaúcho, por exemplo, figurar em algumas listas de "maiores" feitas por esses asnos corporativistas que são os "especialistas"), o caso Messi apenas coloca a nu o horror de uma época que busca forjar a própria importância em lugar de ser realmente importante. E o vácuo só aumenta.
sexta-feira, 2 de dezembro de 2011
O horror nosso de cada dia
Como dizíamos desde o início do ano, Ronaldinho Gaúcho faturou uma Bola de Prata. Apesar de todos os esforços da revista Placar, que tentou por diversas rodadas entregar a Bola de Ouro ao grande "mito" do nosso futebol, o campeonato do ilusionismo não conseguiu forçar a barra tanto assim. Mas aí está: o troféu já estava entregue ao jogador desde antes de o torneio começar; jogando o que jogasse, ele a faturaria. O triste de toda a história é ver que a Bola de Prata, que antes, por ser um prêmio menos circense, proporcionava seu prestígio ao atleta premiado, agora faz o contrário: corre atrás, em mendicância desesperada, daquilo que acredita ser uma "grife futebolística" (não importa se ascendente ou decadente) para que estas lhe emprestem um pouco de "importância" e "relevância". Uma contra-mão que tem como objetivo o famoso (e, neste caso, literal) pote de ouro no fim do arco-íris.********************
O Santos logo entra em campo no mundial da pirotecnia - e, apesar de escaldado com os procedimentos do marketing moderno, ainda me causa espécie ver Paulo Ganso, que não jogou esse ano, ser apontado como "craque", ou como "destaque" do time. Uma vez pregada a estrelinha de bom menino na testa da nova geração, é impossível despegá-la. Chega a ser ofensivo dizer aos do atual público do futebol (ou mesmo entre alguns com anos e anos de vivência entre os altos e baixos do esporte) que Pato sequer devia ser convocado para a seleção brasileira, por exemplo. Eles espumam, ameaçam nos morder. Como contestar que Pato é um "craque", um "fenômeno"? Dizer que ele mal entra em campo? Dizer que ele marca uma quantidade irrisória de gols para alguém com sua reputação? Como blasfemar a ponto de falar que o garoto Lucas, do São Paulo, não é um prodígio? Só porque ele nunca decidiu uma partida importante em sua carreira? Não adianta: vivemos em uma redoma de letargia e mistificação barata, e o futebol moderno é um dos agentes mais certeiros para a perpetuação de ambos.
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Kleber "Gladiador" chegou ao Grêmio já com status de "ídolo". É bom lembrar que o sujeito sequer entrou em campo com a camisa gremista. Pelo visto, com todos tão em dia com as obrigações e procedimentos do futebol 2011, nesse círculo vicioso de construções cimentadas com marketing, nem precisaria.
sexta-feira, 25 de novembro de 2011
A mistura de dois que não dá um
Abro espaço para tecer um elogio ao putardo do Bury. Os textos do cara são cirúrgicos, com instinto de “V de Vingança” – acredito que tinham de ser lidos em pleno “horário nobre” da televisão. Ecomo ele contou essa linda historia de seu tragicômico domingo, vou dar continuidade a ela, voltando um pouco no tempo e a alguns domingos passados. Também será sobre o gordo Neto, mas, principalmente, sobre o nosso bom e velho “sangue, suor e lágrimas”, que tanto rivaliza com o “planejamento, execução e merchandising”.
Estava relembrando com um colega de trabalho as primeiras lágrimas que derramamos no futebol. Ele é bem mais novo do que eu, outra geração ate – embora sua mentalidade e atitude não demonstrem isso. Rompeu aos prantos pelo seu Palmeiras-Parmalat derrotado em 1995. Ali, a
sombra do antifutebol já rondava minha alma. Eu debutei pouco antes, em 1985. Desde esse ano, disputei torneios de futebol de salão e, ainda um garotinho de cinco anos no banco de reservas, não resisti aos gols que levamos numa prorrogação que valia titulo. Demorei a parar, ate que minha mãe ofereceu o lanchinho pós jogo e a coisa fluiu rumo a mais uma segunda-feira. Eu aprendia a nascer no futebol. Nos anos subseqüentes, derramei outras tantas lágrimas ao
jogar, mas nunca pela emoção da vitoria; sempre decepção da derrota. O futebol sempre ensinou os jovens a lidar com as adversidades da vida de maneira adulta, enquanto ele foi futebol de verdade. Ao vivê-lo intensamente, as derrotas explodiam na sua cara, assim como o cronômetro, impiedoso, não podia parar – e realmente não há como se esconder num campo de jogo desses. Mas é no futebol profissional que o caldo engrossa – incluso o das lágrimas. Meus olhinhos fitavam a TV, enquanto Zico, Sócrates, Platini e Julio Cesar perdiam seus penais, na épica
partida entre Brasil e França, na Copa de 1986. Não chorei; talvez muito novo, me senti “apenas” assustado e preocupado com o desespero e lágrimas de meus pais e tios, pós desclassificação dos canários. Parecia o anúncio de uma nova guerra mundial, de tão fúnebre que ficou minha casa. A vida seguiu. Vi meu pai, tomado pela raiva, espatifar no chão seus óculos quando D.W. Boschilla apitou o fim do jogo decisivo do Paulista de 1987. A luz havia acabado no bairro bem na
hora do sagrado jogo, e ele acompanhou o prélio num daqueles aparelhos de imagem em preto e branco, que pareciam cinemas para formigas. Enputecido, ele se trancou no quarto e minha mãe, imediatamente, veio correndo, querendo saber o que tinha acontecido. Eu sabia muito bem o que era – e era muito mais do que uma derrota em um jogo. Era o poder do futebol que me encantava cada vez mais; já estava cooptado por ele, e por esse comprometimento que te fazia destruir um objeto que seria útil no dia seguinte de trabalho sem pestanejar – o futebol realmente desintegrava os homens. Mas também não chorei. O velho havia me levado, junto
ao meu irmão e um primo, na primeira partida daquelas finais. Eu estava louco, não podia crer que existia tal universo nesse inferno de vida. Mas, em 1988, eu amadureci. Foi o primeiro ano que acompanhei, de fato (como “gente grande”), rodada a rodada, o Campeonato Paulista e não agüentava mais desconhecer o sabor de um titulo. Quando a ultima rodada chegou, e o Corinthians tinha de vencer o Santos e ainda torcer pela vitória dos rivais verdes (já desclassificados) contra a máquina do São Paulo, fiquei doido. E, do nada, anunciei ao velho: sou
tricolor. Honestamente, episódios como esse me fazem crer que desde tenro garoto já tinha uma intuição de buscar, por conta própria, meu verdadeiro amor no futebol – ate que me encontrei com meu querido Juventus. Em 1995, por exemplo, tinha o pôster de Giovanni com a camisa do Santos no meu quarto – não acho que essa seja uma atitude muito normal de um “corintiano”. Mas voltando a historia, eu tinha de ser campeão, de qualquer jeito. Ate que Gerson Caçapa matou os tricolores e me salvou de ser um Bâmbi. O convite, irrecusável, do velho para
irmos a primeira partida das finais contra o fortíssimo Guarani, me trouxe uma real possibilidade de ser o primeiro. ‘É agora ou nunca! Quem é esse Guarani ai?’. Envolto nessa insuportável expectativa, rumamos ao Morumbi inflado de bandeiras e rojões. Eis que surgiu, então, a famosa bicicleta de Neto – que, por sinal, aconteceu bem na nossa frente. E ali, como acontece com todo choro verdadeiro, eu explodi. Era muito humilhante levar um gol daqueles (ainda mais numa final) e o time adversário era visivelmente superior em campo. Eu não queria acreditar no meu azar. Somado a minha inexperiência de vida (e de jogo, também), o gol me fez visualizar duas goleadas bugrinas nas finais. Me fechei no meu assento e chorei feito um bebê, ate que o primeiro tempo acabara e eu, por fim, me acalmara - sem aquela tinhosa presença da pelota que parecia correr contra meu destino. Acredito piamente que as primeiras lágrimas no futebol têm de ser de tristeza, ou raiva. Como a raiz que vem da terra e troca com o ar seus
fluidos vitais – de baixo pra cima, de dentro pra fora, como toda revolução. Todavia, não chorei de alegria com o titulo de Viola, uma semana mais tarde – talvez ainda novo, um pouco tímido para derramar lágrimas triunfantes. Faltava algo, mas ali eu aprendi a bater punheta no futebol. Por mim, eu podia passar o resto da vida sem outra conquista, outra taça – já tinha passado pelo mais difícil, a perda da virgindade e da falta de gozo. E como ele é bom! Dois anos se passaram. Quem conviveu com o Corinthians nesses tempos, lembra que pós torneio estadual, não havia muito mais esperança pro restante do ano. Assim, quando Silvio e o Bragantino massacraram o time de Marcio e Ronaldo, fui as lagrimas de desespero – bradei pela casa que não iria a escola na manhã seguinte. Fui, mas colei num camarada corintiano e lancei: ‘pois é, agora só no ano que vem’. Como eu morro pela minha boca! O Campeonato Brasileiro chegou e com ele havia
Neto jogando como um Maradona (quase, ok). Seu futebol e liderança (muito mais do que “apenas” suas cobranças de faltas) levaram o Corinthians a um mata-mata decisivo. A expectativa era muito grande, e o velho levou seus pupilos a partida contra o Galo Mineiro, pelas quartas-de-finais. A necessidade de um bom resultado em casa, misturado a falta de cancha daquele plantel, fez o jogo transcorrer de maneira absolutamente dramática, digna de um teatro grego da
antiguidade. O jogo era elétrico e o Pacaembu tinha uma atmosfera de guerra literalmente, com bombas e gritos enfurecidos. Faltando quinze minutos pro fim de jogo, o placar apontava a vantagem mínima pros visitantes. Eis que o camisa dez, em dez minutos de jogo, virava o escore e sacramentava a vitória. No primeiro tento me emocionei muito, mas todos ali sentiam, juntos, que o empate ainda não era o orgasmo. Mas no segundo, explodi como nunca. Não havia como
resistir, segurar – como uma avalanche nas montanhas de neve. O aspecto heróico presente, o fraco batendo o forte, os abraços com meu irmão e com outros desconhecidos, os gritos ensurdecedores da massa, a expressão de delírio de meu pai... gozei, digo chorei – e muito, aos berros! Ali eu aprendi a foder no futebol. Fui empurrado para dentro do trem da alegria, como fazem com você no metro de SP as 18 horas (na verdade, em quase todos os horários hoje em dia). E adorei, claro.
Voltei a molhar o rosto e ruborizar os olhos em outras oportunidades: em 93 e 95, nas duas maiores roubalheiras que já vi – e nas duas eu torcia pelo afanado – e ate mesmo com o Brasil de Romário, em Los Angeles (minha grande despedida da seleção). Logo viriam a Nike, a Globo e as Ronaldos-Manias e todos os meus prantos a seguir (e já foram muitos, garanto) viriam acompanhados de um ódio mortal e não mais de decepção ou êxtase esportivo. Desses não quero falar agora. Ate que chegou a Mooca, nossa querida torcida e o titulo de 2007, o “Javarinazzo”
seguido de um milagre no ultimo segundo de uma temporada inesquecível pra mim e pro Juventus - detalhe, hoje faz exatos quatro anos desse dia inesquecível. Como Roberto Gomez Bolaños, fiz Pi-pi-pi-pi-pi-pi... Ali eu renasci no futebol e chorei com tal – e senti, uma vez mais, que nenhum dos choros antes dos grenás tinha esse sabor. Essas minhas memórias clubísticas antes de minha epopéia com os Travessos foram apagadas, sobrepostas pela paixão que descobri no time da Javari. Mas as lembranças permanecem ativas como coisas que vivi, aprendi, sofri e gozei. Hoje, nem ligo mais pra lagrimas de vitorias e
derrotas. Numa guerra, como a que estamos metidos contra o dinheiro, elas são apenas um combustível natural pra suportar a pressão. O mundo globalizado, misturado, onde a Coca-Cola Company promove shows para Chitãozinho e Chororó compartilharem o palco com a “roqueira” Pitty (de acordo, afinal eles representam o mesmo estilo, ou seja, o comercial) e a torcida favelada do Rock Gol da MTV veste camisetas do Mc’Donalds e Banco do Brasil não me agrada nem um pouco. Outro dia liguei nesse programa pra ver se ao menos um futebol que já nasceu
pra ser idiota me agradava. Mas não consegui fitar a imagem por muito tempo. O gramado
sintético e (muitas) outras coisas me fazem enxergar o futebol business em todo lugar. Lá estava, como sempre, o ex-árbitro Edmundo Lima Filho, que foi bandeirinha na final de Viola, em 88, e arbitro principal na final carniceira de 90. E como disse o Bury, o Netão, hoje “comentarista”, realmente comparou a virada de Adriano com essa que acabo de relatar, apesar da gritante distância entre elas. Simples, porque quando se custa caro e se sai de Porsche do Pacaembu, o
negocio tem de ser grandioso, a qualquer custo. Chorei, largado!
quarta-feira, 23 de novembro de 2011
É que a maquiagem ajuda um pouco
Aproveitando que Toro reativou este sítio, contarei uma breve historinha aos amigos.Não via um jogo há umas três semanas. Não havia vontade. O Brasileiro, que todos os envolvidos financeiramente com a competição sacramentam ter "um final emocionante", só me provoca bocejos. Tudo ali recende a morte e oportunismo; cada novo jogo é um velório de 90 minutos com gente a disposta a tudo pela venda do caixão mais caro. Coisa reservada aos nulos de espírito ou aos entusiastas das facilidades modernas (tecnologia, consumismo, conectividade, etc.). Pois bem: fui encarar de assistir Corinthians x Atlético-MG. Não consegui; me perdia em meio a outras coisas mais interessantes. Então o Galo sai na frente - e o Mosqueteiro empreeende uma pressão tão fajuta, tão em acordo com esses tempos de aceitar qualquer carrinho como "raça", que instantaneamente passei a ter nojo daquela vergonha em campo. Era uma pressão desordenada e de fundo medíocre porém já rotulada de antemão como "típica do Corinthians"; a classificação precedia o que acontecia em campo, e assim deveria ser engolida pelos que assistiam, mesmo que esses percebessem ali um time amedrontado com a repercussão da derrota em casa para seus planos pessoais, e não um esquadrão em busca de uma virada a segurar o próprio coração na ponta de uma estaca.
Pois então o orgasmo da mídia (essa entidade que hoje é quem pressiona os jogadores e as agremiações, não mais a torcida) entra em campo: Adriano. Neto já percebe que o "Imperador" não tem condições de jogar, e o diz, até mesmo com certa raiva, no microfone da Band. De repente, Adriano faz o tento que vira a partida. Eu desando a rir, não conseguia parar de gargalhar, tive um acesso de riso como há muito não tinha, pois ali estavam desnudadas as maiores falácias do futebol moderno: um sujeito que, de gordo e aleijado passa a gênio em um piscar de replays; uma torcida que vaiava uma atuação bizarra de seu time e que, em alguns instantes de uma magia que só o hipnotismo coletivo pode proporcionar, passa a considerar aquela uma "virada histórica" (é muita história sendo feita em tempos tão nulos, não?); comentaristas de TV e redatores de sites já com as manchetes prontas, tipo "Adriano salva o Timão", "Virada na raça", "Sofrido como corinthiano gosta" e bobagens assim que não apenas não davam conta da piada que se via em campo, mas que mostravam como nossa época carece (mas não se interessa por isso) de sair do script do lugar-comum... Saí da sala ainda gargalhando; com o cenário todo pronto em minha mente, só precisaria ali continuar se fosse débil mental. No dia seguinte, por prezar minha saúde estomacal, não acessei site algum - somente um, o blog do querido Neto, que, já esperado, mudava seu discurso, agora em prol de Adriano, pois este "calara sua boca". Assim funciona: mude sua opinião de acordo com o lado para o qual o dinheiro e a preguiça mental apontam. Não mais assisti a nada relacionado a futebol ou ao imundo Brasileirão depois disso; e, quando algo surge de surpresa, minha reação imediata é dar risada. Fim.
(Em tempo: o site do garoto Lucas, esse craque que nunca decidiu um jogo, lançado com estardalhaço essa semana, configura-se como um dos capítulos mais constrangedores do futebol em toda a sua história. Não linkarei esse entulho aqui - se tiver curiosidade em ver a maquiagem que o modernismo reserva a seus "meninos de ouro", vá ao Google por sua conta e risco.)
Mudanças necessárias (e amargas)
Inspirado por dona Tota, ouvindo Alice in ChainsA permanência de Neymar no futebol brasileiro não significa uma vitoria do mesmo sobre o de fora, por favor! Significa business, planejamento, portfólios e marketing. Sou formado em Publicidade e dependente químico de futebol; dessas coisas aí eu até conheço um pouco. Se ele for pra Europa, primeiro vai ter que dividir a atenção com outros menininhos que já adquiriam esse status de Deus, tipo uns Cristianos e Lioneis que andam por lá - de Ferraris, claro. E dividir no business (o sinônimo de futebol hoje) significa menos bufunfa, nego! Olha o perigo, ai! Não podemos esquecer também da adaptação, sempre difícil para Sócrates ou Violas (tanto faz sua formação de vida). Você estará longe de tudo que sempre te cercou. Nem mesmo jogando bola e enchendo o cu de dinheiro, às vezes, compensa o esforço, e seu rendimento em campo pode (como muitas vezes já vimos em outros players) piorar – e muito. Pra que ver Neymarzinho rebolando de clube em clube, de fracasso em fracasso como seu heroizinho Robinho? Nada que vá atrapalhar sua participação da seleção da Nike. Pra se chegar nela hoje, basta vender - sabemos disso. E as vendas virão lá ou cá, jogando bem ou não, porque sempre se joga bem nas mesas dos publicitários e empresários. Mas será muito melhor vestir a antes sagrada – hoje, mais do que profanada – amarelinha sem esses atritos de imagem. Outro aspecto importante, é que não há mais diferença entre o futebol de lá e do cá no que diz respeito à carreira e outras coisas. Agora temos, aqui na terra das bananas, a mesma liga de 38 rodadas, o calendário, estádios (e alma) cada vez mais “europeus”; se não temos a Sky alimentando toda essa parafernália (tenham inveja, putos saqueadores!) aqui está dona Rede Globo pra fazê-lo. E graças a toda esta investida covarde que aqui sempre citamos, o Brasil tem hoje uma classe de consumidores do futebol tão potente quanto à de um país de primeiro mundo. Consumir é fácil, consome-se com avidez ate escovas de cabelos, amigo! E apesar do futebol não encontrar quase nenhuma diferença mais entre os diferentes torneios (ate porque todos eles estão recheados com jogadores do mundo todo), aqui, sabemos, o nível dos clubes médios e pequenos está cada vez mais paupérrimo e isolado de qualquer disputa com os da “elite”- e na verdade, isso também não tem muita diferença com o que vem acontecendo no velho continente. Sobraram, no “país do futebol”, os 12 grandes (num território que abrangeria quase toda a Europa; sinceramente esse número pra mim não é baixo, nem alto e, sim, absolutamente normal) e assim se disputa o “melhor campeonato do mundo”. Portanto, fazer Neymar ficar é fazer (muito) mais dinheiro. É apenas mais uma nova fase da investida capitalista no espírito esportivo e, conseqüentemente, da destruição do mesmo. Sinto muito, mas nós, do Antimídia, não compramos essa balela que tentaram nos fazer engolir. Abro a Folha de SP hoje e vejo a manchete “Não a Ronaldo”. Poxa! Seria um milagre dos deuses do futebol? Alguma – por fim – critica ao primeiro e onipresente deus do futebol mercantilizado? Que nada, Torito! O “não” que o Santos teria dito ao Real Madrid e a seu procurador Nazário - o novo “homem”empresário – só reflete na reportagem a promoção dessa nova fase de Ronaldo e os rios de dinheiro, claro, que ela vai trazer consigo. Foi apenas mais uma pecinha nesse quebra-cabeças, um estímulo a mais pros leitores receberem em suas consciências amortizadas pelo novo futebol, onde sumiu a expressão “mercenário”de tanto que ela se coloca como regra hoje pros players e afins. Tanto que no Uol – da “respeitável” Abril – nem havia mais um “não”estampado (esse que tanto dizemos, mas com o coração); estava lá, direto, a manchete de que o Fenômeno havia feito uma oferta por Neymar. Faz-me-rir! O açougue continua funcionando no futebol mercantilizado, gente! Amaciando e depois perfurando. Os deuses realmente estão onipresentes, nem precisam mais viajar além mar; aqui é a terra deles e de suas contas bancarias! E nos aqui, metendo o pau em tudo o que vier pela frente! Aguanten el blog de la locura!
...E Diós ficou órfão: lembro da historia do vestiário argentino, antes da partida contra os ingleses, na Copa do México, em 1986. Diego, sentindo todo o peso da nação, começou a chorar e gritou pela mãe “tiengo miedo, Tota! Tiengo miedo!”. Não houve convulsão, porque esse é O verdadeiro! Passada a explosão, virou-se a todos e gritou pela vitoria que ele traria (quase sozinho) dali alguns minutos – o maior de seus milagres! Dona Tota fora recebida com toda alegria e força que merecia na sua morada esperada. Forza Diego! Sempre estaremos contigo!
domingo, 20 de novembro de 2011
¡Canchatumadre!

Depois de minha trilogia da amargura, volto a girar minha metralhadora. Há um “detalhe” (curioso e perturbador) à respeito dos estádios de futebol nestes idos correntes: os espaços para os “ricos” e para os “pobres” foram completamente invertidos de papéis. O que se vê hoje é o futebol elitista, sonho de tolos do início da história do jogo, que queriam aquele jogo
“só pra eles”. Desde que o futebol saiu das galerias das escolas britânicas e das pompas da “alta sociedade”, que promovera em primeira mão aquele espetáculo, os estádios tomaram aquela mágica forma de, aproximadamente, 75% para o povão (setores populares, no cimento) e o restante para os mais abastados, que podiam comprar uma entrada mais cara do que os demais e
desfrutar do jogo todos sentados e com cobertura contra possíveis intempéries do tempo. Foi tudo natural; a demanda exigiu esse desenho e assim nasciam os campos mundo afora. Devido à volúpia da massa, que começou a viver a paixão desse jogo inigualável, as festas não tinham precedentes na história do esporte, o grito de gol tornou-se o orgasmo fora do sexo – embora tão
descontrolado quanto. Assim explodiu na cara do planeta o filho retardado do rugby. O tempo passou, chegou o maldito futebol modernista e a coisa, em torno dos dez anos, se inverteu por completo – e ainda continua a piorar. Se pararmos para analisar os campos de futebol de hoje,
vamos conferir que quase todo o ambiente está recheado com as classes A e B (atenção os da B; já tem hora marcada pro fim de seu deleite também), enquanto o povo vem sendo (literalmente) chutado para fora dos mesmos. O espaço onde se identificam os verdadeiros torcedores está cada vez mais diminuto – parece, as vezes, até uma jaula de zoológico (a Arena de Amsterdã tinha um setor desses já no seu projeto inicial, em 1996), onde ficaria o exótico, o diferente. Pois o
comum, o padrão, agora é aquele torcedor que só vive pela vitória (não sabe lidar com os outros dois resultados possíveis no escore –bem típico de um consumidor que exige “sucesso” a qualquer custo), compra todos os produtos idiotas do seu clube, não canta absolutamente nada (vale lembrar que o canto é a arma de um torcedor) e segue, de olhos fechados e coração aberto (eita combinação perigosa!) tudo o que o molde da mídia manda (e desmanda, também). A
atitude cada vez menos da vazão pela tradição de seu clube e cada vez mais de sua autopromoção
e presença (quase que somente) física nas bancadas – todos loucos pelas câmeras de TV (ou de celulares, idem)para forçarem uma lágrima ou expressão de delírio, susto ou qualquer rostinho deformado que imprima pro outro lado das telinhas algo que deve ser real, mas que nem sempre surge efeito ali mesmo, in loco, nas canchas, onde estão seus players e sua camiseta. Alias, fica aqui um aviso para esses momentos, onde os escolhidos pelas câmeras beijam seus escudos: fiquem atentos
se seus lábios não estão tocando também um dos diversos anúncios, que hoje inundam sua malha. E, realmente, nada está tão ruim que não possa piorar um pouquinho. Em 1995, mister Fernando (In) Capez determinava o fim das festas nos estádios. De lá pra cá, essa “tendência” está acelerando, deixando para trás a alegria e impondo o controle. Assim se constrói uma nova Broadway. Lavagem cerebral bem feita vem carregada de muita diversão e é feita vagarosamente,
para abafar qualquer percepção de manipulação, que agride quem não está alienado a ela. E a sociedade aceita passivamente e segue sua vida mundana, material. Sobre os estádios europeus (a musa do restante) nem sobram muitas palavras. Nem a privada da Rainha da Inglaterra deve ser tão asséptica quanto o campo do Manchester United, por exemplo, - ironicamente chamado de Teatro dos Sonhos (pesadelo ficaria bem melhor, agora). O Santiago Bernabeu, campo dos
merengues de Madrid, deve ter algum mecanismo para repelir qualquer manifestação
que não seja digna de reis – por que não lhes calam? E isso piora a cada corajosa bisbilhotada que dou, provavelmente a cada seis meses, pela ritmo que está minha vontade de ver o novo futebol. Vejam: nada contra o limpo e o burguês no futebol (afinal, ele é pra todos). Mas necessitamos de nosso cimento, nosso alambrado, nossos urros e gozos. Não me sinto um “animal” por estar atrás de uma grade – senão me sentiria assim num parque de diversões, por
exemplo. Nós, torcedores, nos tornamos animais quando somos tratados como tais pelas autoridades que organizam o jogo: com ingressos caríssimos, abuso de poder, com controle do que podemos e não podemos cantar, falar e – tudo isso – assistindo espetáculos cada vez mais fraquinhos e previsíveis pintados de épicos. E essa luta de classes no futebol não significa que somente das mais baixas na escala podem sair os verdadeiros torcedores a que me refiro sempre. Quem já viu Roberto Justus hinchando sabe do que estou falando. Mas a minha metralhadora de
hoje reflete o fuzilamento poético da maioria da população e o corte na raiz da atitude natural de ser num campo de futebol – dispensada sem honra, nem mérito. A atitude tem de vir sempre acompanhanda da mentalidade, como o yin e o yang. E este quadro pode, sempre, piorar, pelas mãos e mentes dos chefões da pelota. Mesmo que um torcedor venha das classes mais baixas, sua mentalidade e atitude já podem estar muito bem corrompidas pela nova ordem, que reflete a vida das “altas”: vide os celulares ligados e apontados sei lá pra onde, no exato momento em que seu time está fazendo um gol - sinceramente, isso pra nós do Antimídia é algo inadmissível. Ou então, novamente citando, essa exigência imediatista de vencer, como está acontecendo com o Palmeiras – que pra mim não está sofrendo nada mais, nada menos do que os efeitos do câncer do novo futebol, como todos os outros clubes estão ou vão sofrer, cedo ou tarde. Coisas assim não podem mais perpetuar. Bom domingo à todos – sem futebol “profissional”, por favor!

