
Pois o que mais me deixou assustado foi ver a total passividade daqueles que transmitiam a partida. Mesmo com a imagem ali, evidenciando que nada havia acontecido e que o juiz errara clamorosamente, com prejuízo considerável para um dos lados, o tom dos comentaristas era de "ah, ele errou sim, mas não vamos nos preocupar com isso". Ninguém manifestou indignação, repulsa, aversão, nada. Pelo contrário: riam, como se isso fosse somente um inofensivo folclore, e discorriam sobre suas notas para o "prêmio Armando Nogueira". Quando falavam do lance, tateavam, com receio de demonstrar alguma certeza: "olha, eu acho que não foi nada, hein?". Claro que são tão covardes e omissos quanto o apitador - mas o que me saltou às vistas foi que esse é o comportamento típico do brasileiro, o ser que não desiste nunca. O atual escândalo do Senado, que, assim como o video-tape fez na partida, trouxe tantas evidências para a deposição imediata do presidente Sarney (e isso não aconteceu), mostrou que o brasileiro tem como hábito varrer tudo para debaixo do tapete, dizendo: "ah, esses políticos são todos iguais, sempre roubam e não mudam". E vai lá e vota nos mesmos parasitas de novo. O ciclo vicioso não se rompe nunca, porque somos um povo já moldado para a submissão. Os tais "brahmeiros", que não se importam de viverem esmagados, conquanto possam ter sua cervejinha no fim de semana. Para quê levantar a voz, se as coisas são assim mesmo?
Logo, logo, o tal Ricardo volta a apitar um jogo do "Brasileirão" - afinal, como gostam de dizer alguns analistas, o futebol "é apaixonante por isso". E assim, enamorados e medrosos, prosseguimos.