segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

O que vou fazer quando a festa acabar?

Já fizemos algumas postagens aqui para comentar o inexplicável: Felipe Melo ser tratado a pão-de-ló por Dunga, na seleção brasileira, e pela Juventus de Turim, que o comprou por uma fábula da esperta Fiorentina, que repassou o jogador rapidinho e capitalizou barbaridade com isso. Pois bem: algumas semanas atrás, a realidade voltou a bater à porta do garoto, e ele foi eleito o pior estrangeiro do Campeonato Italiano, o popular Italianão. Nesse caso, não é preciso nem levar em conta o caráter altamente humorístico do prêmio - por vias tortas ou não, eles acertaram em cheio.

Melo nunca havia conseguido ser sequer titular nos três clubes nos quais esteve presente no Brasil - Flamengo, Cruzeiro e Grêmio. Não só isso: de todos ele foi enxotado, saído pela porta de trás, transformado em refugo e em peso morto para trocas em negociações de outros jogadores mais ou menos. O empresário do cara, já em desespero, tentou a última saída para um atleta em vias de fracassar 100% em uma carreira que prometia: o Eldorado europeu. De repente, lá surge Melo, brigador e raçudo, com a camisa da Fiorentina, depois de perambular sem brilho (como de costume) por alguns timecos espanhóis - e Dunga, sempre ligeiro, já o convoca para seu selecionado, orgulhoso por ter "descoberto" tamanho "talento". Do nada, ele passou a ser tudo. Em ascensão vertiginosa, foi à Juventus de Turim, clube que investiu uma dinheirama danada em seu passe, e lá foi recebido com pompas de xerifão do meio-campo. A fraude durou um magro par de anos: Felipe Melo está de volta, agora, aos tempos de Mengo e Cruzeiro, vaiado nas substituições, contestado no time titular, eleito o pior do torneio que participa. A carruagem transformou-se em abóbora.

Dunga aqui não dá o braço a torcer, e diz que seu menino de ouro joga em posições diferentes na seleção e na Juve. Como, agora, justificar a queda de alguém que o treinador "descobriu" e que se mostra um embuste dessa magnitude? Ora, se o manda-chuva observasse o currículo pregresso de Melo, veria que não era possível que alguém tivesse passado a ser craque assim, de uma hora para outra, depois de 10 anos batendo cabeça para obter ao menos a titularidade de times com expressão zero (Almeria, Racing Santander, Mallorca...). Isso absolutamente não existe para além dos vorazes reinos do marketing e dos assessores de imprensa. Viveu um bom momento na Fiorentina, mas foi extra-valorizado ao ponto do absurdo. Agora sim as coisas estão em seus devidos lugares. O próprio Dunga já mexe seus pauzinhos, e a convocação de Fábio Simplício nos últimos amistosos não foi à toa, não. O mundinho mágico dos clubes europeus e dos programinhas esportivos do horário do almoço possuem esse poder: ao mesmo tempo que lhe tornam um fenômeno, podem lhe atirar aos leões num piscar de olhos. Depois não diga que não avisamos antes...

(Para encerrar: alguém ainda agüenta o companheiro de Melo no meio-campo canarinho, o tal de Gilberto Silva, um dos maiores burocratas da bola? É cargo de confiança isso, assim como acontece em repartições públicas?)

sábado, 19 de dezembro de 2009

"Daily uma Porrada" - edição # 2


$- Volte Simone Melo! Assim foi Renata Fan às jogadoras de futebol, nos estúdios da Band: “como é o assédio dos garotos?”. Baseado em tal questão, formulo outras subseqüentes: para que ela precisa do diploma (que repetidas vezes afirma ter, rebatendo piadas sobre sua origem no jornalismo esportivo) se vais a fazer perguntas desse nível? Por que não levar jogadoras de futebol (e a Fan junto, claro) para um programa feminino da tarde, muito mais apropriado ao assunto sexual? Por que minha mãe, minha vó ou minha tia não podem apresentar programas esportivos desse nível? Por que os programas de futebol não falam mais de futebol e ocupam com asneiras seu tempo (que é caro uma barbaridade, diga-se de passagem)? Por que o futebol não acaba logo, de uma vez, para que eu possa descansar em paz, assistindo jogos de bocha na querida Mooca? Por quê???!

$- Um gênio como bobo da corte! Marcelo Surcin contratado para ser o “cara”, para funcionar como marketing (?) no ano do centenário corintiano? Faz-me-rir! Ele sempre foi o “cara” em campo, e continua sendo, colocando abaixo dele inclusive os “craques” da moda como Fred, Léo Moura, Douglas, Val Baiano, Hernanes, Tayson, Carlos Alberto, etc.

$- Prêmio para os burros! Ver o tal de Simon arbitrando um jogo pelo Mundial da dona FIFA foi ter, uma vez mais, a certeza de que o futebol está perdido, pois seus valores estão inversos e a imagem (não os erros e acertos, o nível técnico) é o que conta, no fim das contas. E quantas e volumosas contas, puta que pariu! Se bem que, se não fosse ele, quem iria? Há alguém no Brasil à altura dessa responsabilidade? Como no campo, a arbitragem foi nivelada pela mediocridade. Então, dá-lhe o gaúcho outra vez! Até que ele se aposente e vá comentar prélios ao lado do Galvão. Haja saco, amigo!

$- A punição ao Coritiba saiu rapidinho, hein?! Quem disse que a justiça no Brasil não funciona? A família daquele torcedor são-paulino que morreu no ano passado, vítima de um disparo na nuca, por um policial despreparado e covarde, ainda espera pela mesma rapidez da justiça – que, de fato, é cega e só funciona pelo toque (de uma boa graninha). A autoridade é o soldado que defende as finanças. Punir torcedor é limpar os centros comerciais, chamados de arenas para as famílias. E pior, não basta punir quem errou. Como ocorre em São Paulo, há mais de 14 anos, todos são banidos e censurados, impedidos de carregar uma bandeira. O erro da invasão ao campo – se assim pode ser qualificada – recaiu, uma vez mais, sobre todos aqueles que amam ir ao estádio e fazer festa. É a velha incompetência que se justifica nos programas de debate esportivo-financeiro, que não discutem o ponto de vista de quem ama seu clube, senão de quem consome seus produtos caros e modernos, de maneira obediente e de bico calado! Para isso a justiça esportiva aí está. Os frutos podres de Capez contaminado a quitanda de Teixeira!

$- A Rede Globo não aprende! Tudo bem que argentino tem para a emissora o mesmo efeito que um judeu tinha para Adolf Hitler, mas no futebol alguns fatos são indiscutíveis. Com urgência, alguém deveria ensinar aos globais que no Mundial estão os melhores times dos continentes. Até mesmo enquanto o Estudiantes vencia a partida contra o Barcelona, os microfonados insistiam com a balela de que este foi um ano terrível para o futebol argentino: “este título vai dar uma limpada, pelo menos”. Será que antes do jogo final entre São Paulo e Milan, pelo Interclubes de 1993, os mesmos cidadãos teriam a mesma opinião em relação ao ano futebolístico brasileiro? Ou teria sido “apenas” a vitória em Tóquio, com o fantasmagórico gol de Muller, que fez toda a diferença para o balanço futebolístico tupiniquim? Tenho certeza que não, e aí reside o veneno da manipulação. Porque se foi humilhante o selecionado de Maradona sofrer 6 a 1 em La Paz este ano, há 16 anos, na mesma cidade, foi sufocante ter de assistir a primeira derrota da história dos canarinhos em Eliminatórias (placar de 2 a 0 para a Bolívia de Baldivieso, com direito a um frangasso de Taffarel). E ambas as equipes alcançaram o único objetivo, aliás, das competições que sediaram tais tristes jogos na história de Brasil e Argentina ao vencer os uruguaios, no “apagar das luzes”, e se classificarem para os respectivos mundiais. Outro fraco argumento que os “especialistas” martelam para justificar a “pobre temporada” argentina é a crise financeira que tirou do cenário internacional os dois gigantes de lá, Boca Juniors e River Plate. Lapsos de memória devem sofrer, pois naqueles idos o futebol brazuca penava e se arrastava, como sempre: a volta do Grêmio para a primeira divisão após mais uma virada de mesa ridícula da CBF, que tornou o Mentirão inchado e sem sentido (vários clássicos não aconteceram por culpa de uma tabela infantil), a rendição do Palmeiras aos caprichos financeiros de uma multinacional para se salvar – sem contar que depois de mais de 35 anos, meu Juve caía para a segunda divisão no regional, o que pessoalmente torna o ano tão doloroso quanto este que se vai. Mas com o timaço de Telê arrebentando os adversários e vencendo a Libertadores, nem esses elementos poderiam fazer de 1993 um fiasco para o futebol local do Brasil - e acredito que tampouco uma possível derrota para o Milan o faria. Seguimos ouvindo os falsos profetas vomitando meias-verdades em nossos ouvidos, como se estes fossem pinicos. Menos, Batista! Os anos citados não foram nem terríveis, nem arrebatadores para os dois países, e sim temporadas comuns, com conquistas e fracassos, na eterna reconstrução de um cenário continental submisso ao europeu. Quanta falta fez o termo “imparcialidade” na educação do tal de Roberto Marinho! Que Diós nos ajude!


Nota: um beijo no coração de cada hincha de Rosário Central - 14 años del 4 a 0! 38 años de la Palomita de Aldo Pedro Poy!

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Papo de Bueiro


Passar um domingo na companhia de Simone Melo, Elis Marina e Elia Junior – apresentadores do saudoso programa ‘Show do Esporte’, da TV Bandeirantes - era como estar num clube de campo, ou num parque público, absorvendo os maravilhosos benefícios que a prática esportiva pode oferecer. Talvez não fisicamente, mas mental, podem ter certeza. Você sentia que alguém lutava pelo futebol, pela natação, pelo pugilismo, vôlei, basquete, enfim, alguém se importava. O chefe da turma, Luciano do Valle, tecia incontáveis críticas a falta de incentivo do governo, apontava sua importância na formação dos mais jovens, promovia eventos no verão – toscos e, ao mesmo tempo, deliciosamente divertidos - e as transmissões dos campeonatos (Calcio de Maradona, Paulista de Biro-Biro, etc.) eram tão autênticas que não se apaixonar por elas era quase impossível. No domingo retrasado (6 de dezembro), a mesma emissora apresentou-nos mais um episódio da novela intitulada ‘Papo de Boleiro’, onde “jogadores” são exibidos como mercadorias, e os “repórteres” funcionam (apenas) como o Lombardi funcionava para o Sílvio Santos. Os domingos não são mais os mesmos, e a TV Band (bem mais “moderna” e alimentada pelo investimento de inúmeras marcas milionárias) se mostra descompromissada com as condições miseráveis do esporte e da educação brasileira. O produto exposto na prateleira ‘Band Esporte Clube’ desta vez foi um dos mais requisitados no mercadinho da bola, Ronaldo Gaúcho. E, como não poderia de ser, vimos um festival de falsas promessas e medíocres análises de sua carreira. Apesar de a chamada prometer que ele “falaria sobre tudo, sem medo da verdade”, exponho aqui três trechos marcantes que desmentem não somente o que o anúncio rezava, como também muito da carreira enganosa deste player. A única coisa que eu esperava ver, e que realmente aconteceu foi o clima descontraído que os dois elementos na tela mantinham, mesmo quando o assunto era uma derrota, ou algo negativo na história conturbada do irmão de Assis. O intuito ali não era cuidar, questionar, reformar, aparar ou avançar, e sim, ‘passar um pano’, ilustrar e vender! Vamos aos alarmantes fatos.

Quando o assunto foi os jogos olímpicos que o atleta disputou a coisa fedeu: sobre a humilhante derrota para Camarões, em Sidney (2000), o tal “craque” se dizia chateado pelo acontecimento “inexplicável” – visto que o time africano anotou o gol derradeiro atuando com três jogadores a menos do que o escrete amarelo. Bem, isso é verdade, aquele foi um jogo para entrar para a história, daqueles com o bom e velho requinte de ‘Davi versus Golias’ (que acontece com freqüência cada vez menor). O que nenhum dos dois teve a coragem de mencionar foi o fato de que no lance que originou o gol fatal, quem perdeu a bola no meio de campo (propiciando o inesperado contra-ataque), de maneira infantil e egoísta, foi exatamente Ronaldo Gaúcho. Detalhe, nada mais, não? Eu acreditei, por certos minutos, que o assunto seria tratado dessa forma, e que Ronaldo pudesse explicar o que tentou naquele lance (alguém aí se lembra da insurreição ao craque Toninho Cerezo?). Mas eu teimo eu viver o futebol como fui ensinado, onde o valor tem que estar vinculado ao que se faz em campo – quando o que hoje conta é muito mais o que se faz na telinha mágica. Sobre a outra decepção – aquela em que o player em questão fora convocado por Ricardo Teixeira e recebeu o apelido de ‘Patrão’ – novamente o atleta deu de ombros, se mostrou decepcionado, mas fez questão de afirmar que, apesar da derrota (3 a 0 para a Argentina), o que valia era representar o país. Como ele representou também não me pareceu um assunto importante a ser discutido; estar ali, sorrindo e aparecendo no telão parece ser o total significado de ‘representar a pátria’ para o sujeito. Ponto negativo para o papo.

Em seguida, o clima “esquentou” ao papearem sobre sua saída do time que o formou profissionalmente, o Grêmio de Porto Alegre. Impossível não lembrar que o camarada saiu de forma tristonha, rotulado de mercenário pela torcida, quando se devia esperar que um “ídolo” como ele, deveria sair como herói, e não vilão. Andando de mãos dadas, em intenções e argumentos furados, “repórter” e “jogador” se esforçaram para demonstrar que o que houve foi um grande mal-entendido, e que o jogador havia sido vítima da situação. Como o clube brasileiro precisava de dinheiro, e o europeu (no caso, o PSG, da França) o tinha para comprá-lo, as duas partes ficaram satisfeitas e ele tinha que seguir com sua vida, seu “trabalho”. Vejam, crianças, neste joguinho de interesses a torcida, o torcedor (aquele que está sempre ali, ano após ano, apoiando de verdade o clube, e sofrendo todo o tipo de abuso) não conta como parte interessada. Torcedor não é para ter opinião, muito menos para protestar! Sua opinião é oca para os investidores – melhor até não ter nenhuma, e sim bom gosto para consumir. Mais assombroso ainda, a emoção do torcedor também não conta mais para o jogador, tampouco para o repórter – aquele que jurou fazer de seu trabalho o retrato dos fatos e, como o médico que atende somente mediante pagamento, prostitui assim sua palavra e honra. Não há mais o sentimento de quem alguém, além de você mesmo, cuida do valor do esporte, se importa. Ele se assumiu gremista de coração: "um dia volto a vestir esta camisa" – descuidado, fez uma promessa que, justamente neste ano, seu mais famoso xará (porque são tantos que até me perco, às vezes) não foi capaz de cumprir, em relação ao Flamengo. Outro ponto contra!

E para encerrarmos o fluxo de merda que escorreu pela tela, abordamos o famoso tento decisivo que este gaúcho anotou contra a Inglaterra, no certame de 2002 (vitória brasileira por 2 a 1). Na ocasião, Ronaldo bateu uma falta perto da lateral direita e a bola acabou por encobrir o arqueiro inglês, caindo dentro do gol, no ângulo direito da meta. Primeiro, há que se dizer que apenas por trazer este assunto – da maneira como foi feito - já se via que vinha mais masturbação pela proa. E se Ronaldo não teve coragem para discutir temas errôneos e polêmicos na carreira, que dirá de um gol que ajudou, e muito, construir sua imagem de “craque” ao ser repetido inúmeras vezes - ao contrário daquele contra-ataque aos camaronenses, por exemplo. Magia das mesas de edições espetadas por bebidas energéticas - os novos agentes do futebol! Bem, desde o segundo seguinte ao lance tive a nítida sensação de que foi um chute para encontrar o cabeceio de outro jogador, e que o feito teve muita ajuda daquela ocasional sorte que (por bem) sempre fez parte deste jogo magnífico. Mas como não sou nem Deus, nem o autor da obra, era impossível ter plena certeza disso. Graças ao instrutivo ‘Papo’, e a argumentação do atleta para o lance, esta dúvida não mais existe: “não era para colocar ali onde ela entrou, mas era para meter no gol”, afirmou Ronaldo (às descontroladas e superficiais risadinhas de ambos). Insuportável o cheiro de podridão no ar, de uma forçada tentativa de parecer um garotinho gente boa. A covardia o cegou de que ali estava a oportunidade para demonstrar uma verdadeira e natural humildade - que tanto imprimem às áureas dos milionários players, e que se ressente nas atitudes e palavras deles. Qual seria o problema de assumir que a intenção era cruzar, e a bola acabou dentro da meta? Acredito até que seria mais irônico e provocativo ao derrotado – isso se ainda se importassem com algum espírito coletivo, em detrimento da purificação e engorda de suas contas bancárias. Qualquer pessoa que já tenha chutado uma bola, disputado uma partida de futebol – na várzea, ou profissionalmente, que seja - sabe que a única maneira de alguém chutar direto ali era, exatamente, colocar a bola onde ela entrou, ou no ângulo inverso – o que faria do seu chute algo bem mal feito, não justificaria suas risadinhas, e implicaria na explicação de onde, então, ele queria chutar. Ainda que os jogadores não treinem mais os fundamentos do jogo – e não por coincidência (e, sim, por conseqüência) o nível técnico está paupérrimo - não seria nada impossível um craque fazê-lo com intenção, ainda que naquela posição inusitada do campo (quem viu Zico, Neto ou Marcelinho executarem tiros livres atesta a favor). Mas se ele não queria colocar a bola ali, ia jogá-la onde? Nas mãos de Seaman? Faz-me-rir! Nem mentir como Bilardo e Edmundo, nem tirar um sarro como faziam Higuita e Viola esses “craques” sabem. Trezentos pontos negativos, pelo conjunto da obra!

Ao final do espetáculo, o "Patrão" disse que se não fosse jogador, trabalharia num circo. Possivelmente a mais inteligente declaração de todas – embora sua atuação como ator, modelo e (com conhecimento familiar, por que, não?) empresário não lhe caem mal. Sendo assim, emendo-a de primeira ao citar Franz Beckenbauer, que recentemente desabafou: “Robinho parece jogador de circo. Se jogasse com simplicidade, poderia ser um grande jogador”. O mesmo vale para este gaúcho, e para tantos outros que aí estão - pintados e bordados de semideuses do futebol. Engraçado como as coisas tem sempre dois lados funcionando. Bury e eu tivemos a idéia de um circo para os ‘malabaristas da bola’, já na época de Sávio e Denílson. Mas nós somos dois doentes por futebol, e não ganhamos um centavo com isso. Sabemos que o Kaiser faz parte daquela turma de ex-jogadores (Pelé, Platini, etc.) que estão sempre a puxar o saco da FIFA e de seus amiguinhos. Acredito que, com uma declaração pública dessas, sua paciência tenha se esgotado – e para provocar isso, podem ter certeza, Robinhos e Ronaldos são mestres. Peço desculpas aos eventuais freqüentadores deste sítio, tanto pelo titulo, quanto pelas palavras de baixo calão relacionadas ao mesmo. É que eu necessitava elevar um pouco o nível tratando de um assunto como este. Um beijo na alma de Simone, Elia e Elis - de alguém que se importa!

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Parem o "Mundial" que eu quero descer!


Burro, estúpido e teimoso. Liguei a televisão para assistir ao jogo do Estudiantes de La Plata, válido pela semifinal da tal ‘Mundial da FIFA de clubes’. Não posso dizer que me arrependi totalmente, porque mesmo morto o futebol exala magia, desta feita personificada na estupenda vibração e cânticos da hinchada do Pincha. Mas sempre faço questão de dizer o quão decisiva é a proporção das coisas modernistas, na balança entre o que é relacionado à arte e ao dinheiro. Acredito que o que vou relatar, a partir de agora, encontra motivação no cheiro das verdinhas.


A alma que encobre as transmissões da Rede Globo me enoja: tudo tem que ser vendido, com tons mortais de publicidade barata, fria e imediata. Até o momento em que o time argentino vencia por 2 a 0, nada fora da comum mediocridade era ouvido. O nível atingiu a maldade quando o time do Pohan (um nome que me soava oportuno para a ocasião) anotou um ponto em total impedimento. O autor ilegal, um tal de Denílson, iria se transformar no grande personagem da fábrica de ilusões dos Marinho. É importante que se diga que este camarada é daqueles que, se aproveitando das brechas infames do futebol modernista, se mandou do Brasil e rodou por vários países de futebol inóspito e planetas distantes, até aterrissar neste torneio do ano do capeta - portanto, desconhecido do povo de seu país natal. Mesmo assim, era evidente que a oportunidade da emissora tirar aquela casquinha essencial pra cima dos argentinos estava incorporada naquele sujeito. Mesmo com a imagem vomitando a ilegalidade do gol, o fato do placar ter sido alterado à favor do time ‘brasileiro’ fez com que tivesse início a velha histeria dos “especialistas”. Minutos depois, o goleiro japa foi expulso num lance emblemático do futebol de hoje, onde a imagem espalhafatosa de sua saída errônea já justificaria o cartão vermelho. Não houve repetição do lance, ainda que ao vivo ficasse claro que não houvera violência para tanto. É a mera imagem do que poderia ser violento que já determina que um player seja retirado do campo de jogo. Autoridade, autoridade, autoridade. Onde estaria aquela arbitragem (irritantemente, até) impecável, que boa parte da escola européia desfilava até pouco tempo atrás? O camarada do apito, ontem, é um daqueles que está na moda - deve inclusive ser um dos mais cotados para arbitrar a final da próxima “Copa do Mundo”. Infelizmente, parecem todos absorvidos e obedientes à nova ordem do “esporte”. E, claro, que não seria das bocas globais que sairiam críticas a esse fato. O time coreano ficava com três jogadores a menos do que o adversário e, como já tinha realizado todas as substituições permitidas, se viu obrigado a colocar como arqueiro um de linha – no caso, o “nosso” querido Denílson. Detalhe: o jogo ficou parado por cinco minutos até que um sujeito da FIFA encontrasse uma camiseta para o novo arqueiro, numa demonstração clara de que tudo hoje tem que polido, “profissional” e robótico. Só faltaram mandar costurar um novo uniforme de goleiro com o nome do brasileiro. Haja saco, não coração, amigo! Nesse meio tempo, Denílson exibia muita alegria, com risadas e olhares para o telão do estádio – no melhor estilo Cristiano ‘Bailarina’ Ronaldo. O “comentarista”, então, afirmou que aquele estava sendo um excelente torneio para o brazuca: “fez três gols e agora vai jogar um tempo no gol, está se divertindo. Por enquanto é o artilheiro com três gols, uma das grandes figuras do torneio”. O fato de um desses gols ser em escancarado impedimento não faz a menor diferença no julgamento esportivo do atleta – pior, parece até aumentar a importância do mesmo. Talvez por isso as risadas abundantes do player; seu time estava perdendo uma classificação, que até parecia possível depois do gol, mas ele estava se valorizando, vendendo sua imagem, para que mais, não? Um mercadão ou uma copa, o que seria o tal torneio da FIFA?


O time argentino já estava com a classificação garantida, e passou os últimos vinte minutos tranquilamente tocando a pelota, o que irritou os microfonados. Nenhum deles percebeu que, para um time copeiro como o Estudiantes (como para qualquer outro com mentalidade aguçada, como foi o São Paulo de Telê, por exemplo), não havia motivo para aumentar o score, ou fazer embaixadinhas acrobáticas com a pelota – o objetivo da noite estava conquistado, como numa guerra (guerra = futebol). Imagino o mestre Silvio Luiz narrando estes momentos finais e, seguramente, ele ficaria puto com a atitude, criticaria, ou começaria a ler uma receita ao lado do seu xará Lancelotti. Mas os globais estavam querendo ação, movimento, cores, cifras, dribles, gargalhadas - porque sem esses estímulos fica difícil vender uma arte opaca. Nem tanto quando se tem Denílson em campo que, novamente se admirando no telão, abriu aquele sorriso antes de bater um tiro de meta. E o desejo dos ”especialistas” em ver uma defesa do mesmo chegou ao ponto do ridículo, quando ele agarrou uma bola rebatida no poste. Parecia que narravam uma defesa como a de Banks, em 1970 – na verdade, pareciam feirantes berrando o preço do quilo da batata no Mercadão. O “comentarista”, no limite de sua paciência com a “incompetência” do time de La Plata, frisava que aquele era um ano terrível para o futebol argentino: “não conseguem fazer um gol, com três jogadores a mais!”. Demorou alguns segundos até que o mesmo se retratasse, lembrando-se de que aquele escrete ali estava por ter vencido o único torneio continental que importa. Entendo que realmente há uma crise aguda no futebol argentino alimentada em especial pelo aspecto financeiro (e onde não há uma desse tipo?), e o fato de nem Boca, nem River se qualificarem para aproxima edição da Copa Libertadores é algo negativo para a terra de Diego. Mas imaginem a situação inversa: um time brazuca campeão da América, e o Brasil classificado à Copa como quarto lugar, vencendo o Uruguai fora de casa. Não preciso ser profeta para saber que seria “um belo ano para o futebol brasileiro, até porque o título das Eliminatórias não vale nada, e estamos na Copa, como os argentinos!”. Faz-me-rir!

Após o apito final (“não houve a esperada defesa de Denílson”, com tom de quem meteu e não gozou), e a classificação dos Pinchas, o ex-anônimo, agora o mais novo herói do futebol fabuloso da Rede Globo, pediu à Verón que trocasse camisa – já com a do seu time em mãos, enquanto vestia outra por baixo com aquelas frases sobre Deus, ou a família, ou a crise mundial, tanto faz. Segundos depois, via-se o maestro argentino ainda uniformizado, agradecendo, junto aos demais companheiros, sua gente que apoiara o time durante os noventa minutos. E antes que rotulem o craque como arrogante, transcrevo sua declaração na véspera do jogo, quando questionado se sentiria muita pressão de repetir o feito do pai (ex-jogador de Estudiantes, quando se sagrou campeão mundial de clubes em 1968): “pressão quem sente é o operário, que acorda às cinco da manhã, ganha um salário miserável e não sabe se vai chegar em casa ainda empregado”. Uma declaração bem ao estilo de Kaká, Robinho ou Denílson, não? O outro lado da moeda faz soprar um pouco de arte, ainda que como uma brisa acalentadora, antes que a tormenta global nos sufoque de vez. Aguante!



Nota: a manchete era “Vasco apresenta dois novos reforços para a Série A de 2010”. Traduzindo com antídoto-96, não interessa mais o campeonato carioca de Domingos da Guia, Dida, Almir Pernambuquinho, Doval, Zico, Romerito, Romário, Paulinho Criciúma e Renato Gaucho. O Mentirão de 2009 mal acabou (graças a Diós, como demorou!) e já estão atropelando o estadual para começar outro National Big Lie Championship! Não dou mais três anos, até que destruam de vez os torneios de maior tradição do Brasil! Estadual não dá dinheiro, não vende! À la mierda com ellos!


terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Ronald Golias não faria melhor

Dizia aí embaixo que os exemplos sempre frutificam - sejam eles bons ou ruins. Pois retomo o assunto para, primeiro, tentar entender o porquê de esse jornalismo esportivo global de tendência engraçadinha ter tornado-se padrão também para as submissas e pouco criativas outras emissoras, tanto de TV aberta quanto da paga. Será que só eu considero algo totalmente descabido e vergonhoso um sujeito como Tadeu Schmidt tornar-se referência daquilo que é feito na principal das mídias? Seu quadro no Fantástico é absolutamente constrangedor, suas piadinhas e trocadilhos são lamentáveis e em nada acrescentam de útil ao que é mostrado, seu timing, inexistente... Apenas sua cara de "bom sujeito" (como diz uma definição em sua "biografia", essa sim hilária, que encontrei aqui na Net) representa bem o que a rede do Jardim Botânico carioca reserva para quem a assiste, qualquer seja o horário ou o programa: informação asséptica, limpa como paredes de fast food, com a adição do molho especial (nesse caso, os inserts piadísticos de Schmidt) para complementar, com um pretenso toque de "personalidade" e "descontração", o recheio com gosto de nada do sanduba made in Globo. Assim, muitos telespectadores acham bonito mandar um vídeo para o tal Bola Cheia/Bola Murcha, pois sentem-se à vontade com o estilo "vizinho gente boa" do figura, e, ao mesmo tempo em que deliciam-se por serem alvo das chacotas estéreis ou dos elogios meia-bomba do apresentador, aliviam sua vontade de participar da máquina de fazer sonhos, nessa espécie de reality-show dos pernas-de-pau. É o mundinho das novelas, dos Big Brothers e das celebridades automáticas recriado dentro do futebol. Sintomático, não?

Se fosse só isso já seria ruim - mas o padrão "humorístico" alastrou-se não só no resto da programação do canal como chegou para nos atazanar em outros lugares também. Excrescências como o Globo Esporte e o patético É Gol, da SporTV, seguem à risca esse estilinho "moderno" de Tadeu Schmidt: apresentadores jovens e dinâmicos, com roupinhas da moda de cores chamativas e largos sorrisos a estamparem-lhe as faces, e que sempre possuem uma piadinha ou uma observação sagaz para fazer do jogo ou de um de seus lance, assim que estes surjam no VT. Pode reparar: é impressionante não só a quantidade de frases "espertinhas" que os narradores lançam mão, mas também a sua irrefreável pretensão de ser o tempo todo mais inteligente, mais "descolado", mais sagaz e analítico que o próprio espectador. A maçaroca de informação (palavra+imagem) por si mesma já serviria para confundir a capacidade de percepção daqueles que a recebem; os textos com fundo "humorístico", por sua vez, servem para deixá-lo ainda mais inerte em sua condição de receptor, pois o que é mostrado é desqualificado a priori pelo próprio agente da notícia como algo que não se deve levar a sério. Assim eles se colocam acima da gente, através das piadas; já que praticamente esfregam em nossos focinhos que aquilo que assistimos não passa de uma brincadeirinha para quem nos "informa". Portanto, quem ri com as provocações anti-argentinas de Thiago Leifert entra, sem se dar conta, nesse perverso jogo de manipulação e servilismo - e o preço a se pagar, acredite, não tem a mínima graça.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

A mistificação nossa de cada dia

Adriano ganhou a "Bola de Ouro" do Campeonato Brasileiro. Claro que muitas outras premiações ainda irão ocorrer, uma mais discutível do que a outra (assim como são todas as entregas de prêmios, diga-se), mas essa é a que toma um vulto maior porque é a que acompanhamos desde tenra idade, e a que sempre demos mais importância. Existia um "romantismo" no prêmio entregue pela revista Placar que foi definitivamente enterrado - esses ano eles queriam porque queriam uma grife; eis aí a que sobrou, já que Ronaldo mal jogou 1/3 das partidas corinthianas e, pelos critérios de avaliação, foi desconsiderado entre os concorrentes (para evidente desespero dos redatores do veículo, que continuaram a atribuir notas altíssimas ao "Fenômeno" mesmo em suas partidas ruins). A coroação do "Imperador" veio a reboque da aclamação quase unânime deste certame como "o melhor de todos os tempos" - e a presença de jogadores-etiqueta como esses dois já citados mais Fred e Vagner Love, que tanto vestiram a camisa amarela, praticamente obrigava a mídia a cair de quatro para o Brasileirão 2009, independente do resultado deste. Essa foi a competição na qual estavam repatriados, mas ainda com o olho grande na Europa, os "grandes atacantes da nossa seleção" - e assim ela foi vendida, como o troféu dado a Adriano deixa absolutamente claro.

Só que o que mais me deixa perplexo no tal prêmio é observar a legitimação de uma espécie de salvo-conduto para aqueles rotulados como "craques", e que praticamente os blindam de críticas ou contestações. Aquela história de "matar um leão por dia" não existe mais: agora, se você já possui status de grande jogador, pode-se ficar o tempo todo na farra, passar diversas partidas a jogar mal e exibir uma máscara desgraçada nas aparições públicas que manterá a pose de gênio sem nenhum esforço - os outros se esforçarão por ti em mantê-lo no topo, sejam eles assessores de imprensa, companheiros de time, cartolas ou apresentadores de TV. Vejo jogos de Robinho e Alexandre Pato, por exemplo, e noto, com estarrecimento, que basta os mancebos acertarem alguns passes para que aquela seja considerada uma "boa partida" dos dois pelos grandes analistas, aqueles que entopem seguidamente nossos ouvidos com dejetos e mistificações. Sua condição de "estrela", sua presença na seleção ou mesmo na titularidade de seu time nunca é posta em dúvida - eles permanecem intocáveis em seus pedestais, deitados com conforto na cama que para eles foi feita.

Se eles (não só os da palavra escrita e dos microfones, mas também os da amortizada opinião pública) enxergam tal protecionismo como a saída para um futebol carente de maiores referências, não parecem ver é que é aí que a cobra morde seu próprio rabo: criam-se somente heróis falsos, de plástico, já que todos os verdadeiros ídolos são aqueles que também sabem lidar com seus revezes. Esses que aí estão só querem saber de sucesso porque são mimados por todos os lados para assim serem - e a mídia não só se alimenta disso, como também joga a rede salvadora para as possíveis quedas (até porque tomar uma posição mais radical significa colocar o deles na reta - e disso os "profissionais" fogem como o Crambulhão da cruz). Daí, se não houver nenhum tipo de reação (o que duvidamos), surgirão gerações ainda mais birrentas e mal-acostumadas que a atual (o exemplo, bom ou ruim, sempre frutifica). Quando chegar o dia em que um jogador não precisará mais correr ou sequer suar, eu não ficarei nem minimamente surpreso. E a covardia prossegue.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Incap(e)azes


Convido-os a uma viagem no tempo, afim de entender um pouco mais sobre como o homem se deixa levar pela mediocridade. A década de 1990 transcorreu como um grande laboratório para as mudanças no futebol mundial. No Brasil, vimos como uma empresa multinacional poderia interferir no jogo, quando a Parmalat encerrou o jejum de títulos palmeirense e nos apresentou – lamentavelmente – o “efeito suspensivo”, o desrespeito ao uniforme e levantou a (tão indesejada) sensação da “teoria da conspiração”. Na Europa, os estádios ingleses se transformaram em centros comerciais, servindo de exemplo para o que hoje é aclamado mídia afora como modelo (?). A justificativa para tanto, claro, era a “limpeza” dos mesmos em relação aos violentos torcedores envolvidos em episódios marcantes – ainda que nos dois mais importantes naquele processo, Heysel e Hillsborough, os responsáveis por tais eventos tivessem gigantesca parcela de culpa em seus tristes desfechos. Eram lançadas, então, duas pedras de sustentação para o que hoje chamamos de futebol moderno: a autoridade e a previsibilidade.

E, por um momento, estaciono a viagem no fatídico ano de 1995. Em agosto, após a “Batalha do Pacaembu” (o Heysel tupiniquim), inaugurava-se na terra tetracampeã mundial a era-Fernando Capez – o promotor público que, ao fechar as torcidas organizadas e instalar o medo que gera consumo, prometia cessar a violência que permeava o cenário do futebol. A mídia logo embarcou na idéia de que esta violência era ligada apenas aos vândalos das torcidas, e em nada tinha relação com os problemas sociais de um país corrupto e injusto por excelência – até mesmo misturar as torcidas foi usado como tentativa de emplacar o novo pensamento. No final daquele ano, a “sensação” voltava com toda a força, atingindo seu ápice na tenebrosa decisão do Mentirão de Giovanni e Túlio. As coisas começavam a parecer totalmente pré-elaboradas, exatamente o oposto do que o inesperado milagre do futebol nos fazia amá-lo incondicionalmente e apaixonadamente. Jornalistas paulistas passaram aquela temporada toda, em meio a histería do projeto denominado de “Ame-Rio”(a apelativa e inútil tentativa de mascarar a violência urbana que dominava a capital carioca), avisando que o campeão seria um time fluminense. E assim foi, naquela insuportável tarde do senhor Rezende. Pessoalmente, minha catarse veio apenas dois dias depois, quando, na final da Copa Conmebol, recebi uma irreversível descarga elétrica celeste e blanca, que me motivaria a seguir lutando por aquilo que se perdia. Ao viajar quatroze anos adiante na linha do tempo, a do futebol parece demasiadamente longe de chegar.

Foi neste também fatídico ano de 2009 que o Brasil conquistou mais um título futebolístico, e que, obrigatoriamente, nos faz refletir sobre muitas coisas: o país onde mais morrem torcedores nos estádios, com a média subindo, ano a ano. Pois bem, Capez foi incapaz de honrar sua palavra; e os torcedores estão (cada vez mais) incapazes de manisfestarem sua paixão como sempre o fizeram, desde Charles Miller. O caso da agressão ao atacante Vagner "Love" deixou explícito tudo isso de uma vez só. No seu stan-up horror show particular, José Luis Datena urrava coisas do tipo: “Tem que mandar prender estes vândalos, porque o futebol é alegria! A violência que antes existia, e que o senhor Fernando Capez brilhantemente eliminou, não pode voltar!”. Faz-me-rir! Estes senhores jornalistas desconhecem o que é ser um torcedor de futebol. Para eles, existem neste meio (e, provavelmente, na sociedade) apenas assassinos ou consumidores obssessivos; quando, na verdade, nenhum desses grupos personificam o sentimento de amar um clube de futebol. E, ainda que o mesmo divulgue seu programa como um “reflexo das ruas”, ele se mostrou ignorante do título obscuro que a nação que ele diz amar e defender “conquistou”, impossibilitando, assim, uma real análise da violência – nos estádios e fora dele, por consequência. A tal agressão ao avante alviverde (ou alviazul, nem sei mais) também despertou aquela velha “sensação”. Novamente um fato, antes da decisão de mais um Mentirão, mesmo que indiratamente, ajuda ao Flamengo – incontestavelmente um time que teve forcas “ocultas” impulsionando sua campanha. Só que hoje, diferente da década de 90, as coisas não parecem como um roubo num jogo de baralho entre amigos e familiares – igualmente repudiável do ponto de vista esportivo e moral. Porque aquela “sensação” surge a cada nova rodada; pior, a cada novo dia, nova hora, através das mídias incapazes de criticar com a devida indignacão, entupindo o cenário do bussiness da bola com manchas que me fazem, envergonhadamente, sentir certa saudades dos tempos do “efeito suspensivo”, ou do senhor Rezende. E todos os times, no fim das contas, são beneficiados e prejudicados pela nova ordem do futebol caótico e milionário, como se estivessemos num video-game de aberrações desalmadas e sem propósito humano.

Embora o tom do senhor Datena possa parecer apenas pessoal, ele é o reflexo da linha de pensamento comunhada por praticamente todos os seus colegas de profissão. Uns falam como Gil Gomes, outros tentam honrar o estilo de um Orlando Duarte, enquanto que a maioria veste a ridícula fantasia da babaquice circense, que virou moda. E assim foi porque a mídia se tornou proprietária do jogo, e, com a marca da covardia que os impussiona, não há mais espaço para questinonar a qualidade do que é seu – e ainda defendem a “liberdade” individual do capitalismo! Os programas policiais e esportivos, sem conteúdo e coragem, se misturam num perigoso merchandising, antecipando o evento: hoje é comum ouvirmos a chamada “Não perca! Vai ser um jogão!” - o homem brinca de Deus, de Mãe Dinah, e vende tudo o que pode. E aqueles que se opõem publicamente à esta ordem – seja um jogador (STJD), um jornalista (onde estaria Gérson?), um dirigente (taí o caso Belluzo, que anda falando muitas verdades) e, principalmente, um torcedor – encaram a punicão que aparenta calar e derrubar resistências: autoridade e previsibilidade, cuspidas e escarradas. O torcedor de verdade não quer matar, mas não necessita de consumo para celebrar o prazer. O entusiasmo que vomitam os microfonados sobre o atual certame nacional seria muito bem aceito por mim, sim, caso repouzasse apenas sobre a tabela de classificacão, as possiblidades de alteracão nas posicões, na loucura da “imprevisilbilidade” – porque isso, sem dúvida alguma, traz emocão. Mas esta emocão seria a mesma que sentiríamos ao acompanhar uma liga disputada entre os vinte piores times do mundo, imaginemos pois. Carregar esta emocão pra campo, hoje, é assumir uma posicão de cego ou de prostituído – e o futebol, como qualquer outro esporte, sempre ajudou o homem a ver, pensar e viver melhor. Agora, não mais. Nos tornamos viciados na ordem européia - que já nem é mais aquela que servia, então, de exemplo -, de chata mesmice que acelera o giro monetário e que destrói a simplicidade de um jogo que tem na tosquice sua essência tesuda.
Neste circo de Globos da Morte, continuamos a pisar em cadáveres (a caminho dos jogos e do trabalho, nos calçadões do centro) e carregagamos o fardo odioso de Capez: um estádio sem faixas e bandeiras é como um prato vazio, ou um céu sem estrelas. Em campo, vejo um festival de “estrelas” (que brilham retardamente) e de bolhas (no sentido figurado e, também, literal) decepcionantes para quem viu Raí (e não pode aceitar a “lideranca”de Hernanes), Evair (e tem vontade de rir com Keirrison) e Viola (este, sim, fenomenal com a nove corintiana). A massa rubronegra tem mais é que vibrar, sem pudor e medo, pois este foi, sim, o ano do capeta – com “crises econômicas”, “gripes incuráveis”, igrejas vindo abaixo para serem salvas pelo time de Di Stefano e a consolidação da Ronaldo-Mania, parte 3 (de longe, a mais infâme de todas). No fim desta jornada, a descarga elétrica celeste e blanca me empurra sempre a crer que ainda podemos sonhar, ainda que vivamos este cruel pesadelo.

Nota: em nome do Setor 2 e de todos os juventinos, agradeço à FPF pela ridícula tabela do Campeonato Paulista da série A-3, de 2010. Nossa energia vem da dor, e funcionamos melhor assim. Forza Juve!

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Vamos entrar no clima!

Nosso querido Brasil vive um momento de euforia sem precedentes. Sediaremos, em um intervalo de dois anos, uma Copa do Mundo e uma Olimpíada, os maiores eventos do planeta esportivo! Já sediamos um Pan-Americano (com muito sucesso, o mundo diz) e também abrigaremos os Jogos Paraolímpicos... Caramba, daqui a pouco mandam também para cá as Olimpíadas de Inverno! Portanto, é com esse espírito de alegria e congraçamento que faremos, pela primeira vez, um post otimista, alto-astral mesmo, aqui nesse blog. Nos deixemos contagiar com a festa brazuca!

Primeiro, precisamos exaltar essa fenomenal Cameponato Brasileiro 2009, que agora chega a sua última rodada. O Flamengo, provável campeão, faturou o Corinthians domingo passado. Que atuação do Rubro-Negro! Mesmo sem Adriano, o time voou baixo - lembrou os timaços de eras idas, como o de Joel e Dida na década de 50 e a máquina comandada por Zico nos anos 80. O cavalo do Chicão foi muito bem expulso! O pênalti, claríssimo! Até o goleiro Felipe ficou atordoado com a categoria de Léo Moura. O já citado Imperador, inclusive, deve garantir a Bola de Ouro da Placar como o grande nome desse campeonato, já que Ronaldo, tadinho, saiu contundido aos 25 minutos do prélio, e não representa mais ameaça para o 9 da Gávea. O craque merece!

Depois, é necessário citar a reação heróica do Fluminense. Contando apenas com o brio de seus jogadores, gente que respeita demais a camisa que veste, e nada mais (repito: NADA mais), o time abandonou a zona de rebaixamento em uma sequência estarrecedora de vitórias. Na nossa opinião, Fred merece voltar para a seleção e ir à Copa da África! Ele tem carregado o Flu nas costas com sua notável categoria! Emocionante.

E, por último, o assunto que todos comentam: o Grêmio pode facilitar a partida para o Fla no último round dessa linda competição. A própria torcida tricolor pede por isso - afinal, afundariam os arqui-rivais do Inter em sua (ainda acesa) esperança pelo título. De cara, pode parecer estranho, escroto até, que torcedores anseiem por uma derrota de seu esquadrão favorito - mas entendamos que isso é por um bem maior. A tradição do futebol tupiniquim, em suas irreverentes rivalidades regionalistas, não considera isso, de forma alguma, um desrespeito com a jaqueta que envergam (e mesmo com as calças que vestem). Entregar o ouro é coisa que os índios já faziam por aqui em 1500, caramba! Temos raízes fincadas nessa prática! Nada mais natural que isso aconteça - pois então o Antimídia Futebol Clube se coloca a favor dos gremistas, que torcem para que seu time afrouxe o anel na derradeira rodada do "Brasileirão"! Faz parte, né?

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Só não relincha por pura modéstia

A coletiva no Parque São Jorge já caminhava modorrenta, a passos de mamute. Aquele silêncio desconfortável entre uma pergunta e outra, um climinha de fim de feira pairando no ar, o técnico Mano Menezes falando baixo e pausado como que a mostrar que estva doido para cair fora dali. Neste cenário naturalmente bocejante, surge, do nada, um ser que eu não sei quem foi, e solta a pergunta mais burocrática que alguém poderia ter vomitado ali, naquela ocasião: "Quem irá desequilibrar o clássico: Ronaldo ou Adriano?". Merece aplausos inflamados, essa pessoa. Ela mostrou que a inutilidade de tais eventos pós-treino pode ser ainda maior do que se cogita. Afinal, ali era o lugar certo para soltar essa pérola: as coletivas sempre são uma congregação de lugares-comuns, e a competição para ver qual jornalista faz a pergunta mais estúpida ou redundante é acirradíssima. A criatura responsável por tal indagação estava em absoluto piloto automático; não buscava, nem em sonho, uma maior reflexão sobre o esporte e nem sobre a postura dos times e seus atletas, não intencionava arrancar do técnico algo que os outros não fariam, sequer cogitava sacudir o ambiente com algo mais provocativo ou inteligente (coisas que deveriam constar do manual de atuação de qualquer jornalista que honre sua profissão). Não: ele, preguiçoso, preferiu soltar a questão que todos já haviam feito e ainda farão até a hora do prélio, apenas para marcar sua presença e dar espaço para o próximo. E, sem a menor sombra de dúvida, sua matéria no jornal, na Net ou na TV, horas depois ou no dia seguinte, será tão banal quanto sua paupérrima retórica. Tadinho do Mano, que ainda trata com educação tal corja de presepeiros.

São esses os profissionais que as faculdades aprovam e os veículos empregam? Pessoas que não conseguem sair da superfície, possuem asco pelo questionamento, atentedem aos mandos e desmandos corporativistas de seus empregadores e fazem cara de bolacha quando entrevistam alguém? Depois reclamam que Muricy e Maradona destrata essa gente... Chamar esses repórteres esportivos de cavalgadura é ofender os eqüinos. Chicote neles, para tomarem vergonha!

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

"Futebol Idiota - Daily uma Porrada" - seu diário inconformado


$ - “Ronaldo está motivado para enfrentar o Flamengo”. Essa é a manchete que está, durante toda essa semana, sendo atolada nas goelas de quem queira engolir – e não faltam aqueles que, certamente, vão comprar. Nos jornais, nos portais da rede e, claro, nos programas “esportivos” dos canais televisivos: se ele vai jogar mal ou bem, não importa, pois sua motivação pré-vendida já justificará sua “grandeza”. Como já disse o Bury aqui, não é o time do Corinthians que conta, somente “Ele”. Mas o que assusta nesse bombardeio, propositalmente incessante, e que Goebbels aplaudiria, é exatamente a idéia de que um jogador milionário, consagrado, experiente, precisa de algo a mais do que vestir a camisa do clube para estar motivado em campo. Houve uma época, não tão distante, em que outro Ronaldo – este sim, um eterno ícone deste mesmo clube – era, com razão, achincalhado pela sua gente quando falhava contra um Novorizontino, em um jogo de turno pelo Campeonato Paulista. Aquilo, sim, era cuidar do que é seu, cobrar o amor puro do torcedor para receber de volta bom futebol em campo. Essa deve ser a única motivação de um player. Outros motivos podem engrandecê-la mais ainda, mas não são necessários. Assim eles vão construindo a mentira, seja para encobrir o sentimento dos verdadeiros flamenguistas, que nunca poderão esquecer que este embaixador da ONU prometeu a carreira toda vestir a camisa que dizia amar desde criança, e como o Tio Patinhas, deixou a sedução de algumas moedinhas douradas significar mais do que sua palavra; pode ser falta de coragem para analisar o medíocre quadro do futebol; além de que, não nos esqueçamos, há sempre a necessidade de valorizar o “produto” que gera rios de dinheiro para as mídias que compraram o futebol. São incontáveis motivos que explicitam uma única verdade: sob esta alma obscura e falsa, o futebol vai acabar de vez, em breve.


$ - O dia 4 de dezembro vem chegando, e com ele o momento mais importante da Copa do Mundo. Sim, desde que transformaram o mundial de futebol na maior vitrine de um esporte que só serve para vender, a definição das chaves e grupos é o fator decisivo para que possamos desenhar o futuro da competição, no mínimo, até as quartas de finais. Como se não bastasse aumentar o número de seleções - justamente quando o nível do futebol despencou - desta feita entupiram o certame com asiáticos, africanos, e polinésios. Quanta emoção em campo veremos! Faz-me-rir!


$ - O que normalmente me traria uma sensação inexplicável de celebração e gozos, tem hoje enfeito contrário. O jogo entre Atlético do Paraná e Botafogo, dois times que brigam entre si para se manterem na primeira divisão do Mentirão, tem tudo para abarcar mais uma avalanche de cruel parcialidade a favor daquele que pagar mais aos proprietários da bola. Socorro antecipado!


$ - Neste sítio, Bury discorreu, com muito carinho e conhecimento, a respeito da medonha atitude de alguns players brazucas nas “comemorações” do título da Copa das Confederações deste ano. Ao inverterem o lado de suas jaquetas, os fantoches exibiram seus nomes às lentes ávidas por putaria e desrespeitaram a própria seleção brasileira e seus heróis do passado – ainda que os mesmos teimem em vomitar como seus ídolos. Graças aos citados em questão, mais uma nova tendência teve início e, certamente, não deve ter fim. Na final do Mundial sub-17, os garotinhos suíços fizeram o mesmo no momento em que recebiam o troféu, após derrotarem os anfitriões nigerianos. Agradeçam, pois, a Julio César, Dani Alves – com seu nome engomado e modernizado -, ao correspondente divino Kaká, entre outros modelos da arte prostituída. A moda já pegou! Ah, moleque!

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Saudades daquilo que não vi

Meu camarada Fred, que vez ou outra comenta aqui neste humilde blog (e de quem já ouvi sandices absurdas em relação ao Ronaldo, mas eu perdôo), esteve recentemente na Argentina, em um tour de force pelos estádios de Buenos Aires e, in loco, conferiu algumas partidas nas canchas do país do futebol. Fanático pelo Independiente de Avellaneda, maior ganhador da Taça Libertadores da América, ele postou em seu álbum no Orkut algumas fotos da mitológica dupla Ricardo Bochini-Daniel Bertoni, verdadeiros heróis do povo rojo que tanto fizeram pelo clube na década de 70, e vê-los com seus cabelos desgrenhados e camisas simples me fizeram pensar na distância que vai daqueles para estes de hoje. Se Bertoni e Bochini eram os ídolos da massa, é porque não se distanciavam dela; eram parte indissociável de um todo: torcida, jogadores e clube. Os hinchas faziam a arquibancada pulsar; os craques em campo davam o sangue por aquela gente; a instituição tornava-se ainda maior por contar com quem honrasse seu escudo, tanto no gramado quanto fora dele. O futebol exibia ali toda a sua vocação de esporte mais popular do mundo porque quem o praticava como profissão também vinha do pueblo. Mesmo geniais como eram, a dupla se confundia com todos aqueles loucos que berravam seus nomes e comemoravam seus gols porque eram exatamente como eles. Estavam ali representando seus iguais, e dispostos a trazer alguma alegria a eles no final de uma sofrida semana de trabalho.

Mas, se algum tempo atrás poderíamos tomar uma cervejinha com Serginho Chulapa ou Sócrates depois de treinos de seus respectivos times, em algum boteco nas imediações de seus CTs, o que encontramos hoje é uma distância cada vez maior, e tão mais proposital quanto absurda, entre jogadores e torcedores. Estes primeiros agora são totens intocáveis, escondidos em carros blindados e transformados em verdadeiros bonecos de cera nessas patéticas entrevistas coletivas; os segundos, apenas potenciais consumidores dos produtos da marca para a qual torce. Isso, não são mais times, são marcas. Ouvimos muito por aí "a marca Corinthians", "a marca Flamengo", "a marca Grêmio"... Vemos, dessa forma, vigorar um grotesco sectarismo nas arquibancadas do mundo, já que a transformação de clubes em empresas encarece merchandising e ingressos e elitiza o que sempre possuiu alma orgulhosamente popular. Assim, não existe mais quem acompanha o futebol, e sim quem o consome. Esses é que são valorizados pela ordem atual: os que vão aos jogos dispostos a deixar seu carro em um estacionamento próximo, pagam entradas nas cadeiras cativas para a namorada ou à família, envergam camisas oficiais compradas em shoppings ou via Web a preços exorbitantes, comem nos restaurantes montados dentro do estádio... Se não quiserem se deslocar, podem adquirir o pay-per-view de algum canal por assinatura. Sangue, suor e lágrimas? Não mais. O conforto é a regra vigente - para quem pode pagá-lo, lógico.

E os atletas também embarcaram nessa. No recente campeonato sub-20, pude ver a mudança estampada nos rostos da molecada: muitos dos que ali estavam, na seleção brasileira ou em outras presentes ao certame, eram evidentemente bem-nascidos, filhos de uma elite que, por tanto tempo, repudiou a grosseria e as perspectivas pouco alvissareiras inerentes à carreira e ao mundo futebolístico. Hoje, colocar o filho numa escolinha representa um investimento. Pais vibram internamente com a possibilidade de um filho tornar-se "craque" bem sucedido. Não à toa, muitos dos que ali corriam já estavam bem encaminhados a clubes como Inter de Milão e Barcelona. O pragmatismo dos "planos de carreira", usuais em empresas de grande porte, atinge de forma incisiva o jogo, cada vez mais mecanizado e impessoal. Portanto, relembrar mestres como "El Bocha", com seu visual tosco, alma operária e grande, enorme, gigantesco talento, é relembrar também uma representação pura do futebolista que se perdeu nas cruéis alamedas do tempo. Precisamos, mais do que nunca, dessa agridoce nostalgia.

sábado, 21 de novembro de 2009

Calma, Sir Bill Shankly. Garanto que são apenas passageiras aberrações

Diretamente do canal televisivo que vendeu a alma do futebol, mais um capítulo do lixo que é uma arte apodrecendo: o efeito do Eclipse perambulou ontem no Pacaembu, triste e covardemente, como sempre.
No primeiro tempo do jogo entre Corinthians e Náutico, Ronaldo errou um passe – desses que o “craque” vêem fazendo aos montes neste embrionário e patético Campeonato Brasileiro – que deveria chegar até um tal de Edno, em posição de arremate. O “narrador”, claro, preferiu culpar a ineficiência do lance ao segundo. Como já afirmei aqui, “Deus” não erra, não peca. Ainda na primeira metade do prélio, o “comentarista/especialista” da era monetária que envergonharia Charles Miller soltou uma daquelas pérolas que me obrigou a visitar o banheiro, às pressas: um atacante do time “mandante” fora tocado na entrada da área, perdeu um pouco de seu equilíbrio, mas mesmo assim desferiu o chute à meta contrária, sem render o esperado gol. Para o tal súdito da ignorância/manipulação pré-estabelecida, a vantagem concedida no lance fora mal arbitrada porque ‘o atleta não chutou como deveria’. Ora, pois crianças! Ou um camarada desse não sabe nada de futebol, ou sabe tudo sobre futebol modernista! Se o jogador arrematou, não houve falta – talvez falta de categoria. A falta ocorre quando um jogador é impossibilitado de jogar. A quantos gols assisti de meus ídolos em posição parecida como aquela? Uma porção suculenta, e muitos espetaculares. Coisas de um passado que fica cada jornada mais distante. Respiremos fundo, pois o pior ainda está por vir. Este que chamam de Fenômeno anotou um bom ponto de cabeça – como fora o do Náutico no primeiro tempo - para empatar o placar, no início da etapa final de jogo. Minutos depois – vencendo a costumeira apática marcação imposta por mais alguns de seus fãs de carteirinha – quase repetiu a festa num chute cruzado, e no décimo minuto desferiu um chute para fora, após um corte num defensor qualquer. Pronto! Foi o bastante para que brilhasse o lado mágico do Eclipse. O mesmo “especialista”, fomentador de ocas opiniões, vomitou algo do tipo ‘... Já valeu o ingresso!’. Naquele mesmo estádio público devo ter assistido avantes do nível de um Luizão, por exemplo, ter feito mais do que aquilo incontáveis vezes. O nível do jogo despenca à velocidade da luz, e não porque os tempos mudam. No caso do futebol, sabemos que ele vem sendo transformado em detrimento da arte. E numa cancha dessas sempre há espaço para mais pérolas, se me permitem o infame trocadilho bilíngüe. Um carrinho de um jogador visitante fora desferido no gramado molhado pela chuva paulistana, provocando aquilo que já sabemos que os “jogadores” modernos adoram, ou seja, esfregar a bunda no chão. Evidentemente que a turminha dos microfones só foi notar que o salto do corintiano fora tão visível que - até mesmo pro nível deles - obrigaria uma explicação no replay do lance, e assim ela veio: ‘ O jogador forçou a queda, sim. Mas o carrinho, por si só, já caracteriza a falta’. Alguém aí se lembra da chamada publicitária da Nike ‘Diga não ao carrinho’? Não é coincidência, amigos. Pobres de Gamarra, Marcelo Djian e Franco Baresi, eles estavam errados! E eu, apavorado, tinha uma vez mais a prova de que eles querem, no mínimo, mudar um esporte perfeito por excelência. E teve muito mais!
De repente, uma falta é marcada perto da área do Timbu. Elias – ex-Juventus da Mooca e Ponte Preta – se aproxima de Ronaldo que se preparava para bater na bola – e durante esta temporada o Eclipse o vem fazendo de maneira bisonha para quem viu Marcelo Surcin, Neto, Francescoli, entre outros tantos cobradores. Visivelmente, o meio campista estava a instruir o bissexual companheiro sobre o que deveria ser feito: um toque para trás e o meia chutaria para virar o placar para o alvinegro. ‘Um abraço no ídolo!’, urrava de um murcho tesão o “narrador” após o gol concretizado. Sinais de uma mórbida criação, o fã que instruía um ídolo em campo num lance dos mais banais. Faz-me rir! Como a esta altura do circo, Ronaldo já estava nas nuvens – obscuras, há que se dizer – foi julgado como normal o avante perder mais um de seus gols absolutamente feitos, por tentar encobrir o arqueiro rival, quando um simples chute bastaria para decretar a vitória de seu time. Eu disse, de seu time! Alguém aí ainda se lembra do valor verdadeiro disso? ‘Ele pode, tem crédito. É um dos maiores de todos os tempos’, evacuou o “especialista”. Só se for um dos maiores desde que a emissora que o emprega comprou o esporte que tanto amamos – e olha lá! E o crédito de seu preciosismo inútil e egoísta custou caro. Com dois gols nos minutos finais, o time pernambucano fechava o placar definitivamente, em derrota para o time do “genial atacante”. Para mim, foi uma derrota bem maior do que apenas os números eletrônicos apontavam. Todos seguimos perdendo graças a esta nova ordem futebolística. Menos, claro, os falsos eclipsados deuses da bola. Que lástima.
Foi tudo tão bizarro que, desta feita, o score complicava temporariamente um dos escretes cariocas – que, do nada, voltaram a deitar e rolar nos bastidores, onde cada vez mais, se decide o destino desta arte que nunca morrerá de fato. Segue a dança, certamente errônea, na República da Putaria, que por hora chamam de Brasil. Socorro!

Nota: Foi vergonhoso, sim! Como dependente químico do futebol que sou, fiquei puto e decepcionado com o lance. Mas não foi obra do acaso. La Mano de Diós (a canhota, como não?) de Henry vem aí para assombrar os brazuquetes de Teixeira e Cia. Aguante que a Copa da África está logo aí, como diria meu xará borracho! FFF = 666

domingo, 8 de novembro de 2009

O Reich midiático em ação

Ronaldinho Gaúcho ($$$) aplicou um elástico no zagueiro da Lazio, dentro da área inimiga, no jogo de hoje. Ele estava mal em campo, em especial no segundo tempo, mas o tal lance levantou os narradores/comentaristas, que viram ali, salivando, o lampejo de brilhantismo que esperavam do nosso "craque". Só que houve um detalhe interessante neste lance: na sequência, ele saiu com bola e tudo. Não houve a continuidade da jogada, já que, depois de fazer o drible, o campo tinha acabado, e o atleta, na afobação egoísta de mostrar que é habilidoso, irreverente e "artístico", não se apercebeu desse fato. Seria uma situação de jogo como qualquer outra, até mesmo um tanto ridícula, não fosse a sensacional intervenção do VT: nos replays (uns 3 ou 4 seguidos), a televisão simplesmente cortou a bola saindo, e, interessada somente em pirotecnia e não em efetividade, mostrou o malabarismo como se tivesse sido realmente uma grande jogada. É o tipo de manipulação escrota e aparentemente inofensiva que serve para dar tempero aos banais programas de esportes, mas que não pode passar despercebida porque são muitos os interesses em ver o jogador "reabilitado" perante a opinião pública: o da Nike, e do próprio Milan, que não querem ver o investimento vultoso que ainda fazem no sujeito escoar pelo ralo; o da FIFA, que não gostaria de ver o detentor de dois prêmios seus de melhor do mundo se revelar um preguiçoso embuste; o da CBF e das redes de TV que possuem os direitos da transmissão da Copa, necessitadas de um chamariz maior para a despersonalizada seleção que irá à África ano que vem, e por aí vai. É gente muito graúda envolvida - e o asco provocado por tal repeteco é que o corte da saída da bola possui todo um assustador contorno político, no sentido mais desgraçado e imundo que isso possa ter. Joseph Goebbels, o manda-chuva da propaganda nazista, não disse que uma mentira repetida muitas vezes torna-se realidade? Aí está o replay de um simples lance futebolístico a nos mostrar, na prática, que isso realmente acontece. Coisa para meter medo no mais cético dos seres.

Depois, ele levantou-se, rindo como sempre. Não se vê felicidade nesse sorriso: vê-se nervoso, pressão, incômodo, vontade de sumir. Ronaldinho Gaúcho, tido por muitos analistas como a renovação da alegria no esporte mais popular do mundo, se vê cada vez mais acuado dentro do rótulo que lhe impuseram - mas o mantém, mesmo que com evidente mal-estar e falsidade. Sua postura robotizada em campo hoje em nada difere da de um executivo engravatado de seus patrocinadores, por exemplo, que bate ponto e trabalha enfurnado em um escritório. O futebol modernista reduziu jogadores a papéis estritamente burocráticos na manutenção de seu papel de "estrelas", e exige que torcedores engulam VTs demoníacos disfarçados de angelicais como se fossem verdade absoluta. Sinceramente, já não sei mais o que fazer.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Ensaio sobre a cegueira

Aleluia: alguém resolveu dizer um pouco da verdade sobre o Brasileirão - e veio de onde eu menos esperava, a mesa-redonda da fraquíssima ESPN Brasil (aliás, alguém aí ainda tem paciência com esse tipo de programa?). Não, não foi o Trajano: coube a Márcio Guedes, colunista carioca que dificilmente ultrapassa a linha do medíocre, dizer que o campeonato possui um nível técnico horroroso, e que, se é equilibrado, é porque se nivela por baixo. A declaração, claro, passou batida entre os outros articulistas, dedicados em nos fazer acreditar no contrário; mas eu não a deixei escapar - até porque, se (com motivos) Guedes é alvo fácil de chacota, com seu provincianismo e parcialidade levemente bairrista (como a maioria dos da velha escola), naquele momento ele mostrou-se honesto como ninguém ali poderia sequer se dispor. E, entre aqueles que se recusam a enxergar para esfregar areia em nossas vistas, tornou-se, ao menos por um instante, o famoso Rei de um olho só.

Ah: assisti ao clássico do domingo na casa do Toro, e a transmissão da Band foi pior do que esperávamos - e olha que já aguardávamos uma total catástrofe. Com a trupe mambembe de Luciano, Neto e Godói, o gol se banaliza: qualquer tento anotado é um "golaço". O segundo de Ronaldo foi comum, e contou até com falha do goleirinho verde, que foi ao lance sem a menor vontade de abafar o atacante. Mas, para o trio, chegou a rivalizar com os gols de Laudrup contra o Uruguai e Maradona ante a Bélgica, ambos no Mundial de 86. Vimos uma bijuteria, e eles a transformaram em um diamante. Só que o pior foi a descarada e ignominiosa manipulação dos números: mesmo quando o 9 corinthiano chutava em cima dos zagueiros, isso era computado como um disparo a gol. A bola não chegava nem perto da meta palmeirense, mas a estatística se alimentava disso. Quando foi feita a comparação com Vagner Love, o alvinegro levava absoluta vantagem, já que qualquer toque seu dado dentro da área era considerado como "chute". Ninguém nos falou, não é fofoca: NÓS VIMOS TUDO ISSO! Foi feito às claras, com desfaçatez inacreditável! Será concidência que, no programa esportivo do dia seguinte, o canal tenha dedicado quase uma hora a convencer o espectador que Ronaldo deve voltar à seleção brasileira? Me engana que eu gosto.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Eu tenho a força

Primeiro: o Campeonato Português (ou Portuguesão, ou Lusão, ou Lusitanão, escolha aí) nunca pode ser levado a sério. É uma das ligas mais fracas e marginais da Europa, e seus destaques sempre dão esperado vexame nas competições do continente (quando dá de um time portuga surpreender, é porque os outros vivem fase bisonha ou subiram no salto). Os brasileiros que vão para lá sentem isso na carne: com raríssimas exceções, quem se aventura na terra de Pedro Álvares Cabral dificilmente vai para uma liga européia de destaque. Ou fica um bom tempo perambulando pelos times do país, ou retorna em baixa para o Brasil. Portanto, o oba-oba feito em cima do tal Hulk já precisa, de saída, ser visto com um pé atrás (até porque se sabe que a imprensa lusa é uma das mais exageradas e ufanistas do mundo, capaz de elevar a patamares de craque um perna-de-pau como Nuno Gomes, por exemplo).

Segundo: a pergunta que me veio quando soube da convocação do atacante é o que isso pode representar de positivo para a seleção brasileira. Acréscimo técnico, quase nenhum. Publicidade? Talvez, lá pelos lados de nossos descobridores. Novidade, só se for pelo folclore (afinal, o cara chama-se Hulk, caramba!). Bem, o fato é que isso pode mostrar aos jornalistas e à opinião pública que nosso treinador Dunga acompanha, sim, o futebol internacional, e está ligado nos brazucas ao redor do mundo. Correto, esse técnico: é destaque no Porto, merece chance com a canarinho. Que atitude bonita, desprendida e altruísta! Um verdadeiro "cala-boca" naqueles que cobravam o chamamento do atleta com nome de gigante verde. A vingança foi servida fria ao nosso ex-camisa 8, que agora a saboreia, deliciado, sentado enfim no trono dos justos. E fato também que ele prepara Hulk, e a todos os seus fãs, para a sonhada transferência para um time maior. Isso já podemos antever, sem precisar de qualquer poder de clarividência. Salvo qualquer acidente, ele vai para um dos grandes da Europa próxima temporada (eu arrisco Real Madrid - cobrem-me depois). Para isso serve a "nossa" seleção hoje: para o alívio dos rancores de seu comandante, e para expor os jogadores como num balcão de padaria. Vai Hulk que a festa é sua.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Duas frases, uma máscara

Frases do jogador Robinho, reproduzida hoje nos sites esportivos e que desejo analisar um pouquinho, ao contrário dos nossos jornalistas, acríticos ao ponto do asqueroso:

"Estou muito feliz com o interesse do Barcelona em mim, pois acredito que, jogando no Camp Nou, será mais fácil me tornar o melhor jogador do mundo".

Do alto de sua insana megalomania, de cima do pedestal marmóreo que lapidou para si mesmo, o ex-atacante santista mostra que acredita ser o maior de todos. Culpa, assim, os clubes pelos quais já passou, que não lhe deram suficente respaldo para explodir no Velho Mundo. O Real Madrid estava errado, o Manchester City estava errado. Não é o próprio Robinho que não faz por merecer o título de estrela-mor do esporte; são essas malvadas instituições, que parecem ter adquirido seu passe somente para boicotar seu brilhantismo. Clubes cruéis, esses. Agora, o Barcelona pode ser a escada para que ele chegue ao Olimpo definitivo que sua limítrofe cabecinha vive a fantasiar: o prêmio FIFA do fim do ano que vem. Na frase do jogador, não existe nada em relação ao interesse do clube catalão que não a sua vontade de continuar a olhar para o próprio umbigo, na intenção de que todos o glorifiquem, quase como que a um santo. Já desrespeita a camisa do seu provável futuro time antes mesmo de ser contratado.

"Tenho que aproveitar a oportunidade de disputar um Mundial e, para isso, não posso forçar minha volta. Não adianta antecipar as coisas e correr o risco de ficar fora da Copa. Minha recuperação tem de ser passo a passo".

Ele ainda pertence ao Manchester City, mas se sente no direito de desprezar a camisa da agremiação a esse ponto. Só quer saber de ir à Copa, e isso porque estar no torneio mundial do ano que vem significa status e cotas de patrocínio, nada mais. O clube já não existe, fica claro em suas palavras e atitudes; ele não se recupera para vestir a camisa do City, ele pensa só na equação "coroa de louros+dividendos financeiros" que o campeonato na África do Sul poderá lhe trazer. E toda essa falta de profissionalismo (para pegar leve no comentário) será premiada com uma transferência para o gigante Barcelona, ao invés de para o Albacete ou o Tenerife. É a vitória definitiva do "eu futebol clube", do jogador que é uma estrela de si mesmo, independente de qual camisa vista (é bom que use várias, já que isso significa vendas e mais vendas), que a modernidade tanto precisa, e exalta cada vez mais. E eu, daqui, me pergunto como os cartolas ingleses puderam ser tão cegos: será que nunca imaginaram que Robinho pudesse tornar-se um fiasco dessa magnitude, quando o contrataram a peso de euro? Hoje, todas as tais camisas vendidas com o nome e o número do "craque" brasileiro celebram apenas e tão somente um fantasma. Nada mais merecido, lei física de ação e reação: compraram um teco-teco com fama de Concorde. Agora, que se virem para repassar o abacaxi.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

O jogo dos sete erros

Percebi, nesses últimos tempos, que perdi a generosidade para com o futebol e com as coisas que a ele se relacionam. O que poderia, há um tempo atrás, contar com a minha tolerância (ou até mesmo me agradar), hoje em dia só me causa irritação e descontentamento. Até entendo o porquê de os comentaristas ainda encararem com tanta festa o que acontece nos gramados mundo afora - afinal de contas, eles lá estão porque amam o futebol, e resolveram fazer disso o seu ganha-pão. Só que aí reside o que mais me deixa aterrado: a paixão não pode excluir a razão. No início, fazemos besteira em nome daquilo que amamos, graças à imaturidade e à descoberta; com o tempo, já temos discernimento suficiente para separar o que é certo e o que é errado dentro de uma relação. Pois, vemos hoje, claramente, em qualquer mídia, que a linha que separa o olhar benevolente e carinhoso da calhordice hipócrita é mais tênue que que sequer imaginamos.

Ontem, o tal de Arnaldo Ribeiro, articulista da ESPN Brasil e co-apresentador do Sportscenter ao lado do péssimo André Kfouri (suas fracas piadinhas e falsa descontração chegam a dar vergonha alheia) disse, logo no início do programa, como se fosse um pé no peito à moda do antigo telecatch, que o atual Brasileirão é um campeonato "sensacional". Admito que, se a pessoa pega apenas a tábua de classificação, com suas diversas possibilidades de queda e ascensão das equipes, pode até pensar que trata-se, sim, de um torneio instigante. Mas o que se vê dentro de campo não é, mas nem de muito longe, tão genial quanto os números, sempre frios, possam apregoar. Peguemos o jogo de domingo como exemplo: parecia que tínhamos 22 mortos-vivos no gramado do Palestra Itália. Um Flamengo que fez o necessário para estar à frente do placar, e nada mais; um Palmeiras que parecia se arrastar em campo, com atletas passivos, desmotivados, entregues ao resultado adverso. Um jogo vagaroso, de técnica pobre, totalmente sem atrativos - e falamos de dois dos que ocupam as cabeças da tabela, candidatíssimos ao título! Como um campeonato que apresenta uma partida lamentável como essa pode ser considerado "sensacional"? E nem cito as outras pelejas da rodada, tão deprimentes quanto.

Que o comentarista é apaixonado pelo esporte, por suas variantes, estatísticas, camisas e tudo o que o cerca, é notório. Aplausos para ele, com toda a sua cultura futebolística. Mas o amor também pressupõe crítica. Se você gosta de alguma coisa, precisa também saber enxergar e apontar o que acontece de errado com ela, no intuito de melhorá-la. Engolir lixo não-reciclável e arrotar que trata-se de coisa "sensacional" é o mesmo que a esposa trair o marido continuamente (ou vice-versa), e este(a) permanecer conformado com tal destino, em nome da paixão que nutre pela cara-metade. Nosso amigo Arnaldo, pelo visto, prefere criar ilusões e devaneios a respeito de sua musa, e não enxergá-la como realmente é. Contenta-se em viver num mundinho de ficção, criado para mascarar a sórdida realidade em nome do corporativismo. Tal atitude pode ser classificada com uma quantidade enorme de nomes, a maioria deletérios - mas nunca, JAMAIS, pode ser confundida como generosidade. Faça-me o favor.

domingo, 11 de outubro de 2009

Um viva à corrupção

Uma vez, quando da transmissão de um jogo da seleção brasileira (provavelmente em uma Copa América, mas não me recordo qual), Luciano do Valle mostrou como as coisas são feitas na TV pós-Galvão Bueno. As imagens mostravam uma falta ou um lateral contrário ao Brasil, claríssimo, não apontado pelo árbitro, quando o solerte narrador disse: "e o o juiz não marcou... felizmente". Em pleno ar, ao vivo, sem o menor constrangimento, o popular "Bolacha" absolveu o apitador de seu erro, exatamente porque premiou a seleção de seu país. Mostrou, ali, em um lance que deveria passar despercebido, que podia ser conivente com um favorecimento ilícito (ou seja, com corrupção), e conclamou os que assistiam a fazer o mesmo - e estes, sob a ilusória bandeira do "patriotismo" a todo momento levantada pelo cronista, concordavam e aplaudiam, hipnotizados em suas casas. Não me esqueço dessa passagem porque pouca coisa pode ser tão reveladora da hipocrisia reinante nesse patético ufanismo que envolve a seleção brasileira - mas o que mais me marcou foi ver exposta, com tamanha clareza, a fragilidade da moral humana. Se o erro favorece a outra pessoa, não pode passar batido; se me envolve, já o recebo de bom grado, era a mensagem da "inocente" frase de Luciano. A mesma pessoa que reclama de um político corrupto ou dos desmandos da administração de seu condomínio ou do chefe no trabalho, por exemplo, é aquela que acha certo pisar em outra para subir de cargo ou que não acusa ter recebido um dinheiro a mais no seu contracheque, fim do mês. Dois pesos, duas medidas.

Lembro desse momento porque, ontem, o nosso querido apresentador atacou de novo. No jogo do campeonato sub-20, entre Brasil e Alemanha, ele disse que, "para nossa sorte", o melhor jogador germânico havia saído da partida, contundido. Outra vez, fez uso da filosofia "é a favor da gente, tá valendo" - e, dessa feita, até mesmo a eliminação de um adversário foi vista como algo acetável, se o que está em disputa é a "nossa" sobrevivência. Logo Luciano do Valle, o sujeito que, há um bom tempo atrás, tanto estimulava o fair-play no futebol, agora estimula o "olho por olho, dente por dente", à imagem e semelhança de seu belicoso colega global. Esse não é o papel de um narrador esportivo. A partir do momento que a pessoa passa a usar o microfone para vomitar recalques e preconceitos, com a máscara patriótica servindo de desculpa, deturpa-se por completo a sua função. Ele está lá para ser o mediador do público com o espetáculo, e não um incitador da tragédia e o pretenso porta-voz da honra, dos desejos e dos sentimentos de um país. Assim como os jogadores que lá estão, e a própria seleção como instituição, não nos representam, exatamente porque se construiu uma (proposital) distância abissal a separar o público das "estrelas", as débeis palavras dos nossos narradores, encastelados em seu cinismo e arrogância, não nos representam também.

Torcer contra a seleção canarinho: cada vez mais, uma questão de resistência.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Ainda (e sempre) contra!

Aconteceu o que era esperado: a migalha do Primeiro Mundo veio, enfim, para o Brasil. Em sua sede por ser grande, por ser europeu ou norte-americano, e para mostrar ao planeta globalizado e "pós-crise" (risos) que é um país "emergente", confiável e de muito valor para o sempre cobiçado capital estrangeiro (termos esses usados pelas revistas semanais de informação neoliberal, e que apenas reproduzo aqui), o país do Carnaval será, também, o país da Copa do Mundo e da Olimpíada. De nada adiantou o exemplo de Tóquio e Chicago, localidades cujas populações rejeitaram veementemente a realização do evento por lá (lucidez, eis um benefício que o investimento em educação pode gerar): enquanto essas cidades não precisam provar nada para si mesmas e ao mundo, e entendem que gastar bilhões de verdinhas em uma festinha de duas semanas é cretinice das brabas, o Brasil quer porque quer ser aceito pela cúpula. É, o complexo de inferioridade, nessas horas, fala mais alto. Parece até gritar. Aí, foi a hora de os desenvolvidos, os poderosos, fazerem a sua média com a parte de baixo do planeta - e o povo daqui, como bom recebedor de esmola, agradeceu sorrindo e cortejando seu benfeitor (como exemplificou o próprio presidente do COI, Carlos Nuzman, o da foto, enquanto assinava, trêmulo, os documentos que nos confirmavam como sede olímpica). Agora, aguentemos a overdose de especiais televisivos/internéticos/impressos que nos prepararão para 2016 - e olha que ainda temos 7 anos para aguentar essa turminha de deslumbrados embasbacada com tamanha "vitória"...

Vejo em muitos blogs por aí que quem condena a Olimpíada do RJ é chamado de "anti-Brasil". Acho que, na verdade, são esses os mais a favor da pátria, já que são eles os que querem vê-la crescer de forma ordenada e correta. Se nos colocamos contra, é porque entendemos que, repito o que foi dito no post aí embaixo, seria muito mais proveitoso para o nosso país se o (vultoso) dinheiro que será gasto com a farra esportiva fosse voltado para as reformas, ou até mesmo a criação definitiva, de uma infra-estrutura física/política/social que é a base óbvia de qualquer lugar que se possa rotular como "próspero" e "desenvolvido". Não é maquiando os problemas, através de vilas olímpicas e domos moderníssimos com seus tetos que abrem e fecham, que se consegue a resolução destes. Eles permanecerão lá, pelo tempo que assim necessário for a alguém, assim como permanecem, vazios e inúteis, os prédios e instalações que outrora haviam abrigado atletas do mundo inteiro.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Rio 2016: aqui, não!

Uma coisa liga à outra: na semana que soltaram o balão de ensaio sobre a contratação do Ronaldo Gaúcho pelo Corinthians, os canais de TV resolveram fazer sua parte para a mentira colar. Em alguns programas esportivos (sim, foi em mais de um), pude ouvir algo impagável, hilariante se não fosse tão espúrio, quando da exibição dos gols do Italianão: "apesar de ter Ronaldinho entre os titulares, o Milan não conseguiu balançar as redes, e empatou em 0 a 0 com o Bari". Pois é, dissimulação pouca é bobagem. Quem ainda é tonto de acreditar em tais enunciados calhordas, que têm como propósito, além de manipular e ludibriar o telespectador mais inocente (em sua eterna preguiça, ele pensa, esparramado no sofá de casa, Brahma nas mãos: "nossa, ele deve ter jogado muito bem!"), também o de tentar melhorar a imagem do falido "craque" para que sua duvidosa volta ao país se consolide com pompas de gênio? Ora essa... Aqui, não!

E, agora, uma tomada de posição por parte desse blog: ao contrário da forjada "corrente pra frente" que muitos tentam instituir por aí, nós somos radicalmente CONTRA a realização da tal Olímpiada de 2016 no Brasil, mais especificamente no Rio de Janeiro. Essa sede megalômana em "globalizar" as cidades tupiniquins, essa vontade insaciável de "inserir" o país no mundo "desenvolvido", de mostrar a todos que o brasileiro é realizador e capaz, que é lutador e não desiste nunca, só interessa a quem possa lucrar - e bastante - com isso. Por isso que apresentadores e repórteres, entre sorrisos abertos e palavras de encorajamento, exortam o povo a "torcer" pela nobre candidatura: isso representa torrencial investimento de patrocinadores pingando igual cachoeira nos cofres da sua respectiva emissora, além de possibilidades extremamente atraentes para o carreirista ("cobri a Olimpíada do RJ", ele acrescentará em seu currículo, todo pimpão). Tal visão mercantil e unilateral não permite admitir que reformas estruturais são muito mais urgentes e importantes para a saúde da nação do que qualquer evento esportivo. Mas o que fazer se o próprio povo, sempre o grande prejudicado nesses joginhos de armar das cúpulas dominantes, prefere assistir a alguma competição de lançamento de dardo no Engenhão, a exigir melhores escolas e postos de saúde para si e para os seus? Ora essa... Aqui, não!

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Mais do mesmo (ou um pouco mais que isso)

Sabe, cheguei a passar mal nessa segunda-feira, quando assisti aos programas espostivos da TV aberta na hora do almoço. Queria ver os gols do final de semana, já que não pude assitir quase nada da rodada do nosso querido "Brasileirão" sábado e domingo (por conta disso, foram dois dias bastante úteis e saudáveis, devo dizer), quando me deparo com um lance que, se classificado como grotesco, chega a ser suave: o gol de mão do Paraná Clube contra o Ceará, pela Segundona (até a divisão inferior precisa ser nomeada de forma espalhafatosa e grandiloquente, segundo a mente dos maquiavélicos marqueteiros). O tapa que o tal Wellington Silva (foto) deu na bola só não viu quem não quis. Foi uma cortada acintosa, um lance de vôlei de praia, de goleiro, de jogador de peteca, o que seja. Caberia até mesmo um cartão vermelho ao dissimulado centroavante, tamanha a vulgaridade de sua obra. Mas a tal jogada foi validada. Melhor: o ponto ilegal significou a vitória do visitante. E, novamente, vi algo que nos escancara a podridão reinante no esporte tratado de forma leviana pelos profissionais da imprensa. Algo que deveria gerar revolta e indignação vira, automaticamente, motivo para piadinhas e gracejos, e é logo esquecido na sequência. Não se pode estimular o senso crítico/político do espectador - vai que ele resolve se insurgir contra aqueles que o manipulam? Melhor é fazê-lo rir da desgraça para manter tudo na superfície. Dias, semanas, meses, anos se passam - e os mecanismos continuam a girar sempre para a mesma direção.

Mas, se aqui gostamos de fazer analogias com o que vemos dentro de campo àquilo vivido em nosso opressivo cotidiano, o que mais deve ser destacado nesse triste circo de bizarrias é a atitude do atleta, típica em nossos gramados. Ele, logo ao anotar o gol, saiu em disparada para comemorar. Ciente que havia o marcado de forma totalmente irregular, não viu pudores em vibrar como se tivesse acabado de mandar às redes uma perfeita bicicleta. Um pouco depois, não sei precisar se ainda no decorrer da partida ou já em seu término, uma repórter perguntou e ele mandou, de cara limpa: "É, foi com a mão". Ali, o falso malandro não conseguiu nem sustentar sua própria farsa, já que confessou o delito (e nem precisou ser apertado por nenhum "meganha" - o fez de livre e espontânea vontade). Ele que, no lance, parecia tão feliz e confiante em sua desonestidade, afrouxou, não sei se na inocência ou querendo contar vantagem. Só que nem mesmo a certeza da culpa condenou o camisa 9: como o tento foi validado, o camarada saiu de campo como um autêntico Deus da patifaria. Fez um gol de mão, comemorou na cara-de-pau, admitiu que fez errado, ludibriou a autoridade máxima em campo e, mesmo depois de tudo isso, deu a vitória para seu time. Levou vantagem em tudo, como dizia a célebre frase do Canhotinha de Ouro. O errado, o muito errado, transformou-se em certo. Todos esperamos por um momento desses. O humano, essa espécie tão corruptível, vibra mais ainda se a vitória vier por vias tortas ou por meios ilícitos. É parte indissociável da nossa natureza. O futebol, essa coisa tão comezinha, mostrou ali, naquele momento tratado como brincadeira por quem deveria mais do que ninguém levá-lo a sério, a face mais repugnante do mundo em que vivemos e da vida que levamos. E eu, passando mal, com o estômago revirado, fiquei cerca de 20 minutos até conseguir me movimentar de novo. Mas não me recompus até agora desse tão violento choque de realidade.

domingo, 13 de setembro de 2009

O show da ignorância

Desde que Galvão Bueno tranformou-se no narrador no. 1 do nosso país, alguns procedimentos típicos do global tornaram-se praxe entre os locutores de outros canais - entre eles, a tal "provocação" aos nossos "arqui-rivais", os argentinos. Para ruir a frágil ponte entre a gozação e a xenofobia pura e simples é bastante rápido; e nisso o no. 1 da Globo é especialista, com seu palavrório sem sutilezas e tom de voz agressivo. Agora que Diego Maradona (foto) é treinador, então, o caminho para as demonstrações de estupidez ficou ainda mais curto, graças às cutucadas que o astro argentino sempre dispensou ao Rei do futebol e à seleção amarela. Portanto, o risco de uma das maiores potências do futebol mundial não ir à Copa do ano que vem foi recebida pelos idiotas eletrônicos com galhofas e chacotas, e não com estupefação. Perde-se o esporte; a piada, nunca.

Digo isso porque, na noite da última quarta-feira (já na madrugada de quinta, para ser mais exato), o narrador do Esporte Interativo, da TV Gazeta (não sei o nome do cara e prefiro continuar sem saber) deu um show de ignorância absolutamente despropositada no VT de Paraguai e Argentina, exibido pela emissora. Já nos lances de perigo guaranis, o sujeito fazia uso de uma gritaria histérica, gratuita e sem sentido, como que para deixar claro que sua preferência pendia para os donos da casa. Aí já começa o absurdo: estamos falando de um profissional, não de um torcedor. O mínimo que esperamos da pessoa que está aos microfones é um comportamento neutro - do contrário, ou se evidencia má-fé ou uma total falta de competência/aptidão para o ofício. Mas o pior viria ao final: decretada a derrota portenha, o cara começou a berrar, a plenos pulmões, de forma convulsiva, desesperada até: "É NOSSO! É NOSSO!". Para além de lembrar o patético "É TETRAAAAA! É TETRAAAAAA!" urrado por Galvão na final do Mundial '94, tal momento mostrou o quão ridículo pode tornar-se uma pessoa ao, para usar uma expressão antiga e menos grosseira que a corrente, "fazer cortesia com o chapéu alheio". O narrador é, por acaso, paraguaio? Porque cargas d'água, então, comemora com tamanha gana a classificação de um time que nem de longe lhe pertence?

Ah, mas respondemos a tal pergunta na lata: é porquê precisamos alimentar a animosidade. Precisamos ser os melhores do mundo, sempre. Não podemos ter rivais, já que somos o "país do futebol". Como alguma outra nação quer se colocar no nosso nível, já que somos tão espetaculares, extraordinários, invencíveis? Às favas a imparcialidade, então. Esse negócio de "os fins justificam os meios" já foi lema para muito regime totalitário e genocida que até hoje estarrecem e envergonham a humanidade. Então, termino com outra questão: quem são os reais arrogantes dessa história?

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

O futebol e seu reflexo em nossas vidas

O general francês De Gaulle disse uma vez que o Brasil "não era um país sério" (consta que tal frase foi dita por outra pessoa, mas o que importa aqui não é o autor, e sim o seu conteúdo). Pois estava eu a assistir ao jogo do Internacional contra o Goiás nesse domingo último, quando aconteceu o lance da expulsão do atacante Fernandão. Já sem o replay era claro que nada havia acontecido: apenas o avançado havia se enroscado com o volante Magrão (e não adianta: se você é marcado por tal jogador, pode-se usar de qualquer recurso, menos fair play - ele, sem dúvida, não o fará). Pois aí o juiz, um tal de Ricardo Marques Ribeiro (ele na foto), resolveu jogar para a torcida, que hostilizava o goleador esmeraldino, e expulsou-o, em uma atitude demagógica e covarde. As repetições da imagem cansaram de mostrar que nada havia acontecido; mas, mesmo assim, o Goiás ficou com um a menos - e tomou uma goleada de 4 a 0 (é certo que já levavam um vareio enquanto Fernandão permanecia em campo; mas, com um a menos, fora de casa, fica difícil até mesmo pensar em reação).

Pois o que mais me deixou assustado foi ver a total passividade daqueles que transmitiam a partida. Mesmo com a imagem ali, evidenciando que nada havia acontecido e que o juiz errara clamorosamente, com prejuízo considerável para um dos lados, o tom dos comentaristas era de "ah, ele errou sim, mas não vamos nos preocupar com isso". Ninguém manifestou indignação, repulsa, aversão, nada. Pelo contrário: riam, como se isso fosse somente um inofensivo folclore, e discorriam sobre suas notas para o "prêmio Armando Nogueira". Quando falavam do lance, tateavam, com receio de demonstrar alguma certeza: "olha, eu acho que não foi nada, hein?". Claro que são tão covardes e omissos quanto o apitador - mas o que me saltou às vistas foi que esse é o comportamento típico do brasileiro, o ser que não desiste nunca. O atual escândalo do Senado, que, assim como o video-tape fez na partida, trouxe tantas evidências para a deposição imediata do presidente Sarney (e isso não aconteceu), mostrou que o brasileiro tem como hábito varrer tudo para debaixo do tapete, dizendo: "ah, esses políticos são todos iguais, sempre roubam e não mudam". E vai lá e vota nos mesmos parasitas de novo. O ciclo vicioso não se rompe nunca, porque somos um povo já moldado para a submissão. Os tais "brahmeiros", que não se importam de viverem esmagados, conquanto possam ter sua cervejinha no fim de semana. Para quê levantar a voz, se as coisas são assim mesmo?

Logo, logo, o tal Ricardo volta a apitar um jogo do "Brasileirão" - afinal, como gostam de dizer alguns analistas, o futebol "é apaixonante por isso". E assim, enamorados e medrosos, prosseguimos.