segunda-feira, 24 de maio de 2010
A COPA É DO BRASIL! OU É DO BRAZIL?
sábado, 22 de maio de 2010
A bola (e os colhões) pra fora do campo!

Na maioria das vezes, o fogo das revoltas se apaga sozinho porque lhe falta o combustível apropriado. E este só é de propriedade daqueles que pensam sentindo a bomba funcionando. Desta vez não é apenas uma descontrolada revolta, senão uma justificada defesa às regras do jogo. Garanto que o grito ante futebol-moderno que trago hoje tem base na lógica, além da boa e velha indignação, e não haverá argumento contrário que será capaz de abafá-lo. A tradução vem a seguir.Um dos pilares mais importantes no qual se sustenta a nova ordem do futebol mundial é transformar o jogo em um palco asseado, padronizando as ações dos atores envolvidos e eliminando qualquer manifestação que vai de encontro aos interesses dos investidores. Esta banalização envolve os jogadores, torcedores, árbitros, narradores e comentaristas de futebol. O improviso sempre guiou esta arte centenária, assim como a superação, a transformação dos limites extremos em meros obstáculos a serem ultrapassados. Assim foram feitos os verdadeiros jogadores de futebol: sem medo, sem dor e com fome de glória. Desde criança, a alma do jogador era regada com sangue e suor, através de muita coragem. Os gritos que vinham das arquibancadas, assim como dos técnicos e que eram corroborados pelos homens do microfone, eram carregados pelo dever de defender suas cores, custe o que custar. Afinal de contas, nunca é demais lembrar que futebol é uma guerra. É um contra o outro, e não há prazer no empate. Nesta batalha, um vai perder e o outro vai ganhar. Por isso tenho que concordar com o mestre Carlos Bilardo: não há batalha limpa e vale tudo pela vitória, e isso querem enterrar os homens que só vivem pelo dinheiro. Hoje em dia, tudo isso vêm sendo substituído por uma atitude totalmente polarizada com este legado. Hoje, como antes, desde criança o jogador é bombardeado por emoções que vão sempre compor seu caráter em campo. Só que hoje, diferente de antes, os gritos denotam a vontade de ficar rico, ganhar dinheiro na Europa, ajudar a família, ser famoso, bonito e se admirar entre uma jogada e outra pela imagem do telão ultramoderno dos estádios teatrais da nova geração. Tudo isso pode fazer parte dos sonhos que todo homem tem o direito em alimentar, mas nunca pode fazer parte da essência de um jogo historicamente violento. Mas a FIFA, juntamente com todo o esquema de mídia/marketing/consumismo, insiste em promover o tal do fair-play como se fosse algo salubre para o jogo, um sinal de respeito pelo colega de profissão e pelo próximo. Joga-se a bola pra fora a todo instante, basta o jogador cair, e pra maioria dos jogadores de hoje irem ao chão, basta o marcador chegar a dois metros de distância. No último Mundial isso chegou ao ponto do insuportável. Tudo, claro, com o consentimento dos narradores, patrocinadores e, consequentemente, da opinião pública. Assim se faz o senso comum, formando o gosto como se fora um deus. No Brasil, muitas vezes aclamado como o ‘país do futebol’, um comercial instituía: “O jogador tem que transpirar. A torcida não!”. E um programa lançava a campanha “diga não ao carrinho!”. Claro, porque a violência é atraente somente nos telejornais. Quando se trata de vender seu produto com a imagem de Gattuso gritando enlouquecido, ou a de Robinho, com seu polegar e seu mindinho esticados, harmoniosamente completando seu sorriso maroto e inocente, fica fácil entender o porquê das escolhas. Porém, não devemos nunca nos esquecer da expressão ‘seu direito termina quando o meu começa’. Não quero aqui discutir se interromper uma jogada porque um jogador está com uma unha quebrada, ou porque outro perdeu sua lente de contato após uma dividida, torna um jogador menos honrado ou não. Como eu disse, a luta pela bola, a luta pela sua própria dignidade está sempre em jogo dentro daquelas quatro linhas. E esperar este compromisso em um jogador que recebe um salário que faz o patrimônio de um rei parecer esmola, é quase impossível. Realmente não adianta chorar pela demolição de Wembley, ou pela camisa amarela do Palmeiras, nem mesmo se remoer de ódio ao ver um jogador que não sabe cabecear ser eleito por três vezes o melhor do mundo; estes são os sinais definitivos do fim do verdadeiro futebol – que ainda não chegou, mas está cada vez mais próximo. Mas o que torna este grito justificado tem base na regra oficial do jogo, que dá ao arbitro o dever de apenas paralisar o jogo para atendimento médico quando a contusão for grave. Isto é literal, está cravado no livro das regras. E não precisa ter olhos de lince para enxergar que a ordem de hoje vai de encontro a ela. Não sou advogado, e nem quero ser. Mas apoiada na Lei máxima do futebol, fica límpida uma brecha que o futebol moderno não foi capaz ainda de tapar.Banalizar a arte, porque ela rende oceanos de dinheiro é uma coisa. Desrespeitar a própria regra do jogo é outra. Fair-play nada mais é do que jogar respeitando as regras, e não criar outras paralelas para ditar o esporte como se fosse um negócio. Eu, que levanto até o fim a bandeira contra o futebol moderno, devo admitir que tudo que surgiu nos últimos anos da história do esporte mais apaixonante do mundo têm um forte apelo atrativo e é difícil resistir a eles. É tudo uma questão de emoção material contra emoção espiritual. Na verdade, precisamos do equilíbrio entre ambos. Há trinta anos, já havia televisão, propagandas, uniformes bem desenhados de acordo com as tendências da época. Mas havia o amor as cores que se vestiam. Hoje, a parte material é abundante, na verdade sufocante. Em campo, o jogo não é mais o importante. O que importa é vender. E pra isso não é preciso ser craque, basta ser ator.
sexta-feira, 14 de maio de 2010
Sobre a convocação de Dunga...

segunda-feira, 10 de maio de 2010
O que restou dos Mundiais

Agora começa o terror: somos bombardeados com zilhões de comerciais televisivos que fazem alusão à Copa do Mundo vindoura. Institui-se a ditadura de sempre, a da obrigação em torcer pela tal Seleção Brasileira, ou corre-se o risco de ser um pária, um aborto, em comparação a essa turma alegre, saltitante e fascista até a medula, que se emociona, quase às lágrimas, quando um gol canarinho é marcado. Engraçado que não se vê qualquer resíduo de sinceridade ou de real energia nessas comemorações da TV: mesmo que encenadas, preparadas com o propósito único de anular o nosso senso analítico para venderem produtos, elas deveriam passar algum sentido de realidade para o espectador. Mas agora nem os comerciais a isso se dispõem. Não sei se por falta de interesse ou por uma (improvável) autocrítica, estão mais artificiais e vazios do que nunca. Nem a publicidade, essa máquina de criar ilusões efêmeras, realmente acredita que ainda possa existir essa "corrente pra frente" criada nos primeiros Mundiais vencidos pelo Brasil. Por isso, está cada vez mais agressiva, como as que incentivam a xenofobia contra os argentinos - mas isso já é outra história...
O conceito de seleção começou a implodir a partir do momento em que os clubes tornaram-se as próprias. Antes, os selecionados locais eram a possibilidade de se ver os craques de determinado país, que jogavam por clubes diferentes, reunidos com uma mesma camisa. Hoje, esse tipo de novidade não existe mais, pois as agremiações européias já se prestam a esse papel, e vão adiante: os abastados orçamentos os dão condições para reunir a nata de todos os continentes, formando verdadeiros 'all-star teams' para a disputa de torneios regionais e continentais, coisa que somente os times da FIFA, em ocasiões especiais, anteriormente faziam. São maiores do que as próprias seleções - enquanto estas tornaram-se apenas o cabide das grandes corporações que patrocinam os atletas, pois é através delas que irão conseguir contratos mais vantajosos para os que mantém sob sua tutela, e dali obter visibilidade diária para eles e para si (afinal, times jogam duas vezes por semana; seleções, quando muito, de dois em dois meses). Não se ouve falar quem é a fornecedora de material esportivo do Manchester United ou do Milan, mas se sabe que a Inglaterra é patrocinada pela Adidas e a Itália pela Nike. E isso não é por acaso, acredite.
Temos, além da parte financeira, outro complicador: os jogadores não possuem mais identificação alguma com as camisas de seleção. Isso pode parecer batido, mas é a pura verdade. Não só os brasileiros sofrem com isso, mas os próprios europeus também. Como exemplo, os destaques da Espanha que jogam na Inglaterra: eles vivem a realidade de outro país, convivem com outro povo, falam diariamente outra língua, acompanham a cobertura constante da seleção local. Profissionalmente, a ligação com a Espanha não existe para além da certidão de nascimento. Ele não vive mais aquela febre que deveria viver para vestir a camisa do selecionado pátrio; seu cotidiano é o de um inglês. Quando ainda joga no próprio país, é cercado, em seu clube, por estrangeiros, por pessoas que vivem essa mesma realidade que seu compatriota vive fora de lá. Não é à toa que cada esquadrão europeu agora conte com um naturalizado - boa parte deles, com mais de um. Futebolisticamente, eles possuem mais do país adotivo do que do de origem. Por isso, criou-se uma distância intransponível entre os "ídolos" e suas nações, já que eles não mais as pertencem. Uma bagunça total.
E ainda temos o "eu futebol clube" também, como não? A ordem do dia é a dos clubes servirem aos jogadores, e não mais o contrário. Temos o Cristiano Ronaldo, simplesmente; não mais o "Cristiano Ronaldo do Real Madrid" ou "Cristiano Ronaldo da seleção portuguesa". Eles tornaram-se entidades descoladas de times ou selecionados, são estrelas independentes de qualquer conexão com camisas. Seleções sempre se pautaram pelo coletivo; hoje, o individual é o que conta. É a pá de terra que precisavam para enterrar essa instituição que personificava o esporte, e que hoje pena por conta da despersonalização instituída nos gramados mundo afora.
Na Copa da África (para citar um evento recente) ficou patente que as competições entre seleções dificilmente conseguem manter o interesse. Víamos, ali, jogadores, quando não completamente desinteressados, pouco à vontade em trabalhar coletivamente, vestidos sempre como as estrelas que encarnam em seus clubes na Europa (mas cujo talento é supervalorizado em conseqüência disso), sem identificação com seus países natais, doidos para voltarem logo ao "Primeiro Mundo". O abandono de Togo foi sintomático: enquanto os atletas clamavam por segurança/organização típicas dos lugares que negociam na Bolsa ações dos clubes de futebol, Adebayor (foto) dava entrevistas vestido com camisa do Arsenal, para falar do Campeonato Inglês! Com essa atitude, além de demonstrar total falta de respeito e senso profissional, não só com os seus, mas com o próprio contratante (afinal, seu clube na época já era o Manchester City, não mais os Gunners), ele não tratou de diminuir o abismo que o separa de sua nação-mãe; e sim de aumentá-lo, demarcando as prioridades e apresentando seus reais interesses dentro do futebol. É isso que aguarda o certame da África do Sul: egos, marcas, patrocínios, chuteiras luminosas, telões de alta definição, fotos cuidadosamente posadas para parecerem espontâneas e marketing pessoal a rodo. R. I. P., Copa do Mundo.
domingo, 2 de maio de 2010
Ascensor para o cadafalso

Não só por tal exaltação ter sido feita nos citados veículos, uma indignidade total para qualquer um, e da abordagem da coisa toda, que liga sempre a idéia de felicidade à de dinheiro (coisa que traz à mente um desses inomináveis parasitas que pregam a tal "teologia da prosperidade", como o caricato Silas Malafaia) - mas por imaginar a situação de Neymar como novo-rico. Do nada, o garoto já se viu catapultado ao jet set, compartilhando a vizinhança e a admiração de pessoas abastadas, representantes de uma elite sanguinária e oportunista que não hesitaria em pisar no pescoço ou virar as costas para o moleque e seu progenitor, se eles não houvessem adquirido o status para o qual tanto se ajoelharam antes, perante os que hoje os adulam. Pois a preparação era essa, a de se fazer a transição entre a classe baixa e a classe alta - e o que interessava ao pai de Neymar não era essa conversinha fiada de "quero ver meu filho ser craque de futebol porque amo o esporte": o que o movia era a ascensão social, pura e simples. Por quê não assume logo, de cara limpa? Pelo menos, nos poupariam dessas papos-furados que ligam os hoje incongruentes "futebol-arte" e "humildade", pois o futebol moderno não permite que tais sentenças sejam conjugadas lado a lado (veja o caso do falido Robinho, cuja "arte" o levou aos píncaros da fortuna e fez crescer em si uma máscara desproporcional à sua realidade de franca decadência).
Mas o que me causa maior espécie é ver que a passividade dessas pessoas é incrivelmente contagiosa. Neymar faz parte de uma turma que não nasceu para contrariar nada, isso é notório. A marca de sua geração, assim, como a de algumas anteriores, é justamente essa: a de ter as coisas de mão beijada (por exemplo, veja as facilidades que essa própria Internet implantou mundo afora - não é necessário sequer você levantar da cadeira para fazer tudo o que se deseja), e para quem a resistência significa estupidez. Não interessa combater os métodos e a postura dessa alta sociedade que tanto os oprime; o que interessa, motivado por questões constantemente à nossa volta (mídia, propaganda, família), é unir-se a elas, sempre sorrindo. Toma-se parte do topo da pirâmide social, e observa-se de cima, da varanda de um apartamento triplex, aos que ficaram na base. É mais cômodo unir-se aos que tem grana, porque o desejo, para quem os observa enquanto está por baixo, é comportar-se exatamente igual a eles. Não se lembram de quando Robinho teve a mãe sequestrada, e a levou embora para a Espanha, um país "mais seguro"? Esse é o procedimento usual das elites: o de se esquivar, o de fugir da raia como se não fosse parte do problema, o do medo com a perda do patrimônio, o da covardia e da omissão (que não os impede de esbravejar ante a "falta de segurança", mas para a qual contribuem decisivamente, com seus preconceitos e ostentações). A vida do garoto mudou, assim como a de sua família - mas o que estava errado antes disso permanece errado, já que eles tornaram-se um modelo de adequação ao sistema que antes os segregava. Amaury Junior aprovaria.
(Sobre o jogo de ontem: se tivéssemos o Grêmio "Prudente" no gramado do Pacaembu, ao invés do Santo André, haveria pouca diferença no que diz respeito aos procedimentos. Pois o Ramalhão estava em meio a uma disputa interna, a de jogar o que podiam para ver quem iria para onde, no fim desse campeonato. Agora que o Paulista acabou, o time está inteiro à venda, assim como o antigo Barueri, ao término do Brasileiro passado. Os interessados já estavam avisados; então, é só chegar e levar - igual às feiras de escravos no período de nossa colonização. A nova - velha? - ordem estende as suas garras, mais uma vez.)
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