terça-feira, 8 de junho de 2010

Bandeiras, bandeirolas... Band-aids!

Meus colegas do Setor 2 (la hinchada de Juve que construímos, Bury e eu, desde 2001 – uma “Odisséia na Mooca”), amigos e familiares não suportam mais ouvir minhas teorias e filosofias sobre o poder da mística no futebol e na vida. Nasci como apenas mais um “tijolo na parede” num mundo cada vez mais desconcertado, em pleno 1979 (quando o jovem Maradona levava a seleção juvenil argentina ao primeiro título mundial, no Japão), e fui morar exatamente na rua do estádio da Vila Euclides, em São Bernardo do Campo - “rumo à década perdida, à AIDS, ao pop, à repressão da publicidade cibernética!”, gritavam meus demônios. El Torito não resistiu à tentação da anistia aos inadaptados, decretada um mês antes do meu parto e aos gritos de “campeón, Dieguito!”. Se isso não é místico, con perdón de las damas, que la chupen! Não importa, o fato é que são cinco da manhã e meu estômago anuncia que a ansiedade pela estréia na Copa supera minha necessidade de dormir, e é nessas horas que costumo escrever. Sem mais delongas, eis meu desabafo.

No ano de 1986, minha alma não foi capaz de resistir ao espetacular Mundial do México, e dali pra frente eu seria um refém da magia deste jogo, com prazer e pesar. Lá estava Maradona, carregando a Argentina – que tempos depois, eu descobriria ser minha verdadeira paixão - ao seu segundo título, com requintes de vingança de sua nação, surrada pelo poder covarde do Império e, inquestionavelmente, assumindo sua posição divina no futebol (se ainda tens duvidas, pergunte ao povo de Nápoles sobre seus milagres). Mas provém de minha terra natal – o bom e velho Brasil – os melhores e piores exemplos de um mundo antagônico por opção e desesperador por conseqüência. Foi naquele ano que eu ouvi minha mãe gritar sua raiva e indignação quando, por um erro grosseiro, o sistema de som do estádio Jalisco fez ecoar os acordes melódicos do Hino da Bandeira (e não o Nacional), na estréia do excrete canarinho contra os espanhóis. Educadora e geógrafa, formada pela USP na tenebrosa década de 1970, a velha perdeu seu primeiro rebento, ainda grávida, durante (uma das) violentas reações a uma manifestação de estudantes, que protestavam contra a ditadura militar. Em 1984, ela era uma das milhares de mulheres que carregavam a bandeira brasileira nas ruas, exigindo direitos e amor, após anos de sangue e ódio. Ao seu lado, “caminhando e cantando”, estava o doutor Sócrates que naquela tarde ensolarada e errônea em Guadalajara, balançou a cabeça negativamente, imprimindo respeito, dever e honra àqueles que testemunharam a cena, como eu - antes de balançá-la positivamente para anotar o gol da vitória do Brasil (o primeiro que vi em mundiais). Não cabe aqui discutir os efeitos históricos (positivos e negativos) daquelas lutas políticas no cenário social tupiniquim. E sim, a descomunal diferença entre as gerações. O que vejo hoje é um Brasil abdicado de lutas pela maioria (como devem ser todas, claro) e cada vez mais parecido com seu “irmãozinho do norte” do continente. Até mesmo a pobre e antidemocrática bipolarização partidária se mostra (quase que) concretizada. E a Rede Globo (aquela “emissora” que nasceu com capital yankee para maquiar a ditadura das massas), com tons cada vez mais semelhantes de uma CNN da vida, jorra com deleite, a partir de sua tela venenosa, a “conquista” econômica nacional – “rumo ao grupo dos países poderosos!”, gritam Bonners e Mainardis, como fizeram Roosevelts e Washingtons. Minhas bandeiras são outras, e minha amargura é reflexo da falta de Sócrates na vida e no futebol – o esporte que do povo, se tornou apenas mais uma ferramenta no show-bussiness do Tio Sam (enquanto nos Harleems de lá, como nas Itaqueras de cá a gritante e sufocante injustiça social se mostra mais nua e crua do que nunca). Hoje, vejo um tal de Neymar chegar num campo de jogo cercado por oito seguranças particulares, protegido com seu walk-men e sua “inocente arrogância”, dizendo que não se importa com a eleição presidencial que virá por aí, logo depois da Copa da África. Para entender mais, acesse: http://antimidiafutebolclube.blogspot.com/2010/05/ascensor-para-o-cadafalso.html. Vejo também seu ídolo e exemplo de vida, o tal de Robinho, abrir seu “maroto” e intolerante sorriso, que tanto movimenta caixas registradores mundo afora, enquanto o Hino Nacional é estuprado (mais uma vez, por um erro grosseiro de organização), no amistoso contra Zimbábwe – mística ironia, o “clássico verde-amarelo” das duas piores distribuições de renda no planeta Terra. A gritante diferença entre gerações! Voltando no tempo, foi no mesmo México, durante os jogos olímpicos do místico ano das lutas sociais (1968), que atletas negros dos Estados Unidos protestaram contra seu governo e seu exército atômico, que estava prestes a levar uma surra humilhante nas selvas asiáticas. Se os guerreiros refletem seu tempo, Robinho faz envergonhar o legado destes de outrora, porque vive num período em que a sociedade de Mandela continua a praticar a mesma autoridade, segregação e racismo dos tempos do Apartheid. Hoje, a máscara da publicidade, apoiada na paixão dos turistas e torcedores, tenta esconder as execuções de ativistas sul-africanos e as destruições de comunidades tribais centenárias, para a construção de estádios que levam nomes de algumas famílias ricas do país sede do Mundial, repostas por meros contêineres de lata (como as que o senhor Paulo Maluf criou aqui em São Paulo, em 1992 – ano em que os paulistas e cariocas voltaram aos tempos medievais e resolverem seus problemas com tiros, nus e crus, no Carandiru e na Candelária). Lamentavelmente, esta máscara parece cegar primeiros os atletas, aqueles que sempre serviram de exemplo aos demais. Mas não é bem assim.

Estupidamente, resolvi me dar outra chance e assistir o tal de CQC – fraco jornalística e humoristicamente - pela Band (que, pensando bem, continua honrando o título de “o canal do esporte”, já que faz de suas transmissões aquilo que se espera da nova ordem: masturbar e vender). Eis que um idiota qualquer, em plena coletiva da seleção albiceleste, tentou tecer uma piada sobre a prometida nudez de Maradona, caso este vença a Copa. Ganhou de resposta um merecido desdém do defensor Demichelis que, claro, fora recebido pelo pulha brazuquete como “arrogância”. Estas dicotomias na relação entre o espírito mercantil e o verdadeiro do jogo (assim como entre Brasil e Argentina) me fazem crer que o futebol realmente se perdeu nas alamedas frias e previsíveis do mundo globalizado e parou no tempo para a maioria (e aí reside a dor, porque o futebol é, e sempre será, das massas). Enquanto a “seriedade” argentina se mostra perfeita para o papel do “turrão”, que a ninguém agrada, ao Brasil cai bem a função de bobo da corte moderno, de um país dos monarcas que acumulam riquezas (e mesmo não as distribuindo, usam os Tiagos Leiferts da vida para fazer a massa se orgulhar disto, com suas piadinhas ocas, enfadonhas e pouco informativas) e que prefere sorrir das desgraças mundanas a trilhar o caminho certo e, por isso, penoso da justiça dos homens. E num mundo estruturalmente desconcertado, é provável que o efeito da mística atue ao revés. Podemos ver Robinho campeão, sim, coisa que o doutor não logrou. Porém, Sócrates podia beber sua cerveja à vontade depois dos jogos porque era tão “do povo” quanto seus fãs (como já discorreu Bury, anteriormente: http://antimidiafutebolclube.blogspot.com/2009/11/saudades-daquilo-que-nao-vi.html). Suas bandeiras eram as mesmas, e suas cervejadas após as “peladas” idem. Não à toa, o visual do doutor carregava apenas esses elementos, além da barba e cabelos surrados. O que conta numa revolução, na verdade, é a atitude. Mas o que se vê agora é exatamente o oposto: falta de iniciativa e abundância de elementos visuais bem aparados. Hoje, os escravos boleiros são multados pelos seus colonos investidores e achincalhados pela mídia passiva quando flagrados nas baladas, porque a cotação de suas imagens despencam na Bolsa de Valores, e Uchoas e Buenos têm que engrossar o côro de “Robinhation, tion, tion” na telinha pra limpar suas “cagadas”.

Em resumo, espero que meu coração suporte os dias vigentes. Mais do que torcer por um ou outro time, o futebol atual define lados que correspondem mais ou menos à nova ordem. Assim como nas eleições, sempre há aquele lado que conduz a uma regressão de valores e esmaga o suor derramado por quem se importa. Em Brasília, em pleno ano do “milagre econômico”, vemos Malufs e Tumas recebendo seus salários milionários dos cofres públicos – crápulas que ocupavam cargos vitais durante a ditadura militar e que carregam, em seus votos decisivos para o destino da massa, a mesma alma que sangrava fetos e guerreiros de outrora para este “tempo dourado”. Se isso não é importante para Neymares, certamente pra quem precisa lutar para sobreviver o é. Ficam límpidos os motivos que fazem a seleção brasileira moderna ser composta por uma porção de individualistas que preferem inverter o lado da camisa para que seus nomes apareçam nas fotos, enquanto o escudo lendário de sua seleção é (literalmente) jogado para trás, como foi na desprezível comemoração do título da Copa das Confederações, no ano passado. E ganha justificativa moral a absurda tendência do povo brasileiro de portar a bandeira nacional em carros e residências, apenas durante um mês, de quatro em quatro anos – como se fora uma roupa da moda que logo perde a graça. Isso configura um desrespeito a um símbolo oficial da nação que dizem amar, e o fazem dependendo de um resultado num jogo de futebol! Porque assim que o time é desclassificado, jogam seus souvenires no lixo (http://www.fotolog.com.br/agonizar/16621525). E se ganham o fazem da mesma forma, assim que o gás da festa acaba. Não se portam mais bandeiras nas lutas sociais, e estas parecem não ter mais sentido para as massas envenenadas pela sedutora publicidade, que (apenas) parece amenizar a miséria. Para que se importar, quando seu ídolo não o faz em relação a outro símbolo oficial (no caso, o Hino), e a televisão já engoliu sua individualidade e seu país avança, “firme e forte”, para se tornar uma potência? Se isso for patriotismo, tenho mais orgulho ainda de ser um desertor da pátria de chuteiras! Torço para que a “místicas do Hinos” funcione, e que o time de Diego conquiste a taça neste caótico ano de 2010, como foi em 1986 – mesmo período de tempo que esperou o torcedor brasileiro para gritar "campeão!", após o título de Pelé, no mesmo México (a “mística dos 24 anos”). E pobre daquele que suspeite que eu derrame meu ódio ao Brasil e meu amor à Argentina por birra – como, tristemente, produziu a empresa dos Marinho. Sou assim porque não reconheço mais o Brasil de Sócrates e, principalmente, sei que vou me enamorar cada vez mais pela Argentina de Maradona. Questão de bandeiras, que homens livres e indignados hão de levantar e lutar por elas, eternamente! Com prazer e pesar. “Que Diós nos ajude! Rumo ao Tri!”, alentam meus anjos boleiros.

PS: * Simon arbitrará o prélio entre Inglaterra e Estados Unidos. A bomba, que tanto temem as autoridades, já foi lançada – e veio do Brasil! Para compensar, descrevo a genial manchete que o The Sun usou para definir o grupo do English Team no certame: “England – Algeria – Slovenia – Yankees”, colocados um sobre o outro, com as iniciais formando a palavra “EASY”. A mística do milagre no estádio Independência (1950) ainda vive para os inventores da bola!
* Um motel paulista redecorou seus aposentos com o tema da Copa – como se fosse um buffet para festas infantis. O camarada vai pagar para transar ou torcer? O futebol virou mesmo uma grande putaria!
* Aos intrépidos leitores deste sítio: o Imperador chegou em Roma! Que as cervejarias da cidade eterna preparem seus cofres e estoques! Faz-me-rir!

3 comentários:

  1. O CQC chegou depois para o Lampard na coletiva, e nas perguntas sobre o esporte, o reporterzinho do programa usava a palavra americana 'soccer', e não 'foolball', a maneira como o inglês o denomina desde sempre. Precisa dizer mais?

    E sobre o visual: outro dia vi um português, nem sei quem é, usando um visual típico de 'rock stars': brincos brilhantes, cabelo armado em um moicano, e braços inteiramente tomados por tatuagens. Provavelmente é um desses pernas-de-pau que compõem grupo, mas sua aparência "descolada" e "rebelde" o destaca dos demais. Repito: preciso falar mais o quê?

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  2. gracias fred. más sensacional es la banda de isla, la banda de la portuguesa!

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