
Segundo: a ascensão de Neymar mostra um mundo inapelavelmente corroído pelos manuais comportamentais de RH, o ditame do ser humano "evoluído" do novo século, ao lado das receitas de felicidade instantânea catalogadas em livros de auto-ajuda (livros esses que, sabiamente, não explicam que a busca mecânica e induzida por felicidade é contrária à própria idéia em si de felicidade, aparenta-se mais a um desespero social latente e está a um passo da patologia). Isso ajuda a explicar essa idolatria doente, pois são conceitos cada vez mais absorvidos por nosso tempo, parte identitária dos dias correntes: Neymar representa não o arrogante ou o individualista, mas sim o "pró-ativo", o que "lidera seu grupo à vitória", o "arrojado"; características essas as quais os psicólogos corporativos apontam em quem é "vencedor nato" para nortear seus critérios de seleção. Não é à toa que o jogador seja capa de Veja, portanto, um veículo que dá voz a tal mentalidade escriturária-robotizada e é direcionado a quem a valoriza e aplica em seu dia-a-dia. E tome números: quanto custa, quanto ganha, quantos patrocinadores possui, o quanto não sei quem vai lucrar, o quanto o Santos investiu, etc, etc, etc... Seria isso uma planilha de Excel ou uma matéria sobre jogador de futebol? Nesse nebuloso 2011, está cada vez mais difícil fazer a separação.
(Só para constar: me sinto um tanto quanto tentado a defender o Pelé jogador, e não tenho o menor problema com isso, haja visto a distância que vai ficando maior dele a cada geração que surge, e também a obrigatória negação ao modernismo que daí deriva - mas determinadas atitudes tomadas pelo "Rei" são de uma estupidez alarmante. Como manter a boa vontade depois de conferir Edson no Pacaembu usando o terno do patrocinador, permanecer em um camarote cercado de políticos, e ainda querer um naco dos holofotes ao descer para fazer populismo junto ao time no gramado? Nivelar seu maior jogador ao nível dos outdoors ambulantes de hoje, outro serviço prestado pelo futebol moderno - e no qual Pelé mergulha de cabeça sem pensar duas vezes.)