segunda-feira, 20 de julho de 2009

Torcedores x HDTV

O fato a seguir é real e está acontecendo cada vez com mais freqüência e intensidade. Pior: responde a uma cultura importada da Europa, onde o torcedor é mais bem visto no sofá de casa do que nas arquibancadas dos campos. No país pentacampeão mundial de futebol assim é tratado o torcedor, o cidadão comum, o ser humano.


Meu primo Sérgio tem 43 anos e torce para o São Paulo há quase trinta. Mas há um bom tempo parou de acompanhar o futebol como antes o fazia. Ele também já percebeu que a essência do jogo morreu, mas sua ausência está mais ligada ao fato de que ele não tem mais condições para se dedicar ao futebol, como em seus tempos de “Juventude Tricolor” - torcida que tinha a sede no bairro da Mooca, e que com ela percorreu vários estados atrás de seu time. Além disso, Sérgio era fã de boa música: durante os anos 80, assistiu os concertos do Kiss, Queen, Ozzy Osbourne, Iron Maiden, Whitesnake, AC/DC, entre outros. Portanto, além de conhecer futebol, ele certamente sabe como funcionam os grandes eventos culturais. Será mesmo? Neste final de semana, ele recebeu a visita de uma família de amigos vinda de Brasília, e o programa era assistir o clássico contra o Santos, no estádio que daqui a cinco anos estará sediando a partida inaugural de mais uma “Copa do Mundo”. Ele saiu de casa cedo e chegou ao estádio às 13 horas e 30 minutos, onde encontraria o restante do grupo – portanto, restavam 2 horas e meia para o pontapé inicial. Inútil, pois as bilheterias haviam sido fechadas ao meio dia, segundo informou um daqueles cidadãos que vestem uma roupa com a inscrição de “Orientador”. Desorientado e chocado, Sérgio rumou até o portão principal do clube. Um funcionário o informou que o procedimento atendia as ordens da polícia militar, que pretendia evitar tumultos antes de uma partida de risco, como eles adoram denominar. Próxima parada: um sargento que se postara a alguns metros de onde um grupo de cambistas vendia entradas livremente. Uma vez mais, Sérgio não encontrou nenhum esforço para que a sua situação se resolvesse. Questionou sobre a venda indevida de ingressos, e recebeu a seguinte resposta: "preciso de um flagrante e uma denúncia formal, onde deve constar o autor da mesma. Se você comprar um ingresso de algum deles, poderemos agir”. A última tentativa foi com um repórter que, após ouvir o caso, disse que não havia tempo para tal pauta, e entrou sorrindo nas dependências do clube que Sérgio tanto defendera – e que continua sendo apontado pelos principais veículos de comunicação como um grande exemplo de administração esportiva. A passividade de todos não deixou outra opção: ele ligou para os amigos repassando a péssima notícia, que, por sua vez, deixou as crianças que vieram de tão longe, ávidas pelo domingo de futebol, com seus corações certamente mais tristes e vazios. O de meu primo pegava fogo de raiva, e ele foi embora para casa, se sentindo um escravo isolado pelos muros que a censura e a incompetência haviam levantado nestes anos. Era realmente uma partida de muitos riscos.


No caminho de volta, envolto em melancolia, Sérgio percebeu que não basta mais amor ao clube e vontade de ir ao estádio. Hoje, você tem que se enquadrar e aceitar tudo, de cabeça baixa: os preços astronômicos das entradas, os horários imbecis dos jogos, a complacência daqueles que são pagos por você mesmo para cumprir determinadas funções – isso sem mencionar a mediocridade dos jogadores. O estádio ficou vazio durante o prélio, o que faz acreditar que os sofás estavam “abarrotados” por toda a cidade. É o dinheiro de um torcedor sendo trocado pelas quantias pagas pelos assinantes dos canais privados. Quase em nada lembrava aqueles clássicos que ele assistiu quando ainda acreditava no futebol. No dia seguinte, o Globo Esporte afirmou, sem deixar espaço para qualquer questionamento, que a falta de gente era culpa das campanhas ruins que ambos os times vinham realizando no campeonato – de maneira despudorada e descontraída, como sempre funcionou o Império da mentira. Crianças apareceram na matéria, para deixar claro que as famílias estavam de volta aos estádios. E como vivemos num país onde resistir vale menos do que um doce, podemos esperar o agravamento dessa situação até 2014. Como diz meu amigo Bury: socorro!

3 comentários:

  1. Gostei da homenagem a Orlando.

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. É cara, é complicado. Nós nos fodemos, para que os que não gostam de futebol possam assisitr de forma confortavel e bonitinha a peleja na cancha!

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